domingo, dezembro 20, 2015

Retrospectiva 2015 (o ano que não acabará)

Pro Brasil e pro mundo, um tempo difícil, diferente, cheio de surpresas muito estranhas... Mas quero me apegar ao bom e ao bem que chegaram pra mim, ou enlouquecemos todos. Pensamento positivo, como nas terapias cognitivas se faz. Vamos nessa?

Por exemplo, não quero nunca, jamais, esquecer disto aqui:

http://www2.uol.com.br/ziriguidum/1512/joyce_moreno.htm

É um daqueles momentos que a gente guarda para os dias chuvosos da vida, que sempre vêm. Foi um momento importante pra minha música- e, ouso imaginar, talvez pro Brasil também. Pois nas horas em que o mundo olha pra gente com apreensão e desconfiança, alguma coisa boa a música brasileira sempre tem pra oferecer. Sei que a música que faço, e pela qual desde sempre me dispus a morrer, se necessário, não tem a mais mínima importância dentro do meu país. Qualquer garoto ou garota lançando uma banda numa novelinha teen terá maior significado midiático imediato do que aquilo que eu e outros apaixonados fazemos com tanto amor e empenho. E não, não estou reclamando, porque entendo que é assim mesmo. O Brasil merece o Brasil que tem. Este caminho que o país vem  seguindo é uma escolha. Dá pena do Brasil, sim, dá uma tristezinha ver o erro e o desperdício - mas é uma escolha, se é que vocês me entendem. Portanto, tudo certo, não tem discussão. Morre a música brasileira como morrem os rios, a Chapada Diamantina, as florestas, nossas riquezas. Mas foi o Brasil quem quis assim. Como dizia minha avó: sua alma, sua palma.

Em compensação, o mundo, que ainda não sabe disso, nos celebra.

(Sugiro, porém,  pelotão de fuzilamento para o próximo jovem repórter que me perguntar se tenho 'mágoa' ou se 'já superei' o fato de minha música ser mais reconhecida fora do que dentro do Brasil. Por que devo  'superar', ou 'ter mágoa', por coisa tão boa? Tenham paciência... O que me entristece não é nada disso. É ver até onde chegamos que dá vontade de chorar de pena do Brasil, como minha filha caçula chorou, aos 11 anos, em sua primeira viagem à Europa. Ela já estava pressentindo quantas lágrimas seriam derramadas no futuro.)

Na real, na vida profissional, tivemos: 1) a 3a temporada da série 'Pequenos Notáveis', ensinando para as crianças a música do Brasil, que pertence, ou deveria pertencer, a eles; 2) dois novos CDs gravados - 'Cool' e 'Poesia'; 3) turnê do CD anterior, 'Raiz', pela Europa, Estados Unidos, Canadá; 4) no Brasil, shows em SP, Rio e Bahia, e o concerto comemorativo dos 100 anos de amizade Brasil-Japão, na belíssima sala de concertos da Cidade das Artes; 5) no Japão, as comemorações pelos meus 30 anos tocando lá, direto; e finalmente, 6) a apoteose que foi o concerto com minha obra autoral na Berklee, e as gentis homenagens da cidade de Boston e do estado de Massachussets, que me ofereceram diplomas em "reconhecimento pela representação e divulgação da cultura brasileira" - o que equivale a me premiar pela propaganda enganosa que faço, de um Brasil que já não existe, mas que a música evoca.

Na vida pessoal, família com saúde, graças a Deus, e todos os netos passaram de ano.
Então meu ano foi muito bom, apesar dos percalços no Brasil e no mundo. E o de vocês?


segunda-feira, dezembro 07, 2015

Na Berklee (Parte 2)

Primeiras notícias da minha semana na Berklee: chegamos ontem, e ontem mesmo já rolou um primeiro ensaio com a orquestra de alunos - uma banda de 25 músicos. O pessoal tinha me deixado à vontade pra escolher a formação que eu preferisse - cordas, sopros, um grupo maior ou menor, enfim... Como gosto de sopros, a orquestra ficou centrada nisso. Como também uso muitos vocais nas minhas gravações, um grupo adicional de 6 cantores foi incluído. 

Fiquei feliz em ver o equilíbrio de gênero na orquestra, rapazes e moças em número mais ou menos equivalente, e em todos os naipes. O naipe dos metais é predominantemente masculino (existe alguma relação misteriosa entre testosterona e saxofones?), com exceção da trombonista chinesa. Em compensação, o naipe de flautas (excelente, aliás) é todo feminino. O naipe de cantores (dois rapazes e quatro moças), dirigido pelo professor japonês de técnica vocal, é muitíssimo bom, cantando num português quase fluente. Destes, destaque para a colombiana Ana Maria, que fez o meu papel durante o último mês de ensaios, cantando lindamente minha parte, e que vai ganhar um solo em 'Misterios'. Um jovem e excelente violonista de Curitiba chamado Eduardo (ainda não sei o sobrenome) também arrasou sendo 'eu' nos ensaios. E temos mais dois brasileiros na base, o batera Rafael e a percussionista Nêga.

