Sexta-feira, Junho 19, 2009

de novo, até jazz

Bom, vocês já sabem que quando eu viajo não levo laptop. Portanto, serão mais algumas semanas sem blog. Na volta terei novidades da tour canadense pra contar, mais fotos e tudo o mais. Por enquanto vai esta foto aí em cima, que não é Canadá mas é França, aussi francophone...

Voltaremos no começo de julho, espero que já entrando de sola no lançamento por aqui do Slow Music. Enquanto isso, deixo com vocês uma letra bem recente, sobre assuntos viajantes, de uma música que está no meu CD japonês com Donato. É o que tenho a dizer no momento. 
Até jazz, de novo!

            GUARULHOS CHACHACHA

A vida é viagem

Na estrada é que se aprende a brincar

Pra que negar

Se estou aqui de passagem

Não vou me preocupar

Com pouca bagagem

Apenas o que dá pra levar

Sem complicar

Na mala a cara e a coragem

Y vamos a bailar!

(Guarulhos chachacha!)

Quero o necessário

O extraordinário sempre é demais

Todo malandro é otário

Querendo aparecer no cartaz

E eu quero é paz

A vida é uma escola

E nela é que se aprende a surfar

Onda do mar

Se o avião não decola

Volvemos a bailar!

(Guarulhos chachacha!)


Quarta-feira, Junho 17, 2009

direitos de autor, parte 2

(Antes de mais nada, uma resposta rápida: Pedro, que bom saber que você está antenado com esse assunto. Intérprete também é criador, e detentor de direitos conexos! E a rapaziada mais nova, da sua geração, que já nasceu plugada, nem sempre se dá conta disso... Você não quer mandar um texto seu, pra botarmos mais lenha nessa fogueira? Vamos nos falando.)

Enfim, cada um com seu cada qual. Assim como publiquei aqui o excelente texto do meu parceiro Sérgio Santos sobre este assunto, deixo hoje com vocês a verve e o bom-humor (e o escracho típico da família dele) do nosso já constante colaborador Danilo Caymmi. Vejam as considerações hilariantes (porém igualmente sérias) do Danilo, neste "Projeto de Lei Autoral" que ele inventou, pondo a si mesmo na pele do Presidente da República (fotos do Danilo em breve, quando ele aparecer aqui em casa): 

Projeto de Lei Autoral

Dispõe sobre a criação da “ Agência Nacional de Tributação Artística”- ANTA -  e do “Sindicato dos Fomentadores e Dirigentes Ecléticos de Musica”- SIFODEM - e dá outras providências.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA, faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte lei:

 Art. 1º – fica criado o Sindicato dos Fomentadores e Dirigentes Ecléticos de Musica- SIFODEM , com natureza jurídica e vinculado a todos os  ministérios , atuais e futuros, com sede e foro na capital federal – Ministério da Cultura

 Art. 2º -O SIFODEM, como instituição brasileira, terá como objetivo somente a arrecadação de direitos do autor em todo território nacional. Ao  SIFODEM não é permitida sob nenhuma circunstância, a distribuição de recursos.

Art. 3º A estrutura organizacional e a forma de funcionamento do SIFODEM  será definida nos termos desta lei, do seu Estatuto e das demais normas pertinentes. 

 Art. 4º O patrimônio do SIFODEM será constituído pelos bens e direitos que ela venha a adquirir, incluindo aqueles que venham a ser doados pela União, Estados e Municípios e por outras entidades públicas e particulares.

 Parágrafo único. Só será admitida a doação ao SIFODEM de bens livres e desembaraçados de qualquer ônus e com o ânus do autor.

 Art. 5º Fica o Poder Executivo autorizado a transferir para o SIFODEM bens móveis e imóveis necessários ao seu funcionamento integrantes do patrimônio da União bem como a admissão de pessoal oriundo do MST (Movimento dos Sem Talento) agora investido de poderes de fiscalização e punição .

Art. 6º Os recursos financeiros do SIFODEM serão provenientes de:

I- dotação consignada no orçamento da União;

II - auxílios e subvenções que lhe venham a ser concebidos por quaisquer entidades públicas ou particulares;

III - remuneração por serviços prestados a entidades públicas ou particulares;

IV - convênios, acordos e contratos celebrados com entidades ou organismos nacionais ou internacionais;

V – TAXAXÉ – taxação de 89.7% sobre o  lucro bruto de bandas baianas existentes e  que venham a existir cobrindo  todo território nacional ;

VI – BOLSA NOVA –todos os compositores habitantes da “reserva contínua do Leme ao Pontal” no estado do Rio de Janeiro e outras reservas  com a mesma característica terão   seus recursos taxados em 89,4%  e abrirão mão da autoria de suas criações artísticas em benefício das populações quilombolas do Leblon e similares. Gravadoras e editoras, brasileiras ou estrangeiras, serão obrigadas a deixar áreas de proteção  assim  que as mesmas   sejam   definidas pelos órgãos federais competentes. Criação  de regime de cotas para a “bossa nova” como um todo, visando a reparação histórica de movimento claramente elitista.

VII- ACOD- substituirá ao atual ECAD que terá a incumbência de arrecadar recursos provenientes de execução pública ou não. Terá o  ACOD sede e 15 sub-sedes  na capital federal e 82 escritórios espalhados por todo território nacional. Serão absorvidos pelo novo órgão as seguintes  Organizações não Governamentais: C.U. (Compositores Utopistas) e o já citado MST (Movimento dos Sem Talento)

Parágrafo único. Passa o compositor nacional a ser parceiro do Ministério da Cultura que terá poder total sobre a obra.

Parágrafo único. –A ANTA  “ Agência Nacional de Tributação Artística” terá o poder de mediar conflitos entre instituições de arrecadação e a União sendo responsável pela implantação do programa  sucesso sustentável .

Parágrafo único. Criação do programa SUS (Sucesso Sustentável): tributação a  todo artista com remuneração acima de R$ 100.000,00 (independente do imposto sobre a renda).

O SIFODEM  encaminhará ao Ministério da Cultura a proposta de Estatuto para aprovação pelas instâncias competentes, no prazo de 180 (cento e oitenta) dias contado da data de provimento dos cargos de presidente e Vice-presidente pro-tempore.

Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília,  1º de abril de 2009, 188º da Independência e 121º da República

Danilo Caymmi


Segunda-feira, Junho 15, 2009

direitos de autor

"Não me peçam para dar a única coisa que tenho para vender", já dizia a sábia Cacilda Becker, referindo-se aos ingressos para suas peças. Este é o argumento final também para nós, compositores e artistas em geral, no que se refere aos nosso direitos.  A toda hora aparece alguém (ou alguéns), de maneira consistente e que até parece bem orquestrada, pondo em dúvida o nosso inalienável direito de receber pelo nosso trabalho. Pois criação é trabalho, é obra do espírito, como está escrito na constituição brasileira, e ainda que possamos ceder nossos direitos patrimoniais, se quisermos _ e apenas se quisermos e declararmos isso expressamente na forma de contrato _ os direitos morais sempre serão nossos, e a cessão dos direitos patrimoniais não pode ser ad aeternum, deve ter prazo para o caso de o autor cair em si e mudar de idéia. Isso só pra começo de conversa.

