domingo, maio 05, 2013

Europa 2013

 Tanta coisa a contar que até dá preguiça... Começamos com uma foto do nosso quarteto em Veneza, onde reencontramos amigos queridos e fizemos um show que nos deixou com o coração em festa... Antes disso, já estivéramos na deslumbrante Provence, paixão instantânea.

 Quem organizou nosso show em Aubagne (que fica ali do lado de Marseille) foi o próprio público. Crise na Europa, festivais e clubes de jazz com pouca grana, os franceses foram à luta e nos levaram em regime de crowdfunding: cento e poucas pessoas fizeram o que nós brasileiros chamamos de 'vaquinha' - et voilà! O show se fez.

Difícil falar de cada cidade, numa turnê longa como essa. Cada uma teve seus aspectos e seus momentos. Todas, sem exceção, nos deram alegrias. Em cada uma havia pessoas que tinham uma história própria pra contar, envolvendo a minha música em suas vidas. Isso não tem preço.


 Londres é sempre um must, ainda mais que este ano se completaram 20 anos de minha primeira apresentação por lá - e isso não deixou de ser lembrado pela imprensa inglesa: 20 anos de relação estável... Só alegria!

Abaixo, nossa passagem de som no Tapiola Hall, sala onde se apresenta a sinfônica de Helsinki, na Finlândia, e que se encaixa no que eu sempre digo: é impossível errar nesse tipo de sala de concerto. A música parece que toca sozinha.
Enfim, irei aos poucos lembrando uma ou outra coisa dessa viagem que foi, mais uma vez, tão feliz. A vida parece que se nutre desses momentos e fica em suspenso, esperando pelos próximos. Não há nada que se compare à alegria de fazermos a música que amamos para ouvintes que a amam de volta. Como eu queria que o Brasil abrisse os ouvidos um pouco mais!


terça-feira, abril 16, 2013

Mini-reflexão pós feminista

Pequena reflexão num dia off, sobre um artigo postado por uma amiga querida:

 O papel da mulher na sociedade ainda é confuso. O lance é que somos sempre cobradas, seja qual for nossa escolha: só carreira, ou só filhos, ou tentar equilibrar as duas coisas (e como em todo equilibrismo, às vezes uma xícara cai...). Outro dia, numa entrevista que eu dava para um amigo, devolvi a pergunta dele: e você, como concilia carreira e paternidade? Deu branco... Por que esta pergunta só é feita às mulheres? Cada uma que escolha como prefere viver. Sem cobranças.


quarta-feira, abril 10, 2013

Fui!!!



segunda-feira, abril 01, 2013

é dura a vida da bailarina

Por uma coincidência da vida, estamos seguindo para a Europa mais ou menos na mesma época em que fomos nos anos de 2009 e 2011 (aqui, estamos na porta do Ronnie Scott's, em Londres. Não reparem na data da foto, está errada). Esse tipo de turnê, temos feito mais ou menos a cada dois anos: uma turnê mais extensa, onde visitamos de dez a quinze países diferentes, mudando de cidade praticamente todos os dias - em teatros, festivais, clubes de jazz, com plateias de tamanhos variados. É diferente do que fiz em Praga no ano passado, por exemplo: viajar com certa antecedência, fazer um ou dois concertos num teatro de grande porte e retornar in style. Numa tour tipo essa que iremos fazer agora, o glamour inexiste: é pau, é pedra, é trabalho de operários da música mesmo. E eu adoro!

Esse tipo de trabalho é comum na cena do jazz mundial, que é a que nos abriga. Por isso estamos sempre esbarrando em amigos na estrada que também vivem essa mesma realidade, como os queridos Joe Lovano, Kenny Werner e tantos outros. Alguns (poucos e corajosos) brasileiros também encaram a estrada dessa mesma forma - Marcos Valle, por exemplo. Outros já não encaram mais, e se dizem cansados dessa pauleira. Eu fico fisicamente cansada também, mas confesso que não estou preparada pra desistir. Diante da mesmice do Brasil, onde tudo é tão difícil e se precisa implorar patrocínio para as coisas mais simples, penso que se eu parar de viajar, minha música para também. Então vou indo...

Vejam bem, falo aqui da MCB, a música criativa brasileira (conceito que inventei de brincadeira, e o Menescal adorou). Pra quem faz da música um comércio, e não o ar que respira e o pão que come,  tudo fica mais fácil. Às vezes tenho de explicar: não faço música porque quero fazer. Não escolhi a música, a música me escolheu e eu estou no mundo para servir a esta escolha. tenho plena consciência disso.