 Já deu pra ver também que a Berklee funciona meio no estilo Nações Unidas, com gente de tudo que é lugar. Americanos são maioria, mas tem muitos asiáticos (Japão, China e Índia na dianteira) e sul-americanos (Brasil  e Colômbia à frente). O baixista é australiano. Da Europa não vi ninguém, e acho que isso se deve à espetacular qualidade das escolas de música de lá.
Serão 15 músicas do meu repertório autoral, temos pouco tempo pra deixar tudo pronto até quinta, mas vai ficar lindo, garanto! Up and away, para o alto e avante, e enfrentando corajosamente os 3º que está fazendo lá fora...


segunda-feira, novembro 30, 2015

Por que fazer música?

Música: por que fazer? Você podia estar roubando, podia estar assaltando, podia estar tocando o terror aí pelo mundo. Também podia estar na política ou trabalhando no sistema financeiro - mas está fazendo música. Quem faz música de verdade, faz porque  precisa. Porque o chamado da música é forte demais. Porque se você não é capaz de viver e morrer pela sua arte, então, sorry, melhor nem começar, não vale a pena.

Por isso, quando vejo alguém dizer que está na música pra ganhar dinheiro me dá um... Sei lá, um engulho, e ao mesmo tempo uma pena da pessoa, que não faz a menor ideia do que está perdendo. Pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz.


terça-feira, novembro 24, 2015

A Terceira já é

Vou repetir aqui o que venho dizendo há tempos para os mais próximos: a Terceira Guerra Mundial já começou há alguns anos. Só que não é entre nações.
Por isso mesmo, por não ser uma guerra convencional onde uma nação declara guerra a outra, talvez só agora o pessoal tenha notado. Até o Papa já está dizendo a mesma coisa. E como é uma guerra mundial, nós, aqui em baixo, no sul da América, ficamos meio sem saber como devemos nos comportar. A guerra é deles, lá em cima, pelo hemisfério norte, o que temos com isso? Já não basta a encrenca infinita em que estamos metidos? 

Pessoas, essas fronteiras acabaram há muito tempo. Sim, temos todo um bom combate para combater por aqui. Temos nossos próprios fundamentalistas rasgando alegremente a constituição, o 'livrinho', cada vez mais (r)emendado. Temos um desastre ambiental de proporções inéditas, inimagináveis, assustadoras, e podem ter certeza de que não será o último - de onde veio esse, tem mais. Racismo, sexismo, machismo, corrupção, desgoverno, e todo um buquê de horrores a serem combatidos, e dos quais não podemos descuidar. Temos a obrigação moral de continuar lutando pelos direitos civis dos brasileiros de todas as cores, credos, gêneros e etnias (sendo que nós, mulheres, temos toda uma pauta a cumprir). Temos a definitiva obrigação de gritar contra a destruição absurda do nosso meio-ambiente, nossa riqueza maior. Por tudo aquilo que constituía o orgulho da nação brasileira, o país tropical bonito e rico por natureza, aquela sociedade tolerante onde qualquer viajante se sentia bem recebido, e que, a julgar pelo que hoje expressam as redes sociais, parece ter virado uma fotografia na parede. A luta por aqui continua, sim.

Mas nem por isso vamos acreditar que não temos nada a ver com o que está acontecendo lá em cima, no hemisfério norte. Só pra lembrar, teremos no ano que vem um evento mundial acontecendo na cidade mais emblemática do país, aquela deslumbrante cidade do samba e das garotas de Ipanema, aquela cidade que tem como imagem-símbolo justamente uma estátua do Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara.
E esse pessoal psicopata do Estado Islâmico tem fascinação pelo simbólico, como estamos vendo.


segunda-feira, outubro 19, 2015

Na Berklee

Nunca fui à Berklee. Mas a Berklee veio a mim com um convite irrecusável: meu repertório autoral arranjado e tocado por alunos e professores no final deste ano, num concerto que terá minha presença como artista convidada. Vai ser no dia 10 de dezembro. Antes disso, lá estarei durante a semana, para ensaios, workshops e outros babados.

Já dei aulas e workshops em outras universidades e conservatórios. Na Dinamarca (3 vezes), na Itália, no Japão, na França... Minha música também já foi estudada em escolas da Suécia, da Finlândia, da Noruega. E em maio do ano que vem estarei em Malmö, também na Suécia, para concertos e workshops. Mas a Berklee tem um sabor especial, por ser a universidade de música mais prestigiada do planeta, de onde todo ano saem feras do jazz e de outros gêneros.