No entanto, impressiona a insistência com que batem nesta tecla aqueles que consideram que a criação, fruto do trabalho _ sim, trabalho, insisto em dizer _ de alguns deve ser dada de graça para todos. E estes todos, não vamos esquecer, muitas vezes incluem a própria mídia e a indústria do espetáculo. Sendo assim, voltaríamos aos bons velhos tempos pré-século XX, quando o artista ou criador morria na miséria, romanticamente, uma beleza. Ou mesmo aos séculos pré-XIX, quando os compositores dependiam das encomendas de um mecenas que os sustentasse, como fizeram Beethoven, Bach e o querido Mozart _ o que, no fundo, não deixa de ser ainda válido aqui no Brasil, com as Leis Rouanet da vida. Estamos sempre dependendo da bondade de estranhos.

Vou postar aqui no blog algumas considerações de amigos compositores a respeito do assunto, que me pareceram interessantes. Começo com um texto escrito por meu querido parceiro Sergio Santos, ele mesmo grande compositor, em resposta a outro texto de alguém que não interessa aqui dizer o nome, publicado num grande portal da internet. O texto em questão dizia, em resumo, que já era tempo de se acabar com essa história de pagar por direitos autorais, que tudo deveria ser de domínio público, que o livre download seria bem-vindo e o fim dos nossos direitos cairia como uma bomba, assim como, nas palavras deste cidadão (mal) citando Gil, "uma bomba sobre o Japão fez nascer o Japão da paz". Aqui vai, portanto, um pouco editado devido ao tamanho, o sensato texto do Sergio:

Lendo seu artigo sobre direitos autorais, tomo a liberdade de lhe escrever, e há algumas questões que gostaria de colocar a você. (...)  Não se trata aqui apenas de propagação da arte, mas da sobrevivência do artista. A partir do momento que se faz um uso comercial de uma obra de arte, ou de uma imagem, ou de uma música, não é justo que seu autor receba por esse uso? A produção dessas obras não significou investimento de quem a produziu? Simplesmente dizer "salve o free download" e usar de graça o que custou o investimento de outros seria justo? O seu direito à liberdade de expressão pode se sobrepor ao direito à propriedade, no caso de um autor que não lhe queira entregar sem custo a obra que lhe pertence? Sim, porque as obras que se quer usar pertencem ao seu autor ou a quem ele outorgar esse direito, e cabe exclusivamente a ele decidir se quer dá-la de presente a você ou se quer cobrar por ela. 


O nosso ex-ministro, por exemplo, abriu mão de seus direitos autorais legítimos e disponibilizou um de seus discos. Nada mais justo. O fez com um trabalho pouquíssimo conhecido (O Sol de Oslo, você conhece?). Abrir mão de seus direitos autorais em trabalhos mais conhecidos e mais rentáveis comercialmente, seria uma decisão de foro íntimo, só caberia a ele. Eu acredito que seja muito pouco provável que, caso algum outro artista queira gravar, por exemplo, Domingo no Parque, que o nosso ex-ministro abra mão de seus direitos autorais (...) E qualquer que seja a decisão dele, ela será justa! Cabe exclusivamente a ele decidir. No entanto, não há justiça em exigir que o ganha pão de qualquer criador que viva da sua obra tenha que ser necessariamente entregue de graça a você ou a quem quer que seja. Essa é a única coisa que ele tem a vender e tirar o seu sustento. (...) 


Pergunto a você, de que forma um artista como Dorival Caymmi, por exemplo, que nos deixou com mais de 90 anos, iria sobreviver sem os seus direitos autorais? Fazendo shows numa cadeira de rodas? Não seria injusto querer usar comercialmente a sua criação genial em um de seus filmes e não pagar a ele pelo uso? Pagar pelo uso comercial da criação alheia fere de que forma a sua liberdade de expressão? 


(...)Se você quer usar em um de seus filmes comerciais uma música do Fagner, ou do Bob Dylan, ou dos Stones, que fizeram a sua cabeça, é porque de alguma forma elas representam e valem algo para você e para o  público de seus filmes. Se assim não fosse, você mesmo faria qualquer música e a usaria. É injusto que se remunere a quem criou precisamente aquela música que tanto lhe toca, caso ele não queira dá-la a você? Você acha que simplesmente pensar que "o cara gravou um disco, escreveu um livro, pintou, bordou - ótimo que a coisa se espalhe" é uma atitude que pode garantir a sobrevivência e a dedicação à sua arte de algum artista que viva dela? Estamos aqui falando de quem vive de sua arte, e não de um diletante ocasional. Veja bem, se for vontade do autor de uma obra não cobrar por ela, perfeito. Mas é inquestionável o direito de quem detém a autoria de ser remunerado pelo uso comercial de sua obra, e ele não pode por isso ser visto como o vilão dessa história. (...)


Usar uma obra da forma que você defende, é como ir a uma loja e pegar o que quiser, saindo sem pagar nada. Ou a arte não tem um valor comercial? Se você acha que tem, por que agregar esse valor a um de seus filmes não deveria ter um custo? (...) É necessário que se tenha consciência de que o uso sem custo de uma obra, contra a vontade do autor, é lesiva, é injusta. É certo que infinitamente menos injusta que as mortes daqueles que foram dizimados no Japão com a bomba nuclear, mas ainda assim injusta. Para mim não foi uma bomba sobre o Japão que fez nascer o Japão da paz. Mas isso é uma outra conversa.


SÉRGIO SANTOS



Quinta-feira, Junho 11, 2009

álbum de fotos do Japão

Completando o post anterior: aqui vão algumas fotos dos muitos convidados das temporadas japonesas no Blue Note. Nem todos têm fotos digitalizadas, portanto faltarão alguns, cujas lembranças ainda estão analogicamente preservadas. Mas começo da frente para trás, mostrando 10 anos dessas parcerias. Na foto acima, nossa temporada de 2007, quando eu e Tutty lançamos lá o 'Samba-Jazz & Outras Bossas'.

Acima, a temporada 2006, com nosso mui querido Roberto Menescal, mais a banda _ Tutty, Rodolfo e Proveta. Bossa Nova puro-sangue e muita animação. Com Menesca tudo é simples, ele é facinho no trabalho e rápido no gatilho.