Viver desta cena do jazz demanda coragem. A visibilidade é menor, o dinheiro também (principalmente quando se quer manter a identidade brasileira da música. E aliás, raramente aparecem brasileiros na plateia...). Em compensação, a liberdade é infinita, e é essa liberdade que me move. Do contrário eu estaria presa a uma vida que não me interessa, fazendo, ou tentando fazer, uma 'Clareana' por ano, correndo desesperadamente atrás do sucesso, obedecendo às tendências do momento. Não sou, jamais quis ser, uma 'canária', uma 'cantora': minha voz é um instrumento que serve ao meu pensamento musical. E é a esse que obedeço.

Parabéns a quem faz música comercial porque gosta. Que felicidade, e que vida simples deve ser... Eu só sou feliz quando faço a música que me move, aquela que vai um pouquinho além de mim e me empurra para diante. Aquela que a maioria do público no Brasil, mesmo quem gosta de mim, desconhece. Como um dia disse Antonio Maria, a propósito de uma crônica: "sinto muito, mas pior que isso eu não sei fazer". Por isso vou em frente, em busca de um lugar onde o inesperado na música seja sempre bem vindo. Por isso estarei na estrada mais uma vez, semana que vem.


quarta-feira, março 27, 2013

Um garoto brilhante

 O adolescente que (nos anos 1960 e poucos) abandonou o sax-alto, instrumento que já tocava profissionalmente, pela bateria - depois do impacto de ver ao vivo, em Salvador, Edison Machado tocando -  completa 50 anos de música. Com a mesma alegria!

Amanhã ele estará no SESC Copacabana, aqui no RJ, tocando com seu trio (ele e mais Rafael Vernet e Zeca Assumpção) e os convidados Moreno Veloso e Davi Moraes. Eu não perco de jeito nenhum!

PS- foto recente de Myriam Villas Boas, a nossa Miroca.


quinta-feira, março 21, 2013

vozes brasileiras

A perda - irreparável para quem ama a música do Brasil - do querido Emílio Santiago leva a uma reflexão: onde estão as novas vozes brasileiras? Onde anda o nosso jeito de cantar? aquele onde o(a) cantor(a) canta com sua própria voz, ou seja, com a voz que tem, aquela mesma com a qual ele, ou ela, falam?

Disse o sábio Elton Medeiros no texto do livreto que acompanha o CD 'Samba Sincopado', de Ana Martins: "A vida brasileira, ainda no início de sua cultura humana, viu-se contaminada pela música. Através do imaginário de seu povo, criou características para as artes de compor e interpretar obras musicais, o que significa o surgimento de uma escola para exprimir, bem ao nosso jeito, nossas vocações".

Não vemos mais essas características facilmente por aí. Hoje, seja nos concursos de talentos, seja nos lançamentos de novos artistas, o que se vê é uma profusão de vozes emitindo vibratos, vozes de quem estudou canto, vozes padronizadas em jeitos de cantar que são iguais em qualquer lugar do planeta, sem a marca do canto brasileiro, sem o suingue que é tão nosso, sem a síncope que é a nossa assinatura. Pior, sem alma. Quantidade não é problema: nunca se cantou tanto. Qualidade também não: não é que as pessoas não saibam mais cantar. O problema é que é tudo mais do mesmo.

Não estou cobrando que apareçam cantores e cantoras geniais como os que tivemos no século XX. Eras de ouro não duram para sempre, bem sei. Muito menos prego uma volta ao passado recente. Mas que as novas vozes brasileiras possam ao menos conhecer este legado, dar continuidade - e renovar esta cena, se quiserem e forem capazes.


domingo, março 17, 2013

sonho americano, parte 2






1989, 31 de janeiro. Meu aniversário de 41 anos. Cheguei em casa de um jantar com a família e havia um recado na secretária eletrônica: "Happy birthday, Joyce! Aqui é Richard Seidel, vice-presidente da Polygram USA. Gostaria de falar com você sobre vir a Nova York e gravar um disco conosco."