Quando eu estava em idade de fazer faculdade, não havia escolas de música popular no Brasil. Eu teria de ir para a Escola Nacional de Música e lá estudar música clássica, que não me interessava tanto, embora eu fosse uma ávida ouvinte e estudasse violão clássico com Jodacil Damasceno. Por isso cheguei a pensar em estudar nos Estados Unidos - não necessariamente na Berklee, mas em alguma universidade que tivesse um bom curso de música - pois meu sonho era me tornar arranjadora. Mas esse projeto custava caro. Enquanto isso não acontecia, fui me preparando, estudando teoria e solfejo, e nesse meio tempo, acabei me formando em Jornalismo na PUC. Quando tudo levava a crer que eu finalmente daria este salto... casei, engravidei, a vida tomou outro rumo. E a vida tem sempre razão.

(Enquanto escrevo isso, o autocorretor teima em colocar a palavra 'arranjador' no masculino, como se não existissem mulheres nessa profissão, vê se pode!)

Pois bem, isso tudo explica minha natural excitação com este convite. E lá vou eu, por enquanto recebendo as notícias que me chegam de lá, onde o time de arranjadores - professores e recém-formandos - vai dando suas leituras a coisas como 'Feminina', 'Forças D'Alma', 'Mistérios', 'Essa Mulher', 'Tema Pro Baden', 'A Banda Maluca' e outras invenções do meu repertório. A curiosidade não tem limites... Vai ser muito bom!


quinta-feira, setembro 24, 2015

Nós e Eles

Não existe o "nós", não existe o "eles". Nem todo pobre é ladrão, nem todo pobre é coitado. Nem toda classe média é malvada, ou quer expulsar o outro, o do lado de lá, dos seus domínios. Quanto maniqueísmo a gente vê hoje por aqui. Livre pensar é só pensar, dizia Millôr Fernandes, meu filósofo preferido. Pensar não custa nada, é de grátis. 
Por exemplo: Copacabana. Minha família participou ativamente do começo do bairro. Minha mãe comprou, a duras penas, um modesto apartamento de dois quartos no Posto Seis, há mais de 67 anos atrás. Foi seu primeiro imóvel próprio, e também o único. Lá nasci e cresci, com meus irmãos adolescentes, e lá recebemos a única coisa que nossa mãe tinha para nos oferecer, com seu suado salário de funcionária pública barnabé: a melhor educação possível, já que ela própria não pudera estudar; livre acesso a livros, cinema, teatro, música. Nunca tivemos automóvel, nunca rolaram mesada ou roupas novas. Todos tivemos de trabalhar desde cedo. Mas os bens culturais eram fartos. A escolha foi essa, desde sempre, e isso fez de nós o que somos, para o bem e para o mal.
Portanto, quando vejo o horrendo preconceito escancarado contra pretos e pobres da nossa cidade se reverter, virando um igualmente horrível e cada vez menos velado preconceito contra a Zona Sul, uma culpa coletiva, como se fossem todos os seus habitantes a fonte de todos os males, inimigos do povo - esse jeito neo-stalinista de ser, que agora anda na moda - não posso me permitir ficar em silêncio.
Sou filha de mãe solteira, que batalhou para educar seus filhos nas então distantes areias de Copacabana. Ela não explorou nem oprimiu ninguém. Mas hoje, se viva fosse, estaria em risco sua sacrossanta ida à praia, sua natação de idosa aposentada, seu prazer maior. Sempre morei na Zona Sul e minha família também. Não somos, nunca fomos, financeiramente ricos. Portanto não vou aceitar uma culpa que não me pertence. O que desejo para o garoto que arrancou a correntinha de ouro do pescoço do meu marido é o mesmo que desejo para os outros garotos que com ele desceram zoando daquele ônibus na Lagoa: uma longa vida feliz, com saúde, educação, e um trabalho honesto, que lhe permita comprar sua própria corrente de ouro quando quiser. Que todos possam ter essa chance na vida.
Não existe um nós e eles, só existe o nós. Todos embarcados no mesmo Titanic. Apertem os cintos, o piloto sumiu.


terça-feira, setembro 08, 2015

Novidades

Deus do céu, ficou complicado demais escrever neste blog. Minhas apari ções por aqui se tornam mais e mais raras. Thanks, google.