A temporada de 2005 foi de absoluta diversão, com Dori Caymmi ao meu lado, ele que já fizera comigo a temporada de 1998. Em 2005, recém-saíra nosso album "Rio-Bahia", assim como em 98 ele fora uma presença de peso no meu CD "Astronauta". Com Dori não tem erro, é muita risada garantida e grande música. André Mehmari completava a banda.

2004 parece ter sido ano de nepotismo explícito... mas nem tanto: Clara e Ana tinham seus próprios álbuns sendo lançados simultaneamente no Japão _ Clarinha, o "Morena Bossa Nova" e Aninha, o "Samba Sincopado". E não eram álbuns de estréia: cada uma delas já estivera antes no Japão, separadamente, em outras ocasiões. Foi uma coincidencia feliz o fato de que os dois CDs saíssem naquele ano ao mesmo tempo, por diferentes gravadoras. É como eu sempre digo, famílias de circo se reúnem na estrada...
(nas pontas da foto, Silvio D'Amico e Nailor Proveta)

Em 2003, o grande Carlos Lyra esteve conosco. Foi um belo show, com Proveta e Teco Cardoso na banda, além do Tutty e do Rodolfo. Era a Banda Maluca no seu auge. A grande música de Carlinhos foi um veículo perfeito para aquela sonoridade, além da presença dele, com seu eterno charme.

Nos anos anteriores, tivéramos Johnny Alf (2002), João Donato (2001), Paulo Moura (2000), Wanda Sá (1999) _ além do Dori em 98, como já foi dito.

Em 1997, Paulo Jobim (na foto, dividindo o camarim do Blue Note comigo) e Daniel Jobim (que eu peguei no colo quando bebê, pode?) foram nossos convidados num show que remetia aos (então) 40 anos da bossa nova.  Muita música do Tom e participações nossas nas músicas uns dos outros, eu no Samba do Soho (do Paulinho, com Ronaldo Bastos), Daniel fazendo um engraçado rap em japonês comigo no Taxi Driver, e ao fim, todos juntos no Boto. Na praia de fora tem o mar.

A música é uma das profissões mais bacanas que existem. A gente se diverte, viaja pelo mundo, revê amigos, faz aquilo que ama. E leva alegria para as pessoas, trabalho mais nobre não há. A música brasileira criativa é uma grande família, todos descendemos dos mesmos antepassados e nos irmanamos no som.  Agradeço todos os dias por tudo isso.


Terça-feira, Junho 09, 2009

no Japão com João

Enquanto esquentamos os tamborins pra partir pro Canadá na próxima semana, vai se confirmando para setembro a temporada no meu velho conhecido Blue Note Tokyo, desta vez com Donato como meu convidado.

Estas temporadas têm rolado anualmente desde 1991, quando me apresentei lá pela primeira vez _ no Blue Note, bem entendido; no Japão, a primeira vez foi em 1985, no século passado... A partir de 96, passei a levar sempre convidados, o que é legal para o público e para mim: sendo assim, o show que fazemos nunca será o mesmo do ano anterior, haverá sempre uma novidade. Donato mesmo já esteve lá comigo em 2001, mas também lá já estiveram Dori Caymmi (98 e 2005), Toninho Horta (96), Paulo e Daniel Jobim (97), Paulo Moura (2000), Menescal (2006), Carlos Lyra (2003), Johnny Alf (2002), Wanda Sá (99) e minhas filhas Ana (2001 e 2004) e Clara (2004). Além do cantor japonês Miyazawa, que também esteve com a gente em 2001 _ ano pródigo em visitas. Ano passado, em compensação, não houve convidados e eu fiz o show apenas com meu grupo, para variar. E foi igualmente ótimo, que as platéias japonesas são sempre fiéis e lotam invariavelmente o Blue Note. Mas com um novo CD meu em parceria com João saindo em agosto pela Toy's Factory, todos concordamos que este ano ele deveria estar presente.

Nosso CD japonês vai se chamar 'Aquarius', nome de um tema instrumental do Donato, pérola dos anos 60 que regravamos, e sobre a qual já falei aqui em outro post. Este é o sensacional coro que participa de duas das faixas: além do Tutty, aqui estão Jessé Sadoc e Ricardo Pontes, nosso naipe de sopros, convocados para contribuírem também num divertido vocal.

(Como estou totalmente apaixonada por um novo filhote, que é o 'Slow Music', falo aqui um pouquinho do 'Aquarius', pra não haver ciúmes entre os dois, já que são quase gemeos. A gente sabe como são essas coisas entre irmãos...)


Quinta-feira, Junho 04, 2009

as boas novas

Ruy Drever (à direita na foto) é um jovem empresário paulista (nascido no Uruguai), idealista e bem-sucedido, que teve uma idéia sensacional: criar um site de boas notícias. Pra isso ele reuniu uma equipe igualmente jovem e entusiasmada de jornalistas vindos de outros veículos. E agora, depois de meses de trabalho, o resultado aí está. Eu vi e recomendo! O endereço é www.asboasnovas.com

Com vocês, a palavra do Ruy:

Boas novas pessoal!

 A iniciativa de criar este site partiu de uma necessidade minha de ter um canal de notícias onde pudesse me “abastecer” de informações positivas e construtivas para o meu dia-a-dia. Precisava de um pouco de “oxigênio e ar fresco” no meio de tanta notícia negativa que lia todos os dias nos jornais.

A idéia não é negar os fatos relevantes (e críticos) que nos rodeiam. Mas como estes já são divulgados exaustivamente, muitas vezes de forma sensacionalista pela mídia, optei pela contramão; uma nova linha editorial num universo cada vez mais livre para a produção de conteúdo de todas as espécies.

Reservei um espaço que divulga pessoas e iniciativas positivas, que fazem a diferença na tentativa de construirmos um mundo melhor.

O projeto foi tomando corpo e já se juntaram a ele algumas pessoas que hoje estão à frente do site e que são responsáveis pelo primeiro desenvolvimento da linha editorial e da identidade visual do site. Os nossos editores, Maria Clara Vergueiro, Eduardo Abreu, Fernando Flores e Renata Batochio, vieram de experiências profissionais que incluem passagens pela Globo, MTV, Trip, Vale e Istoé Negócios. 

Tomei a liberdade de adicionar alguns de vocês, que não conheço pessoalmente, mas cujos contatos pude obter com amigos meus bem próximos, então, não estamos tão longe assim uns dos outros. E considero que quando a causa é nobre, vale o aborrecimento inicial de ler um email mais longo…

Fiquem à vontade para mandar críticas, sugestões, ou mesmo para contribuírem diretamente como jornalistas cidadãos enviando suas boas novas para o nosso editorial (
mariaclara.vergueiro@asboasnovas.com e dado.abreu@asboasnovas.com).


