Os acasos da vida me fizeram reencontrar um velho amigo: o grande Evandro Teixeira, papa do fotojornalismo brasileiro de todos os tempos, que me presenteou com estas fotos que aqui posto. São fotos de um show que fizemos em 1968, na boate Sucata, de Ricardo Amaral, e que me rendeu um capítulo no meu livrinho de memórias 'Fotografei Você na Minha Rolleiflex'. Tivesse eu estas fotos quando foi publicado o livro e elas teriam certamente sido incluídas.
(na foto acima, estou concentradíssima, lendo, ou tentando ler, uma partitura, com aquela cara de lua que eu tinha aos 20 anos... e na de abaixo, além de mim e do Bituca, estão Marcos e Francis, este ao piano, além de um irreconhecível José Roberto Bertrami, futuro Azymuth, e Novelli no baixo. Faltaram, do nosso grupo, apenas Wanda Sá e o baterista Vítor Manga)
Segue abaixo o capítulo em questão, que acho que continua pertinente até hoje...
SUCESSO
Sempre me perguntei como seria se em vez de se lançar um disco com o
título O melhor de Fulano, fosse
lançado O Pior de Fulano. Ou se em
vez de se fazer uma Parada de Sucessos,
se fizesse, como um dia sugeriu um amigo meu, uma Parada de Fracassos. Grandes surpresas poderiam advir deste novo
conceito. Inclusive a descoberta de que o fracasso de anteontem pode ser o
sucesso de depois de amanhã _ e vice-versa. Coisa mais fluida, esse tal de
sucesso: assim como vem, vai; de repente volta de novo, vai outra vez, torna a
voltar, como as luas e as marés. Pior pra quem esquenta a cabeça com isso.
Eu por mim, se fosse voltar atrás e eleger os mais marcantes tropeços da
minha razoávelmente longa carreira, teria infalívelmente que passar por uma
temporada feita no remoto ano de 1968, numa remotíssima casa noturna chamada
Sucata, na Lagoa. O nome da casa já não era dos mais promissores. No entanto,
era um lugar mais ou menos da moda, sugestivamente decorado com ferros
retorcidos que pendiam do teto ou surgiam pelos cantos. Nesta casa eram
realizados espetáculos de música de médio porte, e foi de boa vontade que
aceitei participar de um show criado pela dupla Miele-Bôscoli, que se chamaria,
singelamente, Festival.
A idéia deste show era bastante simples: juntar cinco vozes mais ou menos
recentes, de diferentes
tendencias, numa temporada que correria paralela ao Festival
Internacional da Canção, para que os artistas convidados para a parte
internacional do festival pudessem também assistir aos espetáculos. Um show
para gringos, enfim. O elenco escolhido incluía, além de mim, Marcos Valle,
Milton Nascimento, Francis Hime e Wanda Sá, e por aí começava a se desfazer o
conceito: os cinco éramos grandes amigos, fãs uns dos outros, e a música que
amávamos era, com poucas variantes, a mesma. Um elenco, portanto, menos
heterogêneo do que pretendiam
nossos diretores. Ainda assim, a dupla caprichou num press-release que destacava nossas diferenças. Marcos Valle, que na
época era sem dúvida o mais bem-sucedido entre nós, seria o “novo ídolo jovem”.
Francis, conforme dizia uma gravação de seu parceiro Vinícius, incluída no
roteiro, era “o pequeno príncipe da música popular brasileira” _ referência
pouco sutil às suas origens aristocráticas. Wanda representava a bossa-nova,
com total propriedade, diga-se de
passagem, e Milton recebeu a duvidosa definição de “a moderna voz negra, culta
e evoluída”. Quanto a mim, a parte que me coube neste latifúndio me apresentava
como “representante da juventude rebelde” _ sabe Deus lá o que isso queria
dizer.