Presente de aniversário era pouco. Era o sonho americano abrindo as portas para mim mais uma vez, eu que já tivera uma frustrante experiência em 1977, com o famoso disco com Claus Ogerman,  "Natureza", jamais lançado. Eu não conhecia Seidel pessoalmente, mas depois fiquei sabendo que ele conhecia alguns discos meus anteriores e também que Tom Jobim, que estava terminando de gravar seu 'Passarim' para a Verve (o braço jazzístico da Polygram norte-americana) havia indicado meu nome a eles. Eu gravara um disco com seu repertório, em 1987, do qual o maestro havia gostado muitíssimo. E assim foi que surgiu este convite.

Organizei a vida e fui a NY, onde conversei com Seidel e outras pessoas da gravadora. Seria uma volta ao esquema das majors, que no Brasil eu não frequentava havia anos. Por isso procurei um advogado americano, caríssimo, mas de confiança, indicado pelo Bituca. Ele era advogado de artistas pop como Madonna, o que já dava uma ideia do quanto seus serviços custavam por hora - mas paguei com prazer, queria me certificar de que dessa vez tudo daria certo.

Quase deu. Assinamos o contrato, e me foi pedido que eu voltasse para casa e fizesse uma fita demo no Brasil, com músicos da minha escolha, que possivelmente seria usada como base do disco. O diabo mora nos detalhes: possivelmente. Gravamos com o grupo que tocava comigo na época. Chegando de volta a NY, surpresa: não era nada daquilo que a Verve queria.

Gravadoras às vezes são como certos maridos: apaixonam-se por uma mulher, por tudo o que ela é, e depois querem que ela mude sua essência e a festa acabe. Pois mesmo depois de saber o que eu era, ouvir meu som, ver o jeito com que eu queria que minha música fosse feita, Mr. Seidel declarou sem meias palavras que gostaria que eu regravasse tudo com músicos americanos. Fiquei assustada e preocupada em como o suingue brasileiro da minha música seria preservado. Especialmente porque havia uma cumplicidade de linguagem entre meu violão e a bateria do Tutty que leváramos anos para construir. E também porque o próprio Tom jamais abria mão de usar bateristas brasileiros: Doum Romão, João Palma, Paulo Braga. Nem mesmo gravando com Sinatra houve esta questão. E se houve, ele resolveu favoravelmente.

Mas eu não tinha o poder de fogo do soberano maestro. E tive de engolir (afinal, já havia um contrato assinado) o que a gravadora me impunha: músicos americanos, para que o som ficasse com a cara do estilo fusion que era moda naquela época - e que eu respeitosamente detestava. Os músicos eram de fato ótimos, a fina flor do jazz novaiorquino daquele momento, e com alguns deles construí uma sólida relação de amizade, que dura até hoje. Mas a base ficou dura demais, sem aquele não-sei-quê-que-faz-a-confusão, que só uma base brasileira daria.

Acabou que gravei várias faixas apenas de voz e violão, ou de violão e percussão, aí sim, com a colaboração do brasileiro Café, radicado em NY. E ainda são minhas preferidas deste disco. Dentre elas, improvisada no estúdio, uma leitura minha para 'Help', dos Beatles: "help me get my feet back on the ground... won't you please, please help me..." Era o desespero que eu sentia naquele momento.

No ano seguinte eu gravaria o segundo disco para a Verve, aí já com uma base mezzo-brasileira. Mas ainda não era minha música do jeito que eu queria e sabia fazer, havia ainda muita interferência  por parte dos produtores americanos. Do meu jeito mesmo, eu só conseguiria gravar bem mais à frente, para a Verve alemã, para gravadoras japonesas ou para a inglesa Far Out. Mas aí... é outra história que fica pra depois.



domingo, março 10, 2013

1977

Estas lembranças me vieram por conta do lançamento de um livro de Antonio Carlos Miguel sobre o Morro da Urca, na próxima semana, de onde vem a foto acima e para o qual dei um depoimento.

Em 1977 eu trabalhava como side musician ao lado de Egberto Gismonti: cantava, tocava alguma percussão e, numa música somente, violão (nessa parte o chefe, compreensivelmente, não me dava muito espaço: o violão dele preenchia todos). Já então era o grupo Academia de Danças, na formação com Robertinho Silva, Luiz Alves, Nivaldo Ornellas e eu.

Nosso amigo David Tygel, músico de grande espirito emprendedor, criou uma programação cultural para o Morro da Urca, na então chamada Concha Verde. Era pra ser música para ouvir, a princípio, embora mais tarde tenha se transformado, o espaço, num lugar de música pra dançar. O projeto de David, 'Quem Sabe, Sobe', foi inaugurado num fim de semana que abria com Hermeto e seu grupo numa noite e Egberto na noite seguinte. Foi minha primeira e única apresentação com o Academia de Danças (ao vivo, pois gravações houve muitas), pois logo em seguida eu iria para Nova York para ficar por algum tempo. Indiquei Marlui Miranda para me substituir no Academia, onde ela funcionou às mil maravilhas: era a pessoa certa no lugar certo, e por lá ficou.