Terça-feira, Junho 02, 2009

a vida é viagem

Pra quem trabalha com música, a vida se passa em grande parte em aviões e hotéis. Por isso mesmo quando estamos em casa, pouco saímos. Queremos curtir o ambiente que construímos, nosso silencio, a imobilidade, o chão. Viajar tanto tem suas vantagens, pois não há rotina em nenhum momento. Vamos também aprendendo alguns truques para tornar as viagens mais confortáveis, como levar a bagagem do tamanho exato do que se precisa (chegamos quase à perfeição nesse ponto, cada um leva sua mala e seu instrumento, e nada mais. Uma mala por pessoa), deixar espaço na mala para o travesseiro (importantíssimo, garantia de noites melhor dormidas), evitar comer e beber além do necessário, coisas assim. Tem funcionado bem e amenizado o stress de estar sempre em algum lugar que não é o nosso. Embora a gente também procure tirar o melhor de cada viagem, conhecer lugares e pessoas, ver o que há para se ver, e de quebra, estar trabalhando com dignidade e alegria. Não dá pra negar que por este lado é ótimo.

Quando acontece uma tragédia aérea como esta do avião da Air France _ rota que já fizemos milhares de vezes, e que há apenas um mês atrás foi feita por nossa filha mais nova com a família toda _ a angústia é maior do que o normal. Sabemos que estaremos sempre no ar a todo momento e que nossas vidas estão nas mãos de Deus. Sabemos também que não podemos abandonar o trabalho, que não para de crescer fora do Brasil e continua cada vez mais escasso por aqui. Sabemos que quando é a hora, é a hora; quando não é, não é. Mas ainda assim não podemos deixar de pensar que daqui a três semanas estaremos voando de novo, Canadá via Estados Unidos. Sempre dá um arrepiozinho.

Temos ainda na lembrança o momento difícil pelo qual passamos em 2000, voltando da África do Sul. Eu, Tutty, Mauricio Maestro, Teco Cardoso e Beth, nossa produtora, tínhamos uma escala em Buenos Aires. A estada em Johannesburgo tinha sido uma experiencia inesquecível. Mas era viagem cansativa e estávamos loucos para voltar logo. Ao invés de dormir em Buenos Aires, como tinha sido agendado, resolvemos entrar num avião da Varig que vinha para o Rio. Foi decisão de último minuto, sobraram 4 lugares no voo e fomos (Teco pegou outro voo pra SP). Além de nós, no mesmo avião, o querido Augusto Boal e alguns músicos da banda de Maria Bethania, que havia feito show em Buenos Aires.

O arrependimento viria logo. Com mais ou menos uma hora de voo, caímos numa zona de turbulencia, onde o avião chegou a tombar para o lado duas vezes. Era uma das famosas tempestades magnéticas, que, depois soubemos, são normais ao sul do Brasil. Agora, parece que são normais também em outras áreas, e vêm se tornando cada vez mais frequentes. A turbulencia durou cerca de uma hora, mais que uma eternidade.  Instalou-se o caos dentro do avião, com pessoas gritando em pânico, a comissária caindo no chão (não houve serviço de bordo), o suplemento de saquinhos de vômito (sorry...) acabando, enfim, tudo indicava que não sairíamos bem dessa. 

Pois saímos. Conseguimos manter a calma, felizmente (pois até pra morrer há que se manter alguma dignidade, não é mesmo?) e afinal a aeronave se estabilizou e não houve consequencias mais graves. A perna bambeou aqui mesmo, já no Tom Jobim, quando as fichas caíram. Mas aí já estávamos em terra firme de novo. A lembrança ficou, e volta sempre que ficamos sabendo de algum caso desses. Principalmente tendo uma longa viagem logo ali.

Imagino o sofrimento dessas pessoas e suas famílias. Deus os abençoe e nos proteja nas próximas viagens.
 


Sábado, Maio 30, 2009

muitas fotos slow

Acima, o time quase completo. Abaixo, o núcleo central, ou seja, nós, os músicos.

Estas são algumas fotos (feitas no estúdio da Biscoito Fino por nosso engenheiro, Gabriel Pinheiro) da gravação do 'Slow Music'. Tenho estado totalmente envolvida com a preparação para o lançamento em julho, que é logo ali, tudo ao mesmo tempo agora, enquanto também nos preparamos para a tournée do Canadá. Com este mesmo quarteto fantástico.

Olha o Tutty em plena ação... com sua Canopus neo-vintage azul, que soou lindamente na gravação.

Helinho Alves, ouvindo o que fizemos.

Jorge Helder, nosso super-meio de campo. 
E logo a seguir, meu bom e velho Juan Orozco 1977, parceiro de todas as músicas desde então.




Quarta-feira, Maio 27, 2009

Johnny, 80 anos!

É com imensa alegria que publico aqui no blog algumas das fotos que recebi de Nelsinho Valencia, que tem sido o fiel escudeiro do nosso amado Johnny Alf nestes últimos anos. Johnny está bem, em franca recuperação, apesar de ter passado poucas e boas _ mas a música é remédio mágico, é a verdadeira maravilha curativa. E ele voltou aos palcos em SP, com sua banda e convidados, se não me engano no SESC Pinheiros, celebrando seus 80 anos em grande estilo.

Nossos amigos queridos Emilio Santiago e Alaíde Costa, a querida Lalá, estiveram no SESC participando da merecidíssima homenagem ao nosso Johnny. Deve ter sido um show sensacional!

Mais um pouco de Lalá, para alegrar seus inúmeros fãs, já que não é todo dia que ela aparece. Vejam como continua sempre linda e chiquérrima, cantando belamente (pra conferir essa última parte, vocês terão de comprar os últimos CDs dela. Façam isso)

Parabéns pro Johnny, saúde, paz e música! _ a música que ele nos tem dado com tanta generosidade e talento pelos últimos  60 anos.


Sábado, Maio 23, 2009

Rodrix

A foto acima é do show de 40 anos de carreira do nosso amigo Ricardo Vilas, ano passado, no teatro Maison de France, do qual foi feito um DVD. Aí estou eu ao lado da lindinha Kay Lyra e de três antigos companheiros do grupo vocal Momento4uatro: Mauricio Maestro, o próprio Ricardo e Zé Rodrix (faltou David Tygel, que estava lá, mas não aparece na foto; ao fundo, o percussionista Beto Cazes). Foi um momento alegre, onde nos revimos, demos muita risada e lembramos nossas aventuras no final dos anos 60, quando paralelamente fazíamos faculdade e iniciávamos carreira na música.

