segunda-feira, outubro 21, 2013

livros, biografias, etc

Se fosse hoje, esse livro de repente perigava não sair. Com a intenção de alguns colegas meus de manter como está a lei sobre as biografias - e a freqüente disposição dos mesmos em embargar o que for publicado que não seja do seu (deles) gosto - minhas pequenas histórias sobre como éramos na nossa primeira juventude seriam talvez consideradas impublicáveis. Ainda bem que em 1996, quando ele foi lançado, essa questão não estava assim tão na ordem do dia.

Tive, sim, muitos problemas com jornalistas confusos (não vamos dizer mal-intencionados, acidentes acontecem). Erros foram cometidos muitas vezes, usando meu santo nomezinho em vão. Nem por isso me zanguei ou tentei impedir publicação nenhuma. Nem quando meu amigo querido e parceiro Nelson Motta, de notória péssima memória, me colocou como participante ativa de uma foliazinha lisérgica na casa da Elis - da qual participei como mera espectadora, estando grávida e, portanto, fora do jogo. E olha que o livro dele foi e ainda é best-seller, e para piorar, o trecho onde apareço indevidamente foi replicado na edição mais recente da biografia de Elis por Regina Echeverria. Como boa cabrita que sou, me abstive de berrar. Contei a ele recentemente sobre isso, e ri muito da cara de espanto que ele fez.

Ou quando um dos biógrafos de Simonal usou um texto que postei aqui no blog para magnificar o que seria "o pior pesadelo" de certa MPB, ou seja o reconhecimento da pilantragem como gênero musical de qualidade. Ele próprio - o biógrafo, não o Simonal post-mortem - depois me confessou que fizera uma "utilização hiperbólica" da minha frase. OK, então tá.

Ou quando o biógrafo de Vinicius de Moraes mandou aqui em casa um estagiário, ao invés de falar diretamente comigo, e meu relato no livro saiu cheio de erros factuais, ainda por cima dando a entender que eu deixara que ele lesse uma carta pessoal que Marta, oitava mulher do poeta, me mandara ainda no começo do namoro deles - coisa que eu jamais faria, a não ser com o consentimento expresso dela. Tive que me explicar com minha amiga argentina, que felizmente foi bastante compreensiva. E se não fosse?

A lista é infinita, e a gente vai vivendo e aprendendo. Depoimentos, melhor gravá-los ou, de preferência, fazer por email.  Mas nem por isso acredito que se deva proibir biografias e biógrafos. São testemunhos importantes de seus tempos, que nos ajudam a conhecer mais da nossa própria história. Se tivermos acesso a personagens ainda vivos dessa história, muito bem. Ou ficaremos, no futuro, reféns da tradição oral, o que é muito pior.

Mais não digo. Mas prometo que uma hora dessas, só pra contrariar, conto aqui uma passagem minha com Roberto Carlos...

PS- um último adendo: a sugestão de Djavan de que se pague uma compensação financeira ao biografado é uma das propostas mais indecentes que já vi na vida.

16 Comments:

At 8:43 PM, Anonymous Gilliatt said...

Parabéns, Joyce! Foi a coisa mais sensata que li a esse respeito! Cada vez te admiro mais! E olha que há tempos a admiração já é imensa!
Seu livro mora na minha cabeceira. Volta e meia o releio. Às vezes em voz alta, para minha mulher (durona, mas) que ri e chora emocionada, ouvindo as estórias. Não só ela, é verdade. No final do capítulo das "experiências", com a citação da mulher de branco que, agora de azul, vemos muito por aqui, desabamos! Mais de uma vez!
Um beijo grande!

 
At 8:58 PM, Anonymous Gilliatt said...

PS.: "estórias"não; "histórias", é claro. Foi a emoção!

 
At 11:41 PM, Blogger Cyntia said...

Confesso que estava esperando a sua opinião sobre o assunto e não me surpreendi com o que li. É triste ver tanta gente inteligente falando tanta bobagem... Bom saber que ainda existe gente com as ideias no lugar!
Assusta essa onda de artista se levando tão a sério em plena internet! existe biógrafo mais equivocado que esse?

Sobro o seu livro, essa semana lembrei da sua história com bicicleta quando estava viajando com Vinícius (enquanto ensinava um amigo que também se chama Vinícius a andar de bicicleta). Pretendo reler assim que recuperar meu exemplar ou o meu TCC deixar.


P.S.: Esqueci de perguntar: para onde posso enviar as fotos do show?

 
At 12:46 AM, Blogger Luiz Antonio said...

Putz!
Bota esse capítulo no blog! Agora quero ler e saber!

