domingo, junho 16, 2013

democracia

Este post é dedicado àquela menina de 20 anos que queria mudar o mundo.

Em 1968, quando foram feitas as fotos acima, eu estudava jornalismo na PUC e ao mesmo tempo lançava meu primeiro LP, com composições minhas e de alguns amigos. Tinha eu 20 anos de idade, participava dos protestos e das passeatas e estava engajada nas mudanças que (sonhava nossa geração) haveriam de vir. E elas vieram, à custa de anos e anos de lutas, censura, exílio, prisões-  e, para alguns, torturas e morte. Finalmente a democracia se impôs. Mas que democracia?

"Democracia", leio hoje, "não é cada um falar o que quer: é aprender a ouvir o outro". Bravo, apoiado. E leio mais: "Um país onde a política econômica é toda voltada apenas para o consumo individual tem alguma coisa de muito errado". "Vandalismo é não ter vaga nos hospitais públicos, destruição é o que acontece quando uma família perde um filho para a violência, violência é o salário que se paga ao professor". "Nossos sonhos valem mais que 20 centavos". Tudo isso e mais um pouco.

Hoje penso que nossa geração foi traída em seus sonhos, e tenho portanto a obrigação de me solidarizar com a juventude que ocupa as ruas, pois essa responsabilidade também é nossa. Perdoe, rapaziada, se não fizemos melhor. Lembro de um antigo quadrinho do cartunista argentino Quino, criador da maravilhosa Mafalda nos anos 1970: ela tinha uma amiguinha que se chamava Libertad e era a menorzinha da turma. "Libertad, por que eres tan pequeñita?" - ela perguntava. E é isso. As liberdades, as verdadeiras, são sempre pequeninas. Cabe a nós testar estes limites, hoje mais do que nunca, diante dos sustos nossos de cada dia. "1984" (releiam Orwell!) está acontecendo ao vivo e a cores no mundo.

E o mundo está mesmo me deixando perplexa.

6 Comments:

At 9:38 PM, Blogger Luiz Antonio said...

Algumas coisas ainda não estão claras para mim, nesses manifestos, que por sinal iniciaram aqui no RS e são atos de uma juventude que eu conheço, estou pensando nessas coisas :
1)por preço de passagem? Estudante paga meia e nunca deu importância para isso.
2)aqui há evidente cunho político do PCdoB (oculto nos atos. mas presente na derrota de Manuela Dávila á prefeitura)
3)A internet sem dúvida está sendo a maneira divulgar essas manifestações e repeti-las mundo a fora
4)Como deve ser para o PT lidar com manifestações como essas, que relembram as da juventude de seus atuais governantes, e conviver com vaia geral a Presidenta, a partir de atos possivelmente articulados por seus oposicionistas que sempre repudiaram partidos como o PT justamente por se valerem desse tipo de manifestação.
5)Os atos de hoje, em minha opiniao, em nada tem haver com os atos que sua geração vivenciou, na questão de conceito. Não se batalha por questão social, não há esse perfil nessa juventude.
6)Os manifestos estão endo feitos para serem postados no facebook, mostrar o poder da internet mais que por um objetivo social;
6)Há forte conteúdo politico oposicionista, mas a juventude envolvida não é engajada politicamente para tanto, mas é conectada.
6)A certeza de que, em qualquer momento da vida: quem bate leva e que uma bala de borracha disparada por um agente de ordem sempre será interpretada como privação de direitos.
O buraco é mais em baixo nesses atos do Brasil e digo: mais embaixo porém não é por isso que seja "profundo" como eram os de seus vinte anos anos.
Não existe mais boquiabertos vinte anos hoje em dia. (faço menção a música de F.G. e a ingenuidade )

 
At 10:39 AM, Blogger joyce said...