Conheço esses caras desde quase a adolescencia, quando eles terminavam o 2º grau no Colégio de Aplicação e começavam _ começávamos todos _ a tocar em shows amadores, de e para estudantes. Os meninos do Momento4uatro eram meu grandes companheiros, sempre nos apresentávamos juntos em festivais e shows, e eles gravaram participação no meu primeiríssimo disco, numa 'Ave Maria' em latim, de Caetano. Também se tornaram meus parceiros, e algumas composições nossas aparecem no único LP deles. Em 1968 lá fomos nós mais uma vez, com nossos amigos Sidney Miller e Gutemberg Guarabyra, fazer um espetáculo no Café Teatro Casa Grande, direção de Paulo Afonso Grisolli, chamado 'Catiti, Catiti' (não me perguntem a razão deste título). Ali fazíamos nossas primeiras experimentações musicais, desafiávamos ingenuamente os militares e principalmente, nos divertíamos muito. Na última noite do show, Sidney cantou o tempo todo invisível, escondido na cabine de luz, realizando sua enorme timidez. E Gut fez uma performance maluca com sua canção 'Margarida', vencedora do FIC e cujo sucesso ele já detestava, que culminava com a quebra do violão, à la Sérgio Ricardo _ instrumento que lhe fora emprestado, em confiança, por sua namorada da época, Silvia Sangirardi. Tantas lembranças.

O grupo não duraria muito, cada integrante já tinha seus planos, mas o ponto final se deu com a prisão de Ricardo, envolvido na luta armada e posteriormente trocado pelo embaixador americano, numa história que hoje todos conhecem de livro e filme. Foi para o México, depois para Paris, onde faria carreira de músico em dupla com sua então mulher Teca Calazans. Mauricio, que sempre gostara de trabalhar com grupos vocais, iria se especializar brilhantemente nisso _ e dez anos depois fundaria o Boca Livre, que incluía também o velho companheiro David. E o Zé, este era já o Zé _ Rodrigues Trindade, nosso sempre Rodrix, que acaba de ser guindado ao andar de cima, como se diz.

Zé era uma figuraça, inteligente, engraçado e bom de palco. Nos seus tempos de Momento4atro fomos parceiros em algumas canções, que nunca deram certo, nem eram para ter dado. Nossas afinidades eram muitas no quesito amizade, mas poucas no quesito música. O tropicalismo foi libertador para ele, que sempre gostara da idéia de se tornar um artista pop. Por isso o nome Rodrix (como Hendrix). Artista pop ele foi, especialmente com os amigos Guarabyra e Sá (Luiz Carlos), num trio de enorme sucesso nos anos 70, do qual fui testemunha de todas as fases, desde o começo até a transformação do trio em duo.

Minhas duas primeiras filhas, Clara e Ana, e Marya (filha dele) nasceram na mesma época e cresceram juntas, praticamente como primas, a partir de minha longa amizade com Lizzie Bravo, sua primeira ex-mulher. Hoje as meninas se tornaram cantoras (Marya é cantora e atriz de musicais) e estão todas na grande batalha pelos sonhos e pela sobrevivencia na selva. Zé teve outros casamentos e outros filhos, fez carreira na publicidade em São Paulo e poucas vezes nos vimos nos últimos anos. A última vez foi exatamente a noite em que esta foto foi feita (por Fernando Rabelo), quando rimos muito ao lembrar as músicas hilárias que Zé e Mauricio inventavam nos intervalos dos shows. Um último encontro bastante feliz. 

A vida passa muito rápido.




Segunda-feira, Maio 18, 2009

nem vem que não tem


Assistindo ao excelente documentário sobre Wilson Simonal, duas ou três coisas não me desceram muito bem. A principal delas foi a sensação, que aos poucos vai se confirmando, de que alguém em algum momento iria/irá tentar “reabilitar” a pilantragem, que o próprio Simonal descreveu como “total descompromisso com a inteligencia”, como se fosse um importante movimento musical, caído injustamente no ostracismo. Nem vem que não tem: a pilantragem nunca foi um movimento. Era apenas uma rapaziada esperta, a fim de se dar bem e faturar uma grana e algumas garotas.

De todos os depoimentos do filme, o que me soou musicalmente mais sensato foi o de Sérgio Cabral: "a pilantragem era uma bobagem musical, que não deixou nenhuma marca na música brasileira. Simonal era muito melhor do que aquilo". E era mesmo. Pra quem foi adolescente no Rio de Janeiro dos anos 60 e dançou ao som suingado do sambalanço, é no mínimo frustrante não ver no filme praticamente nada do cantor espetacular que lançou coisas como 'Mestiço', 'Balanço Zona Sul', 'Mais Valia Não Chorar', 'Samba de Negro', 'Mangangá', 'Juca Bobão', “Nanã’ e outras delícias. Tudo isso dá-se por subentendido através da cena dele com Sarah Vaughan _ um belo momento, por certo, mas apresentando nosso anti-herói mais como um possível cantor de jazz do que um artista que teve real importancia na MPB dos anos 60.

Para a maior parte do público atual, que não viveu nada disso, a compreensão que fica é outra. O filme privilegia o Simonal animador de auditório, foca no seu indiscutível carisma, dominando a platéia de 30 mil pessoas do Maracanãzinho _ eu vi, eu estava lá _ "agora cantam só os 15 mil deste lado, agora só os 15 mil do outro, alegria, alegria!" E tome-lhe 'Meu Limão, Meu Limoeiro', 'Mamãe Passou Açúcar ni Mim' e coisas do tipo. Esse não era mais o Simonal que os músicos adoravam. Era um fake de si mesmo, uma caricatura. A curva descendente já começava, por escolha própria, muito antes de tudo o que viria a acontecer mais tarde _ e, repito, estou falando exclusivamente da música.

A pilantragem era de fato uma grande e inofensiva besteira musical, ainda que às vezes viesse embrulhada para presente, pela mão de arranjadores como César Camargo Mariano e Erlon Chaves, e usando como veículo uma voz como a de Simonal. O cantor-músico que ele era começou a se deslumbrar com dinheiro e sucesso fácil, e acabou deixando para trás o próprio dom. Não dá para imaginar um garoto vindo de família pobre, enfrentando preconceitos de raça e origem social, vencer na vida de maneira tão assombrosa e não perder a cabeça com isso. Perfeitamente humano. Para quem o acompanhava e admirava desde o início, parecia um desperdício de talento. Porém previsível, dado o mentor que ele escolhera para chamar de seu, o inenarrável Carlos Imperial.

Nas biografias de Clara Nunes e Roberto Carlos, dois dos maiores ídolos do Brasil de todos os tempos, está lá, com todas as letras: Imperial foi parte do início de carreira dos dois. Para Roberto, ele imaginara uma alternativa a João Gilberto, uma espécie de bossa-nova do B, só que usando suas composições (dele, Imperial) em vez das de Jobim, Menescal e Lyra. Claro que não daria certo. Para Clara, de brasilidade incontestável, ele propunha versões e boleros. Essas tentativas iniciais estão registradas nas primeiríssimas gravações de ambos. E ambos tiveram o bom senso de se desembaraçar do mentor e seguir caminho próprio, no momento certo.

