sexta-feira, abril 06, 2012

Sidney Miller

Eis aí o flyer do show em que irei cantar as canções do primeiro LP do querido Sidney Miller, lançado pela Elenco em 1967. É uma iniciativa do Instituto Moreira Salles, que de tempos em tempos apresenta algum disco clássico, geralmente com a presença do artista que gravou, cantando e sendo entrevistado para falar do trabalho em questão.

No caso do Sidney, isso é impossível (e por isso mesmo estarei lá para representá-lo, espero que bem), já que ele morreu em 1980, aos 35 anos, em circunstâncias misteriosas, deixando uma obra pequena e apenas 3 discos gravados. Isso significa que ele tinha somente 22 anos quando compôs e gravou grandes canções como 'O Circo', 'Pede Passagem', 'A Estrada e o Violeiro', 'Menina da Agulha', 'Maria Joana' e outras tantas que estão neste seu primeiríssimo lançamento.

Pessoalmente, eu gostaria de mostrar também outras coisas posteriores de sua obra, como as músicas que fazem parte do segundo LP, 'Brasil, Do Guarani ao Guaraná' - outras grandes canções, como a linda e depressiva 'Pois É, Pra Quê', a divertida e crítica 'Maravilhoso' (nesta, ele anuncia premonitoriamente a futura sociedade guiada pela TV em que hoje vivemos), a linda modinha 'Seresta' (na emocionada interpretação de Jards Macalé, que na época também compunha modinhas belas e tristíssimas)... Ou ainda sucessos gravados por outros artistas, como 'Alô Fevereiro', 'É Isso Aí' ('Isso é Problema Dela') e 'Nós, Os Foliões' (esta gravada divinamente por Paulinho da Viola'). Mas não é esse o mote do show que vamos fazer, e sim manter o foco no repertório integral de um único disco.

(Importante mencionar aqui que convidei o jovem e talentoso Alfredo del Penho para ser meu par neste show, já que este primeiro disco de Sidney tinha como um dos pontos altos seus duetos com Nara)

Sidney nunca foi um artista de sucesso, pelo contrário: era um tímido incurável. Era avesso às luzes do palco, diferentemente de outros colegas de geração - Caetano, Paulinho da Viola, Macalé, todos amigos seus. A timidez era tanta que, num show que fizemos juntos em 1968 (que também tinha no elenco Gutemberg Guarabyra e o Momentoquatro), ele conseguiu convencer o diretor, Paulo Afonso Grisolli, a deixá-lo cantar o show inteiro dentro da cabine de luz, fora das vistas da plateia, no último dia da temporada.

Suas músicas tinham um sabor meio antigo, numa hora em que todo o mundo queria reinventar a música popular brasileira. Talvez por isso ele tenha passado despercebido em vida, apesar de no começo da carreira ter sido muito comparado a Chico Buarque, ambos lançados pela mesma Nara Leão. Chico iria logo dar uma reviravolta a partir de 'Roda-Viva' (a canção e a peça), enquanto Sidney aparentemente ficava para trás e se deixava vencer pela doença do alcoolismo, que não dá trégua a ninguém e requer muita fé, força e ajuda externa para que se saia dela. E foi assim, numa fase difícil da vida, que ele acabou partindo antes da hora.

Porém, ai, porém... há um culto secreto a Sidney Miller pelo ar. Há toda uma geração de jovens cantores e compositores que se interessa pela obra dele, que tem sido regravada por novos artistas como Roberta Sá, o grupo Casuarina e, bem próximo a mim, minha filha Ana Martins. E a partir do momento em que se anunciou meu show no IMS cantando sua obra, o comentário foi geral, com imprensa e redes sociais noticiando, gente pedindo convites, telefonemas, emails, uma repercussão inesperada, que apenas atesta que existia um desejo contido de que a obra deste 'jovem mestre' (no dizer de Ruy Castro) fosse revista nos dias de hoje.