Luiz, o bacana é que não são manifestações partidárias, não têm liderança (em SP, no RJ, em BH, ninguém tem a menor ideia de quem é Manuela Dávila... O PC do B não existe por aqui!) Se alguém se apresentar como liderança, estará mentindo.
É uma classe média (média mesmo, não a chamada "nova" classe média, que não é escolarizada o suficiente e recém teve acesso aos bens de consumo), que paga impostos altos e não vê retorno nem na saúde, nem na educação e muito menos na segurança.
Foi a classe média que saiu às ruas em 1968 (Zuzu Angel dizia: "minhas costureiras não estão interessadas em política, e sim nos ônibus que têm de pegar pra vir trabalhar"). Isso não mudou. O povão não protesta. São sempre estudantes, artistas e profissionais liberais, protestando no interesse geral.

 
At 11:43 AM, Blogger Luiz Antonio said...

Joyce, é sem dúvida um debate daqueles infindáveis que por isso mesmo devem "parar" na troca de informações e respeito a opinião do outro como é a política aqui do blog.
Só por curiosidade coloco que li a pouco que um sociólogo já afirmou serem atos da nova classe média, que provou do que é bom e sabe também o que é "não ter tido". Então está querendo mais e melhor.
Concordam que o fenômeno das redes sociais está mostrando seu poder quando na Alemanha houve manifesto pelas passagens, ainda que a título de solidariedade aos protestantes que foram atacados pela polícia no Brasil.
E a Manuela Davila, 31 anos, foi fenômeno eleitoral no RS, vereadora e musa de Brasilia, onde é Deputada Federal mais eleita pelo RS.
Em 2005, em seus discursos disse que mesmo sendo do PC do B, o muro de Berlim havia caído quando ela tinha 8 anos e que nãos se esperasse dela as mesmas atitudes de seus antepassados de filosofia política. Na minha opinião nem novas e nem velhas atitudes ela tomou.
Está difícil identificar partidos, as alianças mais insólitas são criadas hoje para dar base a governança no País, então tá tudo misturado.Mas existem, estão pulverizados e o alvo é a Presidência, testar sua tolerância ao ser alvo de uma de suas mais legítimas formas de manifestação de descontentamento.
Acho que INTOLERâNCIA, teu post anterior, é o sentimento mais identificado por mim nos protestos do que insatisfação social. Tomara que evoluam para causas mais nobres como saúde e educação. Dai teriam mais razão. Adoraria ver a rapaziada brigando por mais leitos hospitalares e menos torres de garagens de hotelaria de luxo nos hospitais, afinal carro não fica doente.
E isso aí...
(não tenho partido, porque eles já partiram faz tempo. acredito na pessoa e sua proposta depois vou verificar a sigla "temporáriamente" escolhida por ela)

 
At 9:29 AM, Blogger LUIZ said...

Quando escrevíamos os comentários acima, não imaginávamos (eu ao menos ,não) o que estava para acontecer no decorrer da tarde de ontem.
POA, acredito, foi uma das cidades mais violentas na forma de manifesto.
Ao longo do dia de ontem passei a ter melhor visão do que está rolando.
A falta de foco torna imprevisíveis os rumos dos protestos, sintetizados na frase “contra tudo o que está aí”. A dúvida é se será fogo de palha, que passará como passaram as manifestações contra o pastor Marco Feliciano, ou se o descontentamento se converterá em alguma ação mais concreta contra governos ou instituições.

 
At 1:35 AM, Blogger Cyntia said...