Simonal, não: estranhamente, quando passou a ser aconselhado por Imperial, ele já era um artista querido do público, com todo o prestígio possível. Mas não era ainda o superastro em que se transformaria depois. Imperial, que estivera presente em seu início de carreira, voltava a influenciar o antigo pupilo, quando este, em tese, não precisaria mais da influencia de ninguém. Parecia um retrocesso, e era. Mas Simonal possivelmente queria mais _ mais dinheiro, mais sucesso _ e fez suas escolhas. Talvez tivesse conseguido assim mesmo, sem pilantragem, só com seu extraordinário talento. Quem sabe?

O argumento de que “a esquerda” odiava Simonal por ele ter gravado ‘País Tropical’ também não desce bem. Mesmo os mais empedernidos opositores do regime militar naquela época não tinham a menor dúvida de que "País Tropical' nada tinha a ver com patriotadas do tipo 'Eu te Amo, Meu Brasil'. Jorge Ben e Simonal não eram Dom e Ravel (aliás, Benjor teria sido uma importante adição aos depoimentos. Talvez tenha optado por não participar). Nem o capitão Lamarca, se saísse vivo da clandestinidade, poderia ter qualquer restrição a essa recriação suingada, divertida e tropicalista do poema de Bilac, aprendido na infancia: "Ama com fé e orgulho a terra onde nasceste/Criança, não verás nenhum país como este!" Pois fosse qual fosse o governo da hora, o Brasil, como o Rio de Janeiro, continuaria sendo. Na minha memória, ainda é bem claro: todo o mundo adorava ‘País Tropical’, de A a Z, de um extremo ideológico a outro. Nem vem que não tem, de novo.

O pessoal do Pasquim também leva, a meu ver, culpa exagerada como detrator único de Simonal (inexplicavelmente, faltou o crédito dos desenhos, mas dá para se reconhecer claramente a mão pesada de Henfil nas charges onde Simonal é apontado como dedo-duro). Essa acusação, mesmo que injusta, já tinha saído largamente na imprensa diária, a partir do depoimento de um dos agentes do DOPS envolvidos no sequestro do contador. E das declarações do próprio Simonal.

Por que as conexões mafiosas com o tenebroso DOPS? Por que ele teria se apresentado como “amigo dos hômi”? Para mim, a melhor explicação, no filme, vem de Pelé: se Simonal era capaz de acreditar seriamente que iria ser chamado para ponta-direita da seleção brasileira de 1970, seria capaz de qualquer coisa. Um caso de mitomania, ou como dizem os americanos, self-delusion. A pessoa acredita ser o que não é. Pena que com desfecho tão trágico, destruindo uma carreira que poderia muito bem ter dado todas as reviravoltas possíveis e terminado gloriosamente em palcos do mundo inteiro _ se dependesse só do cantor genial que ele era.

PS- Renato, obrigada pela página enviada sobre o festival de 1969, boa lembrança. O "nós estamos por aí sem medo" do comecinho da letra de 'Copacabana Velha de Guerra' era exatamente o nosso tímido recado de estudantes aos militares. Não derrubamos o governo, mas Elis, que era jurada do festival, sacou a música na hora e gravou em seguida, dando início à minha carreira de compositora gravada por outras intérpretes.


Domingo, Maio 17, 2009

filmes e música


Essa onda de documentários sobre a música brasileira, para aficionados e público em geral, é sempre fonte de surpresas, lembranças, discussões. Bom que seja assim: nossa música popular conta a história do país como em nenhum outro lugar do planeta, e explica para as gerações mais novas, que não viram nem ouviram nada daquilo, como era grandioso o Brasil sonoro do século XX.

Já para quem é do ramo, com alguma quilometragem rodada, é ao mesmo tempo emocionante e confuso ver revividos acontecimentos a que assistimos tão de perto, documentários onde conhecemos todo o mundo e dos quais às vezes nos pedem para participar. Por conta disso, já pensei seriamente em me candidatar ao Oscar de coadjuvante de documentário. Aqui em casa, volta e meia o Tutty tem a mesma sina. Estivemos lá, fomos testemunhas oculares e auditivas da história, participamos do momento, enfim: meninos, nós vimos. E por isso podemos contar, pelo menos do nosso prisma de visão.

Pois ontem, depois de longa espera, finalmente assistimos ao documentário sobre Wilson Simonal. Tantas coisas a dizer, tantas reflexões a serem feitas que nem sei se cabem todas aqui num post. Vou tentar, pois é assunto que ainda pega fogo, pelo que vimos. Mas quero falar pelo angulo da musica, que é o que fica, depois de passadas a limpo todas as paixões.

Me aguardem.


Quinta-feira, Maio 07, 2009

slow music


Agora vou falar sobre o projeto dos meus sonhos. Sonhei com ele pela primeira vez há 10 anos atrás, e ainda não tinha conseguido realizá-lo. Agora consegui.

Por onde começo? são tantas coisas a dizer sobre isso. Se eu disser que estou dedicando este album a Shirley Horn, Bill Evans e João Gilberto, isso talvez explique alguma coisa. É um album cheio de silencios e pausas, e sobre o uso delas. A pausa é um momento importante da música. Sem silencio, não existe som. Sem o claro-escuro, não se veem todas as nuances da cor. Sutileza gera sutileza.

Também posso dizer que desde que li o "Slow Food Manifesto", divulgado pelo italiano Carlo Petrini, ainda em 2000, me apaixonei pelo conceito e comecei a refletir sobre a similaridade entre música e comida. O mundo despeja junk music nos nossos ouvidos o tempo todo, há anos. Música é alimento para a alma. O maior condutor de emoções que se conhece. Vejam o que diz, entre outras coisas, o "Slow Food Manifesto":
Somos escravos da velocidade e sucumbimos ao mesmo insidioso virus: a Vida Rápida, que rompe com nossos hábitos, invade a privacidade de nossos lares e nos força a ingerir Fast Food.
(alguma semelhança com a música que somos obrigados a ouvir todos os dias?)

Isso posto, vamos ao próximo item _ as canções e eu. De minha parte, eu queria fazer uma longa reflexão sobre o amor. Não queria simplesmente cantar canções de amor desesperado, daquelas de cortar os pulsos, pelo contrário: queria canções que tivessem o agridoce, o claro-escuro, a dúvida, a ironia, o questionamento. Então a escolha se deu, antes de tudo, pela beleza das músicas, mas também levando em conta o quanto as letras teriam de leveza e reflexão sobre o sentimento mais antigo do mundo. Cantadas com muita calma.