Pois então, vida longa à obra deste amigo querido! e que eu possa estar à altura da tarefa que me foi proposta.
("Ouça bem o que eu lhe digo/ vá cantar um samba antigo/ pra entender o que há de novo" - trecho de 'Argumento', de Sidney Miller)


9 Comments:

At 7:17 PM, Blogger Luiz Antonio said...

Joyce, nada sabia sobre Sidney Miller, apenas que era o nome de uma sala onde muito de meus preferidos se apresentavam no Rio de Janeiro. E como esses meus preferidos não são aqueles que _infelizmnete_ lotam grandes teatros no Brasil, pois sabemos bem que "O Brasil não conhece o Brasil", imaginava uma sala pequena e por isso mesmo batizada com um nome desconhecido. Obrigado pela ajuda e vou atrás de conhecer mais dessa obra.
PS> Show dia 17 e eu aterrizando no Rio dia 18...(você, que já me leu muito aqui,sabe oque quero dizer...srsrsrs...´Não adianta, é próxima esfera...é negócio de outra , espero que não de proxima, encarnação...srsrsrsrsr)

 
At 12:33 AM, Anonymous RICARDO said...

TOMARA QUE NAVEGANTES ESTEJA NO REPERTÓRIO DO S. MILLER. UM BEIJO, RICARDO

 
At 11:37 AM, Blogger Rafael said...

Joyce,

Querida, me responda a uma pergunta: há alguma chance desse tributo seu ao incrível Sidney Miller sair em DVD? Tomara que sim! Sou de Belo Horizonte e infelizmente estou impossibilitado de ver esse lindo projeto em tua voz. Me responda sobre isso, por favor.

Abraços.

P.S.=Aliás, quando você fará show aqui em BH de seu mais novo disco? Espero que seja muito em breve! Venha cantar seu belo disco novo nesse belíssimo horizonte. :)

 
At 1:11 AM, Blogger pituco said...

joyce,

a juventude sempre antenada...eu conheço pouco, quase nada, da obra do compositor...boa oportunidade agora...valeô...

abrsons e bom som pra ti e todos lá

 
At 9:14 AM, Anonymous Túlio said...

faço meu o post do rafael, fico esperando um dvd ou cd do show (não custa sonhar) pois não posso ir ao rio, e fico também esperando seu show aqui em BH.
aliás um cd com as músicas do sidney na sua voz é uma ótima ideia.
a nana já fez um da dolores duran, por que você não faz um do sidney incluindo estas coisas posteriores da obra dele que vão ficar de fora do show?

 
At 11:11 AM, Anonymous Baptistão said...

Que legal, Joyce. A homenagem está em ótimas mãos, bem à altura do grande Sidney Miller. Assim como o Ricardo, eu também destaco a linda canção O Navegante, gravada pelo MPB4 no disco Cicatrizes, e que nunca teve um registro do autor, ao menos não nos seus três discos.

 
At 8:59 PM, Blogger Renato Vieira said...

Joyce, também vale a pena citar o "Línguas De Fogo", último disco do Sidney, no qual ele flerta com o rock e a tropicália sem deixar o lirismo de lado. A faixa final, "Dois Toques", com guitarra de Toninho Horta e ecos de Jimi Hendrix mostra que o cara podia transitar por qualquer estilo

 
At 3:24 PM, Blogger Rafael said...

Pena que você não respondeu a pergunta por mim feita mais acima, Joyce. Adoraria ter uma resposta quanto ao que perguntei... Mas paciência... Fazer o quê, né???

 
At 3:29 PM, Blogger Rafael said...

Túlio, faço minhas também as suas palavras... Acho que o próximo disco da Joyce poderia ser totalmente dedicado as canções de Sidney Miller que você queria cantar no show e não pode... Tanto as do primeiro disco quanto a dos outros álbuns e as que ele não gravou. Fica aí uma excelente sugestão. Acho que até farei uma movimentação na net, um abaixo-assinado para que Joyce grave um disco todo dedicado a ele, assim ele deixa de ser "o maldito" e volta a ter mais atenção e respeito da mídia e do público para com sua obra! Ótima idéia!!!

 

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