Já quero começar pedindo desculpas se eu escrever muito, mas diante dos comentários eu não posso não dizer nada.
Não é só pelo preço da passagens, Luiz. Não tem só estudante protestando e mesmo pagando meia, espírito de solidariedade com os outros não nos falta. O problema é aumentar 20 centavos e todo mundo continuar passando por humilhação todos os dias ao andar em ônibus lotado, com elevadores para cadeiras de rodas quebrados e motoristas exaustos e despreparados. Eu estou participando das reuniões para a organização da marcha na minha cidade para cobertura da TV onde faço estágio e posso te dizer que os "20 centavos" são só pontas de um grande iceberg. Estamos sim "brigando por mais leitos hospitalares", tanto quanto estamos lutando por um transporte público de qualidade, pelo fim da impunidade dos crimes políticos e principalmente por uma educação de qualidade, que nós atinge diariamente. Não é só porque vou atrasar minha formatura por causa das greves, é por ter direito a uma sala de aula com o mínimo de dignidade, que tenhamos pelo menos um ventilador para não desmaiar de calor, porque eu, você e todos os brasileiros pagamos impostos a cada passo de damos. Universidade pública não é de graça.
Pode até parecer que nada nesses protestos tem sentido ou direção, mas é difícil como estudante ou juventude carregar essa "culpa" de não poder controlar uma população gigantesca que vai pra rua indignada. A gente faz o que pode, imprime panfletos explicativos, tenta conter vandalismo, divulga na internet as nossas reivindicações.
Sobre o envolvimento dos partidos políticos, a maioria dos manifestantes é contra esse tipo de participação. Tanto em pesquisas feitas nas páginas para a organização das marchas, quanto nos encontros nas Universidades. Eu não pertenço a partido algum, também não participo de diretório acadêmico e era contra, mas depois das reuniões cheguei a conclusão que a gente precisa saber quem eles são. A gente precisa ver como eles se posicionam e os partidos que não estão lá, já mostram de que lado estão sambando. E isso é muito importante na hora de votar. Sabemos que muitos partidos políticos tentam se escorar em protestos para aparecer, mas isso também serve para termos argumentos para criticá-los.
Enfim, infelizmente dependemos de grandes meios de comunicação de massa para que a população entenda o foco que queremos dar aos protestos. Tá todo mundo focando nos 100 vândalos e ignorando o que os outros 100 mil estão tentando dizer.

 
At 1:12 AM, Blogger Luiz Antonio said...

Joyce tenho que dizer;
Cyntia fui surpreendido (para o bem) no rumo que as manifestações tomaram.
Eu estava totalmente desacreditado da juventude de hoje em dia. Não dava sequer para imaginar que havia engajamento, opinião formada sobre questões relevantes no Brasil.
Sou pai, tenho uma filha de 12 e uma de 5. Temia (e continuo temendo) o país que elas herdarão. Vi e continuo vendo a juventude de hoje se perdendo muito cedo com bebidas em excesso, velocidade em excesso em carros cada vez mais velozes, "que o papai comprou" para ver o filho sair da frente dele e não incomodar. Vejo o consumismo exacerbado da classe média, vejo filhos da classe média tratarem professores com desrespeito sem merecimento algum "porque meu pai paga essa escola para que eu tire boas notas". Vejo até a nossa amada música, que nos fez encontrar aqui no blog, passando muito longe dos ouvidos da grande maioria dessa juventude que vive a "sensualizar" num batidão funk....e paralelo a tudo isso o pobre marginalizado rondando os bairros, os tênis de marca, o ipod e tudo aquilo que ele não pode ter, mesmo sendo um cidadão brasileiro.
Não tava levando fé na "rapaziada" porque vejo essa falta de limites e respeito ao próximo muito perto de meu dia-a-dia. Em nome disso tudo busco criar minhas filhas dentro de uma visão crítica e não foi nem uma vez e nem duas que pensei em levá-las para fora do Brasil quando encerrarem o segundo grau e lá irmos viver, até que elas decidam o rumo de suas vidas na idade adulta. Uma hipótese dolorida de deixar a terra em que nascemos. Planos menos ousados incluem ir morar no interior do RS. Enfim, um descrédito que parece pode estar com seus anos contados; "e sonhos de moço pensam ser devagar,morreram com quem já não é." "menino eu quero acreditar" "Dar liberdade quem está atrás de mim, Menino, quero acreditar” “Ah, isso eu quero acreditar"
Boa sorte!

 

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