Na semana seguinte eu e Maurício Maestro fizemos nosso show de despedida, antes da ida pra NY. O Morro lotou, houve canjas de milhões de amigos - Toninho Horta, Luli e Lucina, Robertinho Silva, Nivaldo Ornellas, Bituca, um saxofonista americano cujo nome não lembro e que estava no Rio tocando com Art Blakey, o próprio David e tantos outros... As pessoas subiam nas árvores para assistir, de tão lotado que estava.

(Minhas duas filhas pequenas, que ficariam alguns meses longe da mãe e aos cuidados da avó, também estavam ali no meio do público, eu e elas com sentimentos divididos... A ideia era buscá-las quando as coisas estivessem ajeitadas por lá, o que acabou não acontecendo: a maior teve um problema de saúde, eu voltei voando pro Brasil e o sonho americano ficou pra outra oportunidade)

Enfim, foi uma noite importante em vários sentidos, na véspera de uma viagem que, eu e Maurício achávamos, mudaria nossas vidas.

E não é que mudou mesmo?


terça-feira, março 05, 2013

em breve na estrada

Nosso quarteto volta pra estrada em breve! Daqui a um mês, pra ser mais exata. Na turnê da Europa estará saindo lá o 'Tudo', em lançamento quase simultâneo com o do Brasil. Aqui sai em maio, logo depois que a gente chegar de volta.

Na foto, nosso quarteto no estudio, em fevereiro/2012 - sambados, cansados, suados, felizes, terminando de gravar este que é meu filhote preferido por enquanto. Como eu quero este CD aqui no Brasil!


sexta-feira, março 01, 2013

Cem Mil

E eis que chegamos aos cem mil acessos neste modesto blog. Foram seis anos e cinco meses - portanto, em termos de internet, não fomos propriamente campeões de bilheteria. Mas em qualidade, sim: e as conversas que surgiram, as trocas de ideias, as discussões interessantes e as pessoas idem que frequentaram este espacinho durante este tempo, me dizem que sim, tem valido a pena.

Como hoje, ainda por cima, é o aniversário da minha mui amada cidade - 448 anos, com corpinho de 200 - posto aqui a foto que inaugurou este blog, com minha filha e sua então promissora barriga de grávida, no Arpoador, em 2006. O fotógrafo francês que a clicou chamou a foto de 'Rebirth'. Que o Rio possa, então, renascer - em meio a tantas situações caóticas, criadas pelo homem, e outras tantas belezas divinas.

PS- infelizmente, nunca soubemos o nome deste fotógrafo. Mas a foto, como o Rio, continua linda.


sexta-feira, fevereiro 22, 2013

vivendo e aprendendo...

A respeitar as crenças alheias
A receber com urbanidade quem me visita
A agir civilizadamente, ainda que no meio de uma discussão
A me colocar, sempre, no lugar do(a) outro(a)
A saber que não existe verdade absoluta
Que tudo é relativo, tudo tem motivo, tudo tem perdão.


domingo, fevereiro 17, 2013

1968 - senta, que lá vem história!

 Os acasos da vida me fizeram reencontrar um velho amigo: o grande Evandro Teixeira, papa do fotojornalismo brasileiro de todos os tempos, que me presenteou com estas fotos que aqui posto. São fotos de um show que fizemos em 1968, na boate Sucata, de Ricardo Amaral, e que me rendeu um capítulo no meu livrinho de memórias 'Fotografei Você na Minha Rolleiflex'. Tivesse eu estas fotos quando foi publicado o livro e elas teriam certamente sido incluídas.

(na foto acima, estou concentradíssima, lendo, ou tentando ler, uma partitura, com aquela cara de lua que eu tinha aos 20 anos... e na de abaixo, além de mim e do Bituca, estão Marcos e Francis, este ao piano, além de um irreconhecível José Roberto Bertrami, futuro Azymuth, e Novelli no baixo. Faltaram, do nosso grupo, apenas Wanda Sá e o baterista Vítor Manga)
Segue abaixo o capítulo em questão, que acho que continua pertinente até hoje...
                         