De qualquer forma, não poderia poupar esforços pra mostrar o filhote novo. Alguns já viram e até já têm. Por enquanto, saiu só no Japão e adjacências asiáticas. Mas foi feito com carinho e tesão, os standards de jazz (e mesmo alguns não-jazz, como 'Banana Boat', do amado Harry Belafonte, que fiz como uma toada lenta, canto de trabalho que é) passaram por todas as tomadas de liberdade possíveis nos arranjos que fiz. 'Love For Sale', por exemplo, de Cole Porter, virou um afoxé - o que quer dizer que a narradora da canção, que 'vende' seus amores, virou uma baiana. 'Let's Do It', do mesmo autor, virou um samba sincopado. 'Invitation' (que João Donato adora) virou um tango. 'Fever', sucesso da saudosa Peggy Lee, teve ritmo e harmonia virados do avesso. "Nature Boy' ganhou um clima meio mineiro, de hino, onde meu neto Tomaz e seus amigos de grupos vocais diversos (uma cena que cada vez vai mais se firmando aqui no RJ) emprestaram suas vozes ultra-jovens a esta linda canção.

A única canção em que não mexi nada foi justamente 'The Shadow of Your Smile', que ensejou aqui um comentário bacana de um leitor, Gilliat, no meu post anterior. Não mexi porque quis manter a canção exatamente como consta na partitura que o autor, meu amigo Johnny Mandel, me deu em 2008 para um projeto que tivemos juntos, mas não conseguimos realizar por razões financeiras. A única coisa que fiz foi pedir um andamento ultra-slow-music para meus companheiros de gravação, e que a canção rolasse o mais cool possível, para limpar os excessos de gravações antigas, que a tornavam quase brega, apesar de linda.

Procurei canções que tivessem melodias lindas, e isso foi fácil. Mas procurei também letras significantes, já que minha proposta foi gravar no original em inglês. Isso também não faltou. Canções como todas as citadas acima, mais 'Moon River', 'You Do Something To Me' e tantas outras. Foi bonito de fazer. E uma delícia de tocar.

Enfim. esse não sei se chegará algum dia ao Brasil. Mas me fez feliz, por enquanto.

Acho que o próximo será autoral.


sábado, julho 18, 2015

Voltando


Ó céus, ó vida, tenho estado afastada, não só por viagens mil, mas também porque o amigo google resolveu dificultar meu acesso a este blog. Sai deste blog que não te pertence, google! Ou será que eu penso que o blog é meu, e não é nada disso? Ha! Consigo acessar do ipad, mas aí não consigo postar nenhuma imagem. Meu nome de usuário está dando duplicidade. Sou eu, mas não sou eu. Enfim, podendo complicar a vida dos outros, eles complicam. Parece que hoje enganei os duendes que moram na página. Vamos aproveitar enquanto eles dormem.

Acabamos de voltar de 5 semanas de tour norte-americana - EUA e Canadá - e tudo correu bem, com os percalços normais nesse tipo de viagem, que nesta região do planeta são sempre mais prováveis do que quando viajamos pra tocar na Europa ou no Japão. A gente sempre se sente culpada de alguma coisa, que não se sabe bem o que é. O processo de visto de trabalho é infernal, a gente faz tudo certinho, aí eles erram ou têm um crash de computador mundial (eu, hein?) e a gente é que tem de correr atrás do prejuízo. Enfim, ao fim e ao cabo deu tudo certo e o som rolou bonito, e isso é o que importa. Mas que foi uma saga, isso foi.

Depois vêm os percalços aéreos. Tivemos vários - voos cancelados, reservas que sumiram, malas idem, e a cereja do bolo, que foi um pouso forçado em Trinidad Tobago, devido a uma pane no avião da American Airlines, o que transformou nossa viagem NY/Rio numa epopéia que durou 30 horas, de porta a porta. Sendo 14 horas no pequeno aeroporto de Port of Spain, sem hotel nem restaurante. Não é para os fracos...

E daqui a uma semana, Japão, pros shows de lançamento do novo CD. Mas aí é moleza.


quinta-feira, abril 30, 2015

Próximas andanças

Bastante desanimada com meu país, vendo a sociedade brasileira dar uma incrível, inesperada marcha a ré, tornando-se cada vez mais intolerante e conservadora. O livre pensar (que é só pensar, como dizia Millôr) cada vez menos exercido. O pior do pior mandando em nossas vidas, no Congresso. Coisas que pareciam em estágio de superação, conquistas como saber o que contém a comida que vamos comer, o fim do trabalho escravo, a proteção às florestas - conquistas básicas ruindo, e o Brasil na vanguarda do atraso, entrando no século 21 como um anão gigante.