Para isso era preciso deixar passar algum tempo. Não dá para se cantar canções assim quando se é mais jovem. Era preciso ter o distanciamento crítico do sentimento, a possibilidade de olhar para trás com compaixão e alguma sabedoria. A voz também precisava envelhecer um pouquinho, perder o polimento, ficar "crestada pela pátina do tempo", como Vinicius diria. Um pouco de areia na garganta e a compreensão das palavras. Essa era a idéia. Foi bom ter esperado esses 10 anos.

Também era preciso encontrar as parcerias certas. Durante todos os anos em que sonhei com este projeto, ele já teve vários formatos, do mínimo ao máximo. Muitos parceiros chegaram e partiram, grandes músicos que em algum momento quiseram ser parte desta idéia, mas a vida não deixou, por alguma razão. E chegamos ao formato de hoje. Essencial.

Tutty esteve comigo desde o primeiro minuto e acompanhou cada volta que o meu mundo deu, em busca desse sonho. Esse disco é dele também. Ninguém mais teria tocado com tanta precisão, sensibilidade e delicadeza. Com ele, a bateria é um instrumento harmonico. Hélio Alves foi fundamental. Um caso raro de pianista brasileiro e jazzista ao mesmo tempo, conhecedor de ambas as linguagens. Um solista brilhante. Jorge Helder, no baixo, trouxe a segurança e a firmeza necessárias para que juntos pudéssemos voar. É nosso quarteto fantástico.

Vejam o repertório (que ainda não tem uma ordem):

OLHOS NEGROS (Johnny Alf/ Ronaldo Bastos)
NOVA ILUSÃO (Zé Menezes/ Luis Bittencourt)
AMOR, AMOR (Sueli Costa/ Cacaso)
SLOW MUSIC (Joyce Moreno/ Robin Meloy Goldsby)
BUT BEAUTIFUL (J. Burke/ J. Van Heusen)
ESTA TARDE VI LLOVER (Armando Manzanero)
SOBRAS DA PARTILHA (Joyce Moreno/ P C Pinheiro)
SAMBA DO GRANDE AMOR (Chico Buarque)
VALSA DO PEQUENO AMOR (Joyce Moreno)
O AMOR É CHAMA (Marcos Valle/ Paulo Sergio Valle)
CONVINCE ME (Love is Inconvenient) (Joyce Moreno/ Robin Meloy Goldsby)
MEDO DE AMAR (Vinicius de Moraes)

Tudo lindo. Tudo slow.

PS- a melhor notícia: sai logo, logo _ em julho/2009, pela querida Biscoito Fino.


Terça-feira, Maio 05, 2009

simpatia

Aquele senhor esquisito do Irã não vem mais ao Brasil. Ainda bem.

Quando eu era pequena, minha mãe tinha uma simpatia infalível para espantar as visitas inconvenientes: botava uma vassoura atrás da porta. Era tiro e queda. O Itamarati deve ter feito alguma coisa parecida.


Sexta-feira, Maio 01, 2009

tudo ao mesmo tempo agora

São quatro _ quatro!!! _ CDs, todos saindo no mesmo ano da graça de 2009... Não sei se agradeço a Deus ou peço socorro. Ou as duas coisas. É maravilhoso que isso aconteça, ainda mais em tempos de crise como estes. Mas tenho de me preparar bem para não haver choque de datas e lançamentos, e também para não ficar `a beira de um ataque de nervos. Por enquanto, até que está dando certo.

Acima está a capa do CD que sai em junho no Japão e em seguida na Europa. Eu na verdade pouco tive a ver com este lançamento, que a WDR decidiu fazer este ano. É uma compilação de concertos feitos entre 2002 e 2007, produzida por eles, com foco no repertório jobiniano, com arranjos de Gilson Peranzzetta, Jaques Morelembaum e Nailor Proveta (o fã dele de 3 anos vai gostar disso...)

Este aqui vocês já viram, e também saiu sem que eu tivesse me esforçado muito pra isso. É uma sessão de gravação feita em Paris, em 1976, que eu divido com Naná Vasconcelos e Mauricio Maestro. Mauricio tinha estas fitas (totalmente analógicas) nos seus arquivos, já que foi uma produção dele, e a gravadora londrina Far Out ouviu, gostou e acaba de lançar _ com sucesso, me dizem eles. A moçoila aí de cima era eu, aos 28 anos. Pois é.

Estes são lançamentos que pipocaram espontaneamente. Não são "novos projetos", na verdade o de '76 é até bem velhinho. De modo que os realmente novos, os que foram criados e pensados para 2009, só irão aparecer no segundo semestre. É meu divertidíssimo CD com Donato, ainda sem nome, que a princípio sai no Japão e depois, veremos; e é o projeto com que sonhei durante 10 anos e só agora consegui realizar, chamado "Slow Music". Este aqui é uma paixão absoluta, e terei de gastar um post inteirinho pra falar sobre ele. Sai primeiro no Brasil (oba!), em agosto, pela querida Biscoito Fino. Aguardem.


Quarta-feira, Abril 29, 2009

pequeno músico


O pequeno músico fez 3 anos. 

Aos 11 meses de idade, a família descobriu que ele já era perfeitamente capaz de reproduzir cantando qualquer célula melódica, na divisão certa.

É uma criança bastante agitada e apronta mesmo, se deixarem. Mas se pintar música, ele para tudo e fica hipnotizado. Já vi uma vez um violinista de rua, na frente de um supermercado em Copacabana, atrair sua atenção durante quase uma hora. Sem mover um músculo.

Quando vem nos visitar, pede pra que a gente ponha meu DVD pra ele ver. Mas ele não quer o mais recente: quer o que tem o Proveta. "O meu Proveta", segundo ele diz. O cara tem bom gosto.


 


Quarta-feira, Abril 22, 2009

pequeno acesso de feminismo

Este é um fotograma do premiado curta-metragem "Penalty", da diretora espanhola Ana Martinez, para o qual eu compus a trilha sonora em 2006. É um filme sobre violencia doméstica, assunto que, ao que tudo indica, jamais sairá de pauta, desde as cavernas do Afeganistão até a civilizadíssima Europa.

A toda hora chegam notícias sobre o assunto. Cada vez mais, filmes e livros de diversas procedencias demonstram que a base moral de quase todas as religiões _ islamismo sim, mas também o judaísmo e o cristianismo tradicionais _ se assentam sobre a dominação masculina sobre a mulher. É como se fossemos um perigo social que devesse ser posto de lado, esmagado, impedido de opinar, de escolher, de criar, de conviver em igualdade de condições com a outra metade da humanidade. 

Ao mesmo tempo, igualmente não param de pipocar relatos de abuso sexual de parentes mais velhos _ pais, tios, padrastos, irmãos, vizinhos _ sobre crianças e adolescentes. No mundo inteiro. A pedofilia não é nova. Só está mais visível. 