                                SUCESSO                


Sempre me perguntei como seria se em vez de se lançar um disco com o título O melhor de Fulano, fosse lançado O Pior de Fulano. Ou se em vez de se fazer uma Parada de Sucessos, se fizesse, como um dia sugeriu um amigo meu, uma Parada de Fracassos. Grandes surpresas poderiam advir deste novo conceito. Inclusive a descoberta de que o fracasso de anteontem pode ser o sucesso de depois de amanhã _ e vice-versa. Coisa mais fluida, esse tal de sucesso: assim como vem, vai; de repente volta de novo, vai outra vez, torna a voltar, como as luas e as marés. Pior pra quem esquenta a cabeça com isso.
                        
Eu por mim, se fosse voltar atrás e eleger os mais marcantes tropeços da minha razoávelmente longa carreira, teria infalívelmente que passar por uma temporada feita no remoto ano de 1968, numa remotíssima casa noturna chamada Sucata, na Lagoa. O nome da casa já não era dos mais promissores. No entanto, era um lugar mais ou menos da moda, sugestivamente decorado com ferros retorcidos que pendiam do teto ou surgiam pelos cantos. Nesta casa eram realizados espetáculos de música de médio porte, e foi de boa vontade que aceitei participar de um show criado pela dupla Miele-Bôscoli, que se chamaria, singelamente, Festival.
                         
A idéia deste show era bastante simples: juntar cinco vozes mais ou menos recentes, de diferentes  tendencias, numa temporada que correria paralela ao Festival Internacional da Canção, para que os artistas convidados para a parte internacional do festival pudessem também assistir aos espetáculos. Um show para gringos, enfim. O elenco escolhido incluía, além de mim, Marcos Valle, Milton Nascimento, Francis Hime e Wanda Sá, e por aí começava a se desfazer o conceito: os cinco éramos grandes amigos, fãs uns dos outros, e a música que amávamos era, com poucas variantes, a mesma. Um elenco, portanto, menos heterogêneo  do que pretendiam nossos diretores. Ainda assim, a dupla caprichou num press-release que destacava nossas diferenças. Marcos Valle, que na época era sem dúvida o mais bem-sucedido entre nós, seria o “novo ídolo jovem”. Francis, conforme dizia uma gravação de seu parceiro Vinícius, incluída no roteiro, era “o pequeno príncipe da música popular brasileira” _ referência pouco sutil às suas origens aristocráticas. Wanda representava a bossa-nova, com total  propriedade, diga-se de passagem, e Milton recebeu a duvidosa definição de “a moderna voz negra, culta e evoluída”. Quanto a mim, a parte que me coube neste latifúndio me apresentava como “representante da juventude rebelde” _ sabe Deus lá o que isso queria dizer.
                       
O trio 3-D, com Zé Roberto, Novelli e Vítor Manga, era a nossa banda de apoio. Os ensaios corriam bem, cada um de nós preparando um ou dois números solos, e mais alguma coisa em conjunto com outro. Assim, eu fazia um número com Wanda e outro com Bituca. Wanda cantava também com Francis, Bituca com Marcos, e por aí vai. O número dos dois, aliás, era o grande hit  do espetáculo, nada mais nada menos que a célebre Viola Enluarada, que eles tinham acabado de gravar juntos. Eram tempos ainda duros para Bituca, e Marcos, em fase excelente de carreira, era um seu grande incentivador.
                       
Bituca morava num quarto-e-sala em Copacabana, na rua Xavier da Silveira, que ele dividia com amigos: Hélvius Vilela, Celinho do Pistom e sra., Nivaldo Ornellas, Novelli e quem mais chegasse. Éramos como irmãos, corda e caçamba, e ao ver que não cabia mais sequer um alfinete naquele recinto, acabei topando fazer da minha própria casa uma extensão daquele consulado mineiro, com as bênçãos levemente desconfiadas de minha mãe. Outros amigos cariocas estavam fazendo o mesmo, e assim havia recém-chegados de Minas espalhados pelas casas de Luizinho Eça, Mauricio Maestro, Ronaldo Bastos e outros mais. Foi nesse conturbado ambiente que eu e meu amigo mais querido ensaiamos o nosso número para o show. Era Tarde, uma parceria belíssima dele com Márcio Borges, onde eu começava cantando no meu tom, numa preparação para o clímax que seria a entrada de Bituca, com sua voz divina, um tom e meio acima. A idéia era gravarmos juntos essa música para o próximo disco dele _ idéia que não foi em frente, pois naquela época não era ainda moda por aqui o uso do recurso “gentilmente cedido por...” Pertencíamos a gravadoras diferentes, não houve entendimento, e a gravação acabou saindo com meu amigo sózinho, cantando toda a primeira parte no porão, ou seja, no meu tom, grave demais para ele, felizmente cercado por um belo arranjo de Luizinho.
                   