Ainda bem que temos a música como consolo. Exercer minha atividade no meu país nunca foi tão complicado, mas seguimos tentando. Pro pessoal de SP e arredores, estaremos no SESC Vila Mariana com o "RIO", minhas canções cariocas em Sampa, dias 16 e 17 de maio. Depois de algumas participações em shows alheios, eu e meus malucos e queridos companheiros de banda seguimos para Estados Unidos e Canadá, onde as coisas prometem. Aliás, neste ano da graça de 2015, chovem convites para fora do Brasil. Ainda bem, porque chuva por aqui é artigo de luxo, ultimamente.

Mas não vamos desistir do Brasil, não!


terça-feira, abril 21, 2015

Sumiço

Quando parece que eu andei sumida, é porque alguma estivemos aprontando...
Mais um CD no forno, desta vez um que relutei muito em fazer (foi uma encomenda do Japão), mas que, uma vez fazendo, me apaixonou por completo.

A idéia era que eu gravasse um CD de American jazz standards. Coisa que todo artista, de lá ou de alhures - quando a carreira está meio mais ou menos, ou quando lhe faltam idéias novas - faz. Como minha carreira sempre foi meio mais ou menos mesmo, isso não mudaria nada na minha vida. E idéias novas  são artigos que nunca faltaram por aqui. Por isso, relutei muito. Depois de muitas conversas com o Tutty (principalmente) e também com os demais envolvidos - músicos e produtor - acabei topando gravar. E não é que deu certo?

Quer dizer, deu quase certo, porque agora restam as discussões com o label japonês, que mudou de mãos e, por isso mesmo, de condições. Essa parte é quase insuportável e já me deu muitos aborrecimentos. Mas enquanto escrevo, escuto o resultado do que fizemos, agradeço e fico orgulhosa por não ter tido medo de apresentar minha leitura daqueles que são os 'meus' standards de jazz, mesmo que nem tanto para outras pessoas. Ou seja, não são exatamente aquelas canções que seriam de esperar. Fiz do meu jeito, do jeito que sei fazer, passando longe do óbvio. Tutty, Hélio e Rodolfo mergulharam junto comigo a 100 metros de profundidade, sem oxigênio. E o 'meu' jazz nunca foi tão meu, e tão brasileiro.

Quando toda esta mixórdia contratual se resolver - o que, espero, será em breve - poderei contar melhor o que aprontamos. Só posso dizer que estou feliz, feliz, feliz com o resultado.


sábado, fevereiro 14, 2015

Tempo

Nesta linda foto de Andrea Palmucci, tirada em meu show no Blue Note de Milão, na recente turnê européia, as marcas do tempo em minhas mãos. Adoro. Em mim o temor do tempo não se expressa no medo de perder a beleza física, que essa eu entendo como uma característica de uma juventude que não volta nunca mais. Acho terrível quando vejo senhoras com as caras esticadas de plásticas, cabelos pintados, roupas de mocinhas - e quando falam e andam, curvadas e trêmulas, a idade se entrega. Tenho cultivado os fios brancos, aliás. A quem eu iria enganar? Todo o mundo sabe a minha idade, está nas biografias e na web. Grande coisa.

Nas mãos de uma pessoa, as marcas do tempo se mostram, como em nenhuma outra parte. São bonitas, eu acho. Me orgulho delas, e dos dedos calejados pelo instrumento. Vida.

O tempo só me assusta num aspecto: é porque sempre tive certeza de que vou viver muito. Essa é a parte que não me deixa confortável. Quero viver só até onde puder ter autonomia. O Brasil não gosta dos seus velhos. Não sei por quantas décadas ainda terei energia para sair pelo mundo como saio agora, violão nas costas, levando minha música pelo planeta. Só sei que o povo da música criativa não se entrega fácil. Um amigo que trabalha no Blue Note de Tokyo me conta que jazzistas como Toots Thielemans (que recém se aposentou, aos 90) e Phil Woods (que sofre de doença respiratória e precisa estar sempre com uma máscara de oxigênio) parece que 'acendem' quando sobem ao palco, e a mágica se faz. E tocam, tocam, tocam.

Sempre me vi e me senti mais como músico do que como cantora. O futuro da cantora brasileira é meio melancólico. Saudosista, tristonho, vendendo CDs na praça, como a grande Emilinha Borba, ou recolhida longe dos olhos do público, como sua contraparte Marlene. Eu me vejo como um músico de jazz - jazz brasileiro, bem entendido -  membro dessa família da música criativa do mundo, dando a contribuição que me for possível dar, enquanto a música me quiser, ao longo dos anos. E esperando que a vida me faça a gentileza de se retirar, quando isso não for mais possível.


terça-feira, janeiro 27, 2015

Rescaldos de uma turnê



Ando meio sumida, porque estive na estrada. Entramos 2015 com uma tour europêia que só trouxe calorosas alegrias, apesar do frio do inverno. E tocamos em lugares mais do que gelados - Londres, Paris, Viena, Escandinávia e outros locais igualmente congelantes. Pegamos neve, chuva e vento. Meu amado violão Di Giorgio vintage sentiu o tranco, comportou-se bem, mas terá de ser substituído numa próxima viagem, ou sua sobrevivência estará ameaçada. Como disse um amigo luthier e músico, é um instrumento que não foi desenhado nem pra sair do Rio. Pensando bem, eu também não, mas aguento o tranco melhor do que a madeira. Apesar dos 67 que vou fazer daqui a uns dias.