Políticos acusados de estupro se elegem e tomam posse na África do Sul, no Paraguai, na Nicarágua. Atenção para o refrão: eu disse estupro. Não me refiro ao discreto charme de cafajestes elegantes como John Kennedy e seu seguidor Bill Clinton, seduzindo estrelas de cinema e estagiárias. Nesses casos, as moçoilas entraram na roubada por vontade própria, houve consenso. Estupro não: estupro é crime. Mas quem liga pra uma bobagem dessas? E afinal, a culpa é sempre da vítima. 

Sexismo é tão odioso quanto o racismo. É definir pela loteria genética o papel da pessoa na sociedade, conforme o equipamento que nos tiver sido designado nesta vida. Inacreditável é que boa parte da humanidade ainda ache isso normal.


Terça-feira, Abril 21, 2009

só que...

...ooops, esqueci de dizer! Sai em agosto no Japão, mas aqui no Brasil só em 2010. Mas vocês já imaginavam isso, com certeza. 

(na foto, entre mim e Donato no estúdio, feliz como ele só, nosso produtor Kazuo Yoshida)

Hoje em dia é difícil que uma gravadora se disponha a bancar integralmente um projeto. Quando isso acontece, há regras que precisam ser respeitadas. Uma delas, talvez a principal, é a de dar um bom período de exclusividade ao selo que bancou. Quando sai um projeto desses no Brasil, os exportadores caem em cima, e o CD chega de volta ao Japão a preços muito mais baixos do que o que foi fabricado lá, pois o custo da fabricação aqui é mais barato. Portanto, não se trata de injustiça, pelo contrário: é uma regra justa, para que quem de fato produziu não seja penalizado.

(detesto o uso da expressão "penalizado" neste sentido. Penalizado é quem tem pena, não quem sofre alguma consequencia. Mas a língua tem suas dinâmicas, e a gente acaba tendo de aceitar isso)

Na verdade, com as vendas online, isso muda muito, pois qualquer pessoa pode comprar qualquer coisa em qualquer lugar. Mas realmente sai mais em conta esperar o lançamento brasileiro, infinitamente mais barato do que mandar buscar e pagar taxas alfandegárias absurdas. É uma questão de paciencia _ e de sorte, pois muitas vezes acontece de o produto que se quer nunca vir a ser lançado aqui. Comigo já aconteceu demais...

Esses são os aspectos chatos da produção fonográfica, no fundo um business como qualquer outro. Pra nós músicos, o mais importante é a criação em si, e o resto é o resto. Mas não dá pra esquecer da outra ponta, o pessoal que compra porque ama essa música que fazemos. No meio dessa cadeia de produção ficam gravadoras, distribuidores, lojistas. A vida é assim mesmo, e cada um com sua função. Mas a música está... tinindo! Isso a gente garante.


Sábado, Abril 18, 2009

alegria!

Conforme encomenda de nossos amigos japoneses, eu e Donato entramos em estúdio para um novo projeto juntos. Desta vez, focado nas nossas composições, seja em parceria entre nós dois ou não. Como era de se esperar, diversão garantida. Hoje entramos na fase da mixagem; a gravação em si levou 3 dias _ menos até, se formos considerar que João só funciona a partir da uma da tarde. O oposto de mim, que sou um early bird.

Aí estamos no estúdio com Tutty e Jorge Helder, nossa base, mais a presença luxuosa de Mattis Cederberg, trombonista sueco integrado `a WDR Big Band de Colonia, na Alemanha, que participou como solista convidado no tema 'Aquarius', uma pérola donatiana dos anos 60, gravada na época por Cal Tjader. Mas o repertório tem essa e muitas outras surpresas.

Mattis, além do grande músico que é, ainda é pai dessa deliciosa figurinha, paixão total da nossa vida, alemãzinha mezzo sueca, mezzo carioca/baiana. Eles já voltaram para Colonia, e a casa ficou um vazio sem a adorável bagunça que ela faz. Mas não há de ser nada, nos veremos de novo lá pro meio do ano,  quando rolarem os próximos concertos na Europa. Somos uma família de circo, que muitas vezes tem de se encontrar na estrada mesmo.


Segunda-feira, Abril 13, 2009

sucesso

Sucesso nem sempre são as flores em vida.

Eu mesma já escrevi isso antes,  em 1997, no meu livro "Fotografei Você na Minha Rolleiflex': "coisa mais fluida, esse tal de sucesso: assim como vem, vai; de repente volta de novo, vai outra vez, torna a voltar, como as luas e as marés. Pior pra quem esquenta a cabeça com isso."

Sucesso, no início dos anos 80, quando estourei nacionalmente com 'Clareana', era ver sua música tocada nas rádios, o que, no caso desta canção em particular, aconteceu espontaneamente, logo após minha apresentação no festival da Globo. Foi como um rastilho de pólvora, os ouvintes ligando direto para as rádios, querendo ouvir aquela música que ainda nem saíra nas lojas _ e os programadores tiveram de correr atrás. Mas logo a seguir, ainda nesta mesma década, o que se tocava nas rádios passaria a depender integralmente de uma obscura prática chamada 'jabá', que consistia na compensação, financeira ou através da prestação de favores, por parte das gravadoras para as emissoras de rádio ou TV. Logo que assinei contrato com uma prestigiosa major, fui chamada para participar de um popularíssimo programa, e estranhei o baixo cachê que me fora oferecido, menor do que eu geralmente recebia antes de ter sido contratada. O executivo responsável por este departamento, sem grande finesse, cuidou de acabar logo com qualquer ilusão: "este é um programa que ainda paga. Os outros, nós pagamos para que você faça". Mais claro, impossível.

Quando decidi me tornar uma artista independente, no longínquo ano de 1983, eu sabia que o mainstream do sucesso não faria mais parte da minha vida. Foi uma decisão consciente, da qual jamais me arrependi. Hoje em dia é moda. Mas eu já sabia, desde então, que o modelão do sucesso pré-pago não teria futuro. Foi como adivinhar a crise financeira global antes que acontecesse _ estava na cara que aquele dinheiro todo não existia. Da mesma forma, aqueles discos feitos com orçamentos gigantescos, que nunca se pagariam apenas pelas vendas, estavam com seus dias contados. Alguns poucos ficariam ricos, outros muitos iriam tombar pelo caminho, mesmo tendo feito todas as concessões possíveis _  e eu não queria ser um deles.

Depois de muitos episódios que me comprovaram de vez a insustentável leveza do chamado 'sucesso', passei a enxergar essa palavra de outra maneira. Sucesso pode ser várias coisas. Muitas delas sei que alcancei, e me orgulho disso. Mas, principalmente, não esquecer jamais _ sucesso é sobreviver com dignidade, sem trair seu dom.