Nosso espetáculo estreou, portanto, com alguns grandes momentos e outros tantos tropeços. Estes ficavam por conta do hilário texto que era dito em off pela voz de Miele, simulando uma entrevista com perguntas modernas do tipo “Wanda Sá, o que você acha da pílula?” Eu, por minha vez, levava a sério aquela história de juventude rebelde, e fazia meu personagem com gosto, com todas as malcriações de praxe. Francis, tão meticuloso quanto tímido, ensaiava diàriamente sua entrada em cena, contando o número de passos até o piano. Raramente dava certo, e nossas gargalhadas atrás do palco eram ouvidas da platéia. Ah, sim: havia ainda o detalhe da platéia.
                      
Nossos produtores  pareciam cada vez mais preocupados com o escasso público. Nós, não: estávamos ali para nos divertir, e quem nos interessava estava lá, como Elis - na época casada com nosso diretor Ronaldo Bôscoli - que não perdia uma só noite. Tinha suas razões: Wanda fazia um sensacional medley de voz e violão, com as músicas Nêga do Cabelo Duro e Aquarela do Brasil, que Elis acabou gravando em seguida no próprio disco, com arranjo absolutamente idêntico. Generosa, Wandinha nunca mencionou o fato. O show prosseguia, cantávamos para os amigos e a produção se descabelava pela falta de pagantes.

(cabe aqui um remix do texto original: a própria Wanda acabou nos contando mais tarde que ouvira este medley diretamente de ninguém menos que João Gilberto - o que já daria a Elis cem anos de perdão...)
                   
Fomos finalmente informados de que a casa resolvera encurtar a temporada e colocar em nosso lugar um show dos tropicalistas baianos, de maior potencial de bilheteria. Assim foi feito. O show dos baianos foi de fato um sucesso, e como dizia o Tom, sucesso é um perigo: por causa desta temporada, num nebuloso episódio envolvendo a bandeira nacional, Caetano e Gil seriam presos. A boate Sucata virou, tempos depois, o Teatro da Lagoa. Nossos elencos seguiriam em frente, cada um de nós em seu caminho, prontos para as próximas luas e marés em nossas vidas.


terça-feira, fevereiro 12, 2013

carnaval 2013

E eu quero é sossego...

Começa o ano. Bom pra ir planejando os próximos movimentos... Já neste próximo sábado, pós-carnaval, um encontro no Miranda com meus ídolos de adolescência, Roberto Menescal e Os Cariocas. Respect!

Depois, logo em março, o começo das gravações de mais 5 programas da série 'Pequenos Notáveis'. E em abril, todo um mês na Europa com meu trio querido, numa tour que começa na França e passa por Itália, Alemanha, Holanda, Dinamarca, Inglaterra, Irlanda do Norte, Finlândia... não necessariamente nesta ordem. Na volta, já em maio, uns poucos dias em casa e já estaremos na estrada de novo, para uma semana no Birdland, em NY, desta vez dividindo a cena com meu brother Dori.

Em junho, sai o 'TUDO', oba!

E lá se vai mais um dia...


segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Decisão final!

E temos um vencedor!

Foi uma vitória, digamos, acachapante (procure no Aurélio quem não conhecer essa palavra). Por uma margem de 90% dos votos, tanto pela internet, quanto nas urnas que foram colocadas na saída dos shows que fizemos neste último mês, ganhou o "Tudo", sem sombra de dúvida. Parece que as pessoas cansaram de regravações - pudera, é o que mais se tem feito na indústria fonográfica nos últimos anos - e desejam ouvir novidades.

Nos shows que fizemos, sempre apresentei o repertório do "Rio" em primeiro lugar. Um repertório bacana, de canções que falam da cidade, algumas até meio raras, levadas com simplicidade, só voz e violão. Adoro esse CD, que gravei em 2 tardes no estúdio da Biscoito Fino, e que se baseou num show ao ar livre que fiz na praia de Ipanema, em 2010. Só que...