O trio 3-D, com Zé Roberto, Novelli e Vítor Manga, era a nossa banda de
apoio. Os ensaios corriam bem, cada um de nós preparando um ou dois números
solos, e mais alguma coisa em conjunto com outro. Assim, eu fazia um número com
Wanda e outro com Bituca. Wanda cantava também com Francis, Bituca com Marcos,
e por aí vai. O número dos dois, aliás, era o grande hit do espetáculo,
nada mais nada menos que a célebre Viola
Enluarada, que eles tinham acabado de gravar juntos. Eram tempos ainda
duros para Bituca, e Marcos, em fase excelente de carreira, era um seu grande
incentivador.
Bituca
morava num quarto-e-sala em Copacabana, na rua Xavier da Silveira, que ele
dividia com amigos: Hélvius Vilela, Celinho do Pistom e sra., Nivaldo Ornellas,
Novelli e quem mais chegasse. Éramos como irmãos, corda e caçamba, e ao ver que
não cabia mais sequer um alfinete naquele recinto, acabei topando fazer da
minha própria casa uma extensão daquele consulado mineiro, com as bênçãos
levemente desconfiadas de minha mãe. Outros amigos cariocas estavam fazendo o
mesmo, e assim havia recém-chegados de Minas espalhados pelas casas de Luizinho
Eça, Mauricio Maestro, Ronaldo Bastos e outros mais. Foi nesse conturbado
ambiente que eu e meu amigo mais querido ensaiamos o nosso número para o show.
Era Tarde, uma parceria belíssima
dele com Márcio Borges, onde eu começava cantando no meu tom, numa preparação
para o clímax que seria a entrada de Bituca, com sua voz divina, um tom e meio
acima. A idéia era gravarmos juntos essa música para o próximo disco dele _
idéia que não foi em frente, pois naquela época não era ainda moda por aqui o
uso do recurso “gentilmente cedido por...” Pertencíamos a gravadoras
diferentes, não houve entendimento, e a gravação acabou saindo com meu amigo
sózinho, cantando toda a primeira parte no
porão, ou seja, no meu tom, grave demais para ele, felizmente cercado por
um belo arranjo de Luizinho.
Nosso espetáculo estreou, portanto, com alguns grandes momentos e outros
tantos tropeços. Estes ficavam por conta do hilário texto que era dito em off pela voz de Miele, simulando uma
entrevista com perguntas modernas do
tipo “Wanda Sá, o que você acha da pílula?” Eu, por minha vez, levava a sério
aquela história de juventude rebelde, e fazia meu personagem com gosto, com
todas as malcriações de praxe. Francis, tão meticuloso quanto tímido, ensaiava
diàriamente sua entrada em cena, contando o número de passos até o piano.
Raramente dava certo, e nossas gargalhadas atrás do palco eram ouvidas da
platéia. Ah, sim: havia ainda
o detalhe da platéia.
Nossos produtores pareciam
cada vez mais preocupados com o escasso público. Nós, não: estávamos ali para
nos divertir, e quem nos interessava estava lá, como Elis - na época casada com
nosso diretor Ronaldo Bôscoli - que não perdia uma só noite. Tinha suas razões:
Wanda fazia um sensacional medley de
voz e violão, com as músicas Nêga do
Cabelo Duro e Aquarela do Brasil,
que Elis acabou gravando em seguida no próprio disco, com arranjo absolutamente
idêntico. Generosa, Wandinha nunca mencionou o fato. O show prosseguia,
cantávamos para os amigos e a produção se descabelava pela falta de pagantes.
(cabe aqui um remix do texto original: a própria Wanda acabou nos contando mais tarde que ouvira este medley diretamente de ninguém menos que João Gilberto - o que já daria a Elis cem anos de perdão...)
Fomos finalmente informados de que a casa resolvera encurtar a temporada
e colocar em nosso lugar um show dos tropicalistas baianos, de maior potencial
de bilheteria. Assim foi feito. O show dos baianos foi de fato um sucesso, e
como dizia o Tom, sucesso é um perigo: por causa desta temporada, num nebuloso
episódio envolvendo a bandeira nacional, Caetano e Gil seriam presos. A boate
Sucata virou, tempos depois, o Teatro da Lagoa. Nossos elencos seguiriam em
frente, cada um de nós em seu caminho, prontos para as próximas luas e marés em
nossas vidas.