(Idade perigosa, em que partiram Vinicius e Tom... Mas minha turma de amigos está toda fazendo 70 anos, com galhardia e saúde. Então, yes, I can!)

Tivemos lotação esgotada, sold-out, em 95% dos lugares onde tocamos. Houve quem não achasse mais ingressos à venda numa cidade e viajasse para nos assistir em outra. Sendo esta outra num país relativamente distante. A música rolou divinamente bem. A amizade dentro do grupo, mais uma vez, se fortaleceu. E nenhum voo foi cancelado ou perdido, nenhuma mala extraviada, os trens saíram no horário, nenhum de nós adoeceu, tudo nos conformes. Meu neto Tomaz foi um roadie amador de primeira, estreando na função de ajudar a cuidar do meu violão, do meu equipamento, das malas e de mim -  e vendo por si mesmo as realidades da estrada e o peso que tem a música criativa brasileira no mundo.

Hoje estamos na Alemanha, turnê encerrada, curtindo a familinha daqui. Semana que vem, a volta ao Brasil, com o esperado choque que sempre bate quando chegamos. É como voltar de um sonho bom para a dura realidade.

Mas não vamos desistir do Brasil, não.


quinta-feira, dezembro 25, 2014

A minha música

A minha música é neta do samba, mas não é bem samba.
É filha da bossa-nova, mas não é bem bossa-nova.
É prima do Tropicalismo e do Clube da Esquina, mas não é nada disso.
É sobrinha distante da música do Nordeste, mas só às vezes se lembra do parentesco.
É amiga do jazz, que a recebe sempre com festa. Mas também não é bem isso.
Já esteve pop, mas nunca foi.
A minha música não tem estilo.
Ou, por isso mesmo, vai ver que tem.

A minha música é simples, mas pode ser meio esquisita. Nem sempre é confortável. Mas gosta de parecer fácil. A minha música também gosta de algum estranhamento - compassos quebrados, tipo 7/4, afinações malucas, em D, em Eb, em C, por aí.

(E vejam bem, não estou falando de letras. Estou falando de música. Puramente música.)

Pois a minha música quase sempre tem arestas, é pontiaguda, é meio fora de esquadro - ou não.
Ela também pode ser muito simples, quase franciscana, se lhe der na telha. Pois ela é quem manda em mim.
Eu não mando nada na minha música. Ela vem quando e como quer. Não tenho controle nenhum sobre ela.
Mas ela sempre vem. Nunca me deixa na mão.
O canal vive aberto, para que ela desça sobre mim quando quiser. E ela sempre quer.
A minha música quer muitas coisas.
Quer ser ouvida.
Quer ser tocada (pois cantada ela já é).
Quer ser lida.
Quer existir e convidar outras músicas a existirem também.

A minha música não tem gênero definido, só porque foi feita por uma mulher.
Em 1968 um jornalista duvidou que a minha música fosse minha, justamente por isso. Achou que era boa demais para ser de mulher.
Obrigada, cavalheiro. Mas sou mulher, sim, e as músicas são minhas. Pari 3 filhas e umas 500 canções. Posso provar.

A minha música vem da grande árvore chamada Música Popular Brasileira, que é a mais perfeita tradução do Brasil. Aquela que se enraíza na cultura do povo brasileiro, e como disseram outro dia, nos lembra que, sim, somos um grande país. Apesar de tudo.
A minha música está ali naquela árvore frondosa, um galho pequenino com suas folhinhas. Mas lá está, morando ali, junto com seus outros parentes.
A minha música tem raízes, mas voa.
A minha música viaja bem.
A minha música paga minhas contas e bota o pão na mesa.
A minha música me aproxima do Divino.



quinta-feira, dezembro 11, 2014

Pois é isso!



quarta-feira, dezembro 10, 2014

A vida é viagem

Tem hora que dá vontade, ah, se dá. Tem hora que dá vontade mesmo. Sumir no mundo poderia ser uma alternativa. Não fosse o mundo esse mesmo mundo.