O público dos shows também curtiu muitíssimo este repertório, mas as canções inéditas parece que chegaram para ficar. Sentimos isso desde o calor dos aplausos, até os comentários pós-show que foram pintando. E na apuração dos votos, não deu outra: é "Tudo" na cabeça!

Pois então, com imensa alegria, aviso a todos que está confirmado o lançamento nacional do "Tudo", meu CD de músicas inéditas, para junho deste ano, pela Biscoito Fino. Fico feliz com isso, porque esta é a razão pela qual o compositor compõe. As canções novas estavam explodindo de vida, pedindo para serem gravadas e tocadas e ouvidas e gostadas. Aguardem, pois.

PS- e o "Rio" ainda há de sair por aqui, num futuro talvez nem tão distante. Não faltará ocasião...


sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Rio ou Tudo - finalíssima

Decisão final prestes a sair! (mas eu já desconfio...)


segunda-feira, janeiro 28, 2013

o chão que eu piso

Sempre levei muitos tombos na vida, tombos de verdade, desde criança. Tantos, que num dado momento escrevi uma história que tinha uma personagem especializada em tombos. Meus tombos têm razões diversas e combinadas: astigmatismo, o chamado genu valgo normal, equilíbrio precário, etc. Melhorei: hoje não saio sem óculos e faço exercícios para melhorar o equilíbrio. Mas ando sempre olhando pro chão, para não ser apanhada de surpresa. Dá certo.

De tanto olhar o chão, acabei descobrindo belezas nele que eu não veria se não estivesse tão atenta. E comecei a fotografá-las. Brevemente irei criar uma página com estas fotos, sem nenhuma pretensão, só por puro prazer. Peço emprestado o título do lindo livro de Salman Rushdie, "The Ground Beneath Her Feet" ("O Chão Que Ela Pisa" - onde a personagem principal é literalmente 'engolida' pelo chão).

Vai acima uma dessas fotos do chão que eu piso, feita em Colônia, Alemanha, ano passado. Vejam como o chão às vezes pode ser bonito.

PS- e como a vida pode ser triste, às vezes! Santa Maria: "menino, não morra cedo/ menino, não chegue tarde", como diz a letra de Cacaso. Quanta tristeza.


segunda-feira, janeiro 21, 2013

começa o ano!

Começou no SESC Araraquara, com o primeiro show da micro temporada 'Rio ou Tudo?' - onde toco os repertórios dos 2 CDs e convoco o público a votar, para me ajudar a decidir qual dos dois será lançado este ano no Brasil.

Foi um show bacana demais, o público de Araraquara deu um show de musicalidade e participação. Eu, a equipe de produção e nosso trio (Tutty, Rodolfo Stroeter e Rafael Vernet) tivemos uma experiência inesquecível. Sem falar na qualidade do piano - ah, o piano! se todos fossem iguais ao do SESC Araraquara, que maravilha viver... Enquanto isso, no Rio de Janeiro, nem o Espaço Tom Jobim, que leva o nome do maestro soberano, dispõe de um piano acústico...

Quanto à nossa votação, o resultado já era de se prever, diante do que tem dado aqui no blog, em menor escala: é 'Tudo' nas cabeças! Parece que um repertório autoral anda fazendo falta por aqui. As músicas foram absorvidas e entendidas com a rapidez de um raio, o que me diz que estamos no caminho certo. Ainda faremos mais alguns shows-teste, e há também uma página no facebook sobre isso, que não faço a menor idéia de como acessar. Vamos ver no que dá.

PS- foto de Myriam Villasboas, a nossa querida Miroca.


domingo, janeiro 13, 2013

Rio ou Tudo?


Vocês devem estar se perguntando o que estas capas de CD estão fazendo aqui. São as capas do 'Rio', meu CD temático de voz e violão, dedicado a canções sobre a minha cidade, lançado no mundo em 2011, e do 'Tudo', meu CD autoral, gravado ano passado e lançado, por enquanto, apenas no Japão.

Bom, eu disse que teria uma surpresa no início do ano e iria precisar de uma ajuda da turma aqui do blog. Pois é isso mesmo!

A pergunta é uma total escolha de Sofia: qual destes dois CDs meus - ambos inéditos por aqui - vocês prefeririam que fosse lançado no Brasil em 2013? Só vai dar pra ser um dos dois. E quero, careço e preciso ouvir a opinião dos interessados. Alguns shows serão feitos, começando por SP, onde iremos tocar os dois repertórios, para que o público me ajude a escolher. Mas a internet vai ajudar ainda mais, principalmente vocês que acompanham o blog (uma página no facebook vai ser feita pra isso também, com links no meu website, etc... mas aí já não é a minha praia).

