terça-feira, novembro 21, 2006

Altman foi embora


Acabo de saber da partida de Robert Altman, um dos meus cineastas preferidos e com quem, sem jamais tê-lo conhecido, fiz um trabalho em parceria. Explico: pra quem não sabe, o filme dele de 1991 "O Jogador" ("The Player", radiografia nua e crua de Hollywood), em sua única cena de amor (Tim Robbins e Greta Scacchi num resort `a beira-mar) tem como música de fundo minha gravação (em dueto com meu queridíssimo Bituca) de "Tema pra Jobim", música de Gerry Mulligan, letra minha. A música rola quase que inteirinha na cena, e foi um dos maiores orgulhos da minha vida vê-la escolhida pessoalmente pelo diretor para esta trilha, ainda que a parte financeira da questão tenha me dado mais aborrecimentos do que outra coisa.

Americanos podem ser muito esquisitos quando o assunto envolve dinheiro. No caso, não foi Altman o responsável pela confusão, mas meu muy amigo e parceiro Mulligan, que ao ver minha gravação fazendo parte da trilha do filme 'descobriu' que afinal de contas minha letra era um trabalho feito por encomenda (dele), e portanto não valia o mesmo que a música _ e portanto ele deveria ganhar mais que eu. Foi-se a bela amizade e sobraram-me 25%. Coisas do capitalismo americano.

Agora mesmo estou tentando ter de volta 5 canções minhas, cuja edição assinei com o maestro Claus Ogerman nos anos 70, em priscas eras, num tempo em que eu era mais jovem, mais boba e acreditava que músicos geniais seriam necessáriamente pessoas bacanas. Não haveria nada de terrível nisso, não estivessem incluídas nessa lista músicas como 'Feminina' e 'Mistérios'... Complicado.

De todo modo, com ou sem grana, americanos ou terceiro-mundistas, a morte é o passo inevitável e o único de que podemos ter certeza, não falha. Robert Altman, que Deus o tenha, era um craque. Que pena que eu nunca pude dizer isso a ele diretamente.

4 Comments:

At 8:26 PM, Anonymous Luiz Antonio said...

O Tom já narrou dessas desventuras num programa de tv....clássicos jobinianos foram ter seus direitos nas mãos de "homens de charuto na boca", como ele definia, numa época em que ele - Tom - era jovem. Mas, não depreciemos os charutos pois tanto ele quanto o Villa eram grandes apreciadores e, como cantava Baby Consuelo: o mal nunca entrou pela boca do homem,o mal é o que saí da boca dele. Nossa, viajei nessa! E por onde anda Baby? Sumiu numa free-way rumo a Disneylandia? Tão linda a gravação de "Eu e a Brisa" que ela fez.....mas preferiu ser barrada na Disney, com o cabelo verde .

 
At 4:38 PM, Anonymous Sergio Santos said...

Joyce. O duro é ver que no mundinho de hoje, as pessoas - americanos ou não - estão trocando as amizades por percentuais às vezes bem menores do que os 25% a mais do Mulligan. É o preço de manter ou conquistar o lugar ao sol. Sendo esse aí o sol, eu cá comigo tenho achado cada vez melhor a sombra. Mas uma coisa é certa: o fato desse seu disco com os arranjos do Ogerman estar até hoje na gaveta, é caso para mobilização na porta da embaixada alemã. Deveria haver uma legislação internacional obrigando os artistas geniais a serem também pessoas geniais, sob pena de se tornarem artistas medíocres. Já pensou...
Sérgio

 
At 3:44 PM, Anonymous Kátia Maués said...

Olá Joyce! Tive o prazer de vê-la e ouvi-la, ao vivo, aqui em Vitória na sexta-feira passada. Que show! Alimento pra alma e conforto para o coração. A sua intimidade com a música é algo fascinante. Você que gosta tanto de vinho está amadurecendo exatamente como o nécta dos deuses. O tempo está sendo generoso e você está cada vez melhor. Aproveitei seu espaço somente para agradecer o show maravilhoso que nos proporcionou. Um beijo azul da cor do mar!

 
At 4:12 PM, Blogger Jovino said...

Oi, Joyce,
Pois é, o Miles gravou 2 músicas do Hermeto várias vezes, e até hoje esse caso da autoria sempre fica enrolado...Nem é tanto que os músicos são pessoas medíocres 9claro que tb. rola...) mas que tudo aqui nos EUA tem que passar pela mão dos advogados, que formam a tribo que realmente apita nesta taba.
Concordo com o grande Sérgio Santos, sambista moir das Alterosas: cade o disco com o Ogerman? Vale um bootleg lejal!
beijos de Seattle,Jovino

 

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