Tem hora que dá um desânimo. Dá, sim. O Brasil dá desânimo até nos mais patriotas e entusiastas. A gente tem de sempre 'estar fazendo' o chamado wishful thinking, pensamento positivo, o que os especialistas em mente humana chamam de 'terapia cognitiva'. É assim: só pense no que lhe dá prazer. Esqueça, ou ignore, todo o resto. Ou abstraia. Meditação transcendental é muito bom. Eu faço. Quase sempre.

Um tanque. Um tanque é excelente. Tarefas domésticas, quem não as tem? Só os que ainda vivem naquele mundo quase extinto do século passado. Lavo a minha roupa, sim. Faço a minha comida, sim. E quase tudo o mais. A faxineira também vem, claro, mas o ponto aqui é que esse trabalho do dia-a-dia não deixa ninguém pensar. Tem hora que é ótimo.

Uma estante em casa. Ninguém mais tem. Temos muitas. Cerca de sete, na casa toda, e já não cabe mais, mas os livros continuam chegando. De Jane Austen a Amós Oz, só nesta semana que corre, são tantas emoções. Aí, sim. Não contem com o fim do livro, palavra de especialistas. CDs também chegam, aos borbotões. Nem todos são bons, mas chegam. A criação continua. A vida é viagem. Viagem mental.

E viagem, é o que mais temos pra 2015. Europa, gelo e alegria, já em janeiro. Daí a gente se transforma no Brasil, representa um Brasil moderno, chique, criativo - que não existe mais, mas o pessoal lá fora ainda não sabe. Éta nós.


sábado, dezembro 06, 2014

Pro Cacaso

POEMA PASTICHE (ALTA ANTIFILOSOFIA)
(para Cacaso)
  
O poeta é um sedutor.
Seduz tão completamente
Que chega a fingir que é amor
O amor que deveras sente.

E a pessoa que o descreve,
Se a sedução lhe convém,
Não repara no que deve,
Mas só no que lhe faz bem.

E assim, inventando a roda,
Gira sem fazer questão
O reloginho de corda

Que guarda no coração.


sábado, novembro 22, 2014

Tantas coisas

 Tento escrever, mas o tempo não para. Ouço dizer que a Terra está mesmo girando mais rápido, não é maluquice minha. Assim, os dias têm menos de 24 horas, na real. Pois o eixo da Terra está ligeiramente fora de prumo. Acredito.
Então corro pra cumprir tudo o que vem pela frente. Prioridade 1: a música, novas composições nascendo e a preparação da turnê da Europa, que nos levará a 8 países em janeiro, em pleno inverno europeu. Uma fria, com certeza, mas a música certamente vai nos aquecer.

As gravações da 3ª temporada do 'Pequenos Notáveis', série que criei e apresento para a Multirio, também têm tomado muito do meu tempo. Nas fotos, estou (com o querido Alfredo Del Penho) homenageando - bem na semana da consciência negra - o grande Paulo da Portela, um super-herói do samba. Já gravamos os programas sobre Chiquinha Gonzaga e Mário Lago, ambos parceiros póstumos que a vida me deu. Essa série continua linda, e que pena que esteja restrita às escolas municipais do Rio e ao canal da Multirio na NET. O Brasil precisava e merecia ver isso...

Mas não há de ser nada. Em janeiro, finalmente,  sai aqui no Brasil, via Biscoito Fino, o "Rio", meu CD dedicado à minha cidade. Ao mesmíssimo tempo, estaremos fazendo a turnê de lançamento do "Raiz" na Europa. Vida boa, vida maluca. Não posso reclamar. Adoro essas encrencas. Música, música, música. A vida é isso, e os amores da vida da gente. Não precisa mais nada.

PS- foto 1, by Myriam Vilas Boas; fotos 2 e 3, de Alberto Jacob Filho.


segunda-feira, novembro 03, 2014

Um tempo em que se morria por isso

Esta foto é de um tempo em que se morria por isso. E tem uns malucos pedindo a volta dos militares, tem doido pra tudo. Santa ignorância.
Quer saber como era viver numa ditadura militar? Era mais ou menos assim:

Ter suas músicas censuradas. Ter de mandar seu trabalho, depois de tudo pronto, para o crivo dos censores, podendo ser aprovado ou não. Só poder trabalhar com a famigerada 'carteira de censura', permissão dada (ou não) aos artistas pela Polícia Federal.