Me digam.


sexta-feira, dezembro 28, 2012

acaba um, começa outro

Retrospectiva 2012:

Foi um ano bacana, de muitos acontecimentos musicais, que incluíram, além de minha passagem habitual pelo Japão, uma temporada deliciosa no Dizzy's Club Coca-Cola, em NY, e um show que vai ficar na minha história particular - meu primeiro show solo (ou seja, de voz e violão, sem minha querida banda) fora do Brasil, na Ópera de Praga. Houve ainda o lançamento brasileiro do CD 'Aquarius', com shows em BH, Brasília (de onde vem o céu desta foto, aquele mesmo que inspirou a deslumbrante canção de Toninho Horta e Fernando Brant) e RJ. A gravação do 'Tudo', meu novo CD de inéditas, que espero poder lançar em breve por aqui. Alguns projetos de shows avulsos de que participei, todos interessantes. O lançamento das séries educativas que criei e apresentei para a Multirio, 'No Compasso da História', e a nova 'Pequenos Notáveis'. O encontro com novos parceiros, como Nelson Motta e Teresa Cristina. Um ano de muita música, enfim. No âmbito pessoal, algumas perdas e tristezas, mas faz parte da vida.

Para 2013, temos uma tour européia na agenda para o mês de abril, com cerca de 15 concertos já marcados (quem quiser saber mais, está no meu website). Turnês nos EUA e Canadá estão na pauta, e o Japão certamente vai rolar. Logo no início do ano, estamos preparando uma surpresa para o pessoal interessado, envolvendo shows, internet e interatividade. Me aguardem.

E claro, esperando que o Brasil possa estar cada vez mais na rota, afinal as músicas foram feitas e gravadas aqui, e para os brasileiros...

São as alegrias do ano que passou e as promessas do próximo. E vamos nessa.

PS- faltou contar que ano que vem deve sair também um DVD com o programa 'Ensaio', que gravei com direção de Fernando Faro para a TV Cultura, em 1975! Coisa do fundo do baú, que só um maluco do bem como Marcelo Fróes, do selo Discobertas, teria coragem de botar na rua...


quarta-feira, dezembro 26, 2012

verões

"Mesmo que vente, chova ou faça frio/ o janeiro do Rio é sempre no verão"... Eu amava os verões do Rio. Na infância era quando começávamos a sentir os cheiros de manga e jasmim se espalhando pelas ruas do Posto Seis, onde minha família morava. Depois, na adolescência e sempre, muita praia. O dia todo. Sem filtro solar. As noites eram fresquinhas, com uma brisa que nunca mais senti. A cidade era boa de se estar nesta época do ano.

(na foto de Lizzie Bravo, uma cena de verão bem anos 1970, quando tudo era "calor, prazer e tesão")

Na idade adulta, com filhas pequenas - depois adolescentes também - era o tempo de praia delas, e foi largamente aproveitado, todas ratinhas de praia, como eu também fui. Minhas meninas e suas pranchas de bodyboard no Recreio, no Posto Seis e em Ipanema, lindas e bronzeadas, crescendo livres numa cidade que ainda era sinônimo de verão.

Depois tudo foi mudando, as paredes de concreto impedindo a passagem do vento que vem do mar. Carros, cada vez mais carros criando engarrafamentos de nível über-paulista e piorando a qualidade do ar. Calor, muito calor. Verão ou inferno, as duas estações da minha cidade. E agora o inferno chegou.

Hoje está fazendo 43,2 Cº, com sensação térmica de 50º. Ouço dizer que ainda pode ficar pior durante o mês de janeiro. Turistas, ouçam meu conselho: não venham ao Rio agora, é o pior momento: ou vai estar impossível de se ficar na rua, ou vai cair uma daquelas tempestades tropicais, do tipo apocalipse. Sem meio-termo.  Infelizmente o reveillon cai na semana que vem. Mas se puderem, deixem para vir no outono, que é o novo verão.

PS- tristeza pela partida de dona Canô, adorável pessoa, tão querida de todos, símbolo de um bem-viver na velhice. Não gosto do termo "terceira idade": 'velhice' é mais coerente, principalmente quando é sinônimo de sabedoria, o que era o caso dela. Todo o meu respeito. Que a querida Nicinha esteja lá, com seu sorriso lindo, para recebê-la carinhosamente.