Ter de pagar uma taxa de mil dólares para poder viajar ao exterior - chamava-se 'depósito compulsório', nós aqui em casa chegamos a pagar por isso, para que minha enteada, filha do Tutty, pudesse ser devolvida à mãe, que morava nos Estados Unidos. E por falar nisso, ter sua enteada/filha de quatro anos presa no Galeão pela polícia política, por estar sendo trazida de NY até você por um casal amigo (os queridos Ana Arruda e Antonio Callado) que estava na lista negra. Ao chegar em casa, depois de horas de sufoco, a criança tendo sido finalmente libertada pelo esforço de um advogado amigo, ver que a maior parte dos brinquedos que ela trazia tinha sido desmontada pelos policiais do DOPS, para ver se continham alguma mensagem subversiva dentro.

Estar sempre falando por códigos ao telefone, pois sua linha podia estar grampeada, e vai saber o que os hômi poderiam achar da sua conversa. Vai que saísse algum comentário crítico...

Ter amigos e parentes assassinados e/ou desaparecidos. A pessoa podendo ser presa, torturada, morta, ou forçada a ir para o exílio, se fosse marcada pelos hômi. Ou se fosse chamada para um depoimento e não convencesse, como  aconteceu com um garoto, totalmente inocente, vizinho de minha prima, que era a cara de um ex-líder estudantil que estava sendo procurado. Ou como aconteceu com nosso amigo, e grande pianista, Tenório Júnior, preso, torturado e morto (por um engano desses!) pela polícia política argentina, com a conivência da polícia política brasileira.

Ter amigos exilados, ou "banidos' - banido era pior, pois queria dizer forever - o que finalmente não se deu, pois estes, com a anistia, finalmente puderam voltar. Mas até que isso acontecesse, imagine o desespero das famílias e a dor dos exilados.

Ter amigos presos e exilados por incomodarem a 'família brasileira' e os bons costumes, como Caetano e Gil.

Ter notícias da corrupção em Brasília apenas pelo boca-a-boca, pois na imprensa não era possível, e o tempo estava sempre com 'nuvens negras e ar irrespirável', como escreveu o gênio (e meu professor na PUC) Alberto Dines na manchete do JB, no dia do famigerado AI-5.

Malucos pedindo intervenção militar - nem os militares querem isso. Vocês só podem estar brincando.


domingo, outubro 26, 2014

Rápido post pós-eleitoral

Hoje cedo, saindo da votação, encontrei na rua uma amiga muitíssimo querida, mais de 40 anos de grande amizade, em alegrias e tristezas. Ela, toda paramentada com as cores da candidatura de sua escolha. E eu, inadvertidamente - ou talvez 'sem querer, querendo' - vestida com as cores da minha, que não era a mesma da minha amiga. Que fizemos? Nos abraçamos, rimos muito, e lembramos a frase do sábio Ulisses Guimarães: política é como nuvem, vive mudando de lugar. Amanhã ou depois todos esses que aí estão atravancando o nosso caminho estarão fazendo alianças e conchavos em Brasília. E nossas amizades da vida real terão sido desfeitas por nada. Por causa de uma nuvem.
Quem sabia das coisas era Michael Jackson: they don't care about us. They really don't.

PS- o jornalista e amigo Márcio Pinheiro me chama a atenção para o fato de que esta frase, 'política é como nuvem', seria de Magalhães Pinto, não de Ulisses Guimarães. Ele deve saber melhor que eu - que de Magalhães Pinto nada lembro, a não ser uma engraçada imitação que Vinicius de Moraes fazia dele, e que consistia simplesmente em colocar os óculos no joelho. Ficava igualzinho!


sábado, outubro 18, 2014

Outono no Rio...

... Primavera com cara de outono de um ano que não tem sido muito fácil para os trabalhadores da cultura. com Copa do Mundo, eleições, e tudo o mais para tirar a atenção das pessoas. As eleições principalmente, um país que parece dividido ao meio, pronto para uma guerra civil sem motivo ou razão. Parece que a direita sequestrou um partido e a esquerda foi sequestrada pelo outro. Irmão desconhece irmão. Um clima pesado de agressões, xingamentos, ódios e rancores como poucas vezes vi. Sempre fomos assim? Não que eu me lembre.

Mas a música sempre salva, e embora os trabalhos andem meio parados em função do que foi dito acima, 2015 será um ano cheio de viagens bacanas - se Deus permitir, e as epidemias e as guerras não se alastrarem totalmente pelo planeta. Temos Europa em janeiro (e possivelmente em maio de novo), Estados Unidos e Canadá em junho, Japão naquela época de sempre e um evento muito especial sobre a minha música em dezembro, na Berklee School of Music, em Boston.

Aqui no Brasil, o plano é lançar o "Rio - Canções Cariocas", meu CD dedicado à minha cidade, previsto pra coincidir com os 450 anos da chegada de Estácio de Sá por aqui. Na Europa e nos USA, na mesma época, sai o "Raiz".  Tudo se encaminha.

E um monte de músicas novas brotando no meio desse caos, que delícia!