 
At 7:21 AM, Anonymous Túlio said...

o mais triste são os argumentos usados por esta turma:
quando indagados sobre o fato de que a lei atual permite que políticos com a ficha prá la de suja possam barrar suas biografias, eles responderam.
os políticos não devem ter direito de impedir biografias, nós artistas sim.
o que é isto, mais uma casta privilegiada no brasil?
como se já não tivéssemos tantas?
democracia só existe quando a lei for aplicada igualmente para todos.
ou esta outra pérola dita por djavan: o povo brasileiro não é maduro o suficiente.
mesmo argumento usado pela censura nos anos de chumbo.
quanto ao pagamento ao biografado, eles alegam que como foram inspiração para as biografias deviam receber por isto.
fica a minha pergunta, quantas músicas que estes artistas fizeram foram inspirados em outras pessoas ou em obras alheias?
eles pretendem pagar alguma coisa aqueles que os inspiraram?
minha admiração por estes artistas se transformou em uma possa de lama.
estou prestes a me tornar um ex-fã.

 
At 3:19 PM, Blogger Sils said...

Querida Joyce

O Brasil anda flertando, sem pudor, com a censura e o delito di opinião. O que mais causa escândalo è a origem de certas reivindicações, feitas por paladinos de nossa geração que lutaram contra o autoritarismo militar, na nossa juventude. Alguém me explica se eu devo pedir autorização para escrever sobre um criminoso como Marcola ou Jose Dirceu, e ainda fazer um contrato com eles prevendo ganhos econômicos?
Se o foco do problema è a calunia ou a invasão de privacidade, a justiça tem as ferramentas certas para resolver estas questões. O resto è estúpida soberba …..

Um beijo enorme

Silvio Morais D'Amico

 
At 8:09 PM, Blogger joyce said...

Soberba. Intolerância. Todas essas coisas juntas. Não sei não. Acho que está fermentando, no mundo inteiro, um estranho caldo de cultura fascista, com o qual todo cuidado é pouco. Que isso aconteça aqui no Brasil, a essa altura da nossa história, me dá profunda tristeza. Então não aprendemos nada?

 
At 9:30 PM, Blogger Fefeu said...

Gostei muito de sua posição a respeito do assunto, Joyce.
Assunto que se tornou muito polêmico por se tratar de dois direitos os quais se tornam divergentes: a liberdade de expressão e o direito da privacidade.

Eu, como leitora, sou amante de biografias. É importante que as pessoas tenham acesso às histórias de quem fez história. Tudo com muito cuidado, é claro. Não pode acreditar em tudo o que se lê. Sabe-se lá se o biógrafo é fiel ou tem boa memória. risos

No mais, ainda bem que o seu livro saiu! Ufa!

Em tempo: Seu novo disco está condizente ao título: TUDO

Te vejo em São Paulo no domingo para sentir esta emoção do TUDO ao vivo.

Beijos,

Fefeu



 
At 1:40 PM, Blogger pituco said...

joyce,

declaração do paulinho da viola...que gravaste bacanudamente no cd rio…sobre esse assunto…

sou a favor da liberdade de expressão e das biografias não autorizadas…e ponto final.

abrsonoros

 
At 11:32 PM, Blogger Bernardo Barroso Neto said...

Belíssimo artigo Joyce. Sou a favor de respeitar algumas coisas da privacidade de um artista, mas sou completamente contra essa ideia de censura que muitos nomes da nossa música que nós adoramos querem impor. Se o biografado não gostar do que foi publicado, se por um acaso contar alguma mentira entre na justiça e processa, é muito mais simples do que proibir o livro. O mais famoso caso de todos foi do livro do Roberto Carlos onde o autor não contou nada de grave, aí mandaram tirar o livro. Isso fez com que o aumento da curiosidade sobre ele aumentasse, sendo que o livro é encontrado livremente pela internet. Ainda bem que você escreveu aquele livro e eu adorei as histórias que foram contadas, mas devo confessar que foi difícil de achá-lo até mesmo pela internet. Mas valeu muito a pena.

 
At 6:19 PM, Anonymous Flavio Mendes said...

Perfeito.

 
At 12:24 AM, Blogger rogerio santos said...

Muito gostoso o show de hoje no SESC Bom Retiro. Afora as canções de "Tudo", amei ouvir "Céu e Mar" no repertório... linda de viver !

Abraços e muito obrigado...
Rogerio

 
At 4:13 PM, Anonymous Marcus said...

Só li agora, Joyce, perfeito!
Não é só que em 1996 a questão não estava na ordem do dia. A mudança no Código Civil, que deu ao biografado o direito de vetar uma biografia, é de 2002. Naquela época, os advogados do Roberto não teriam conseguido tirar o livro de circulação. Ou seja, andamos pra trás. Mas esse artistas consideram isso uma conquista.

 
At 5:35 PM, Anonymous Baptistão said...

Joyce, assim como a Cyntia, eu esperava pela sua opinião, e, no fundo, torcia para que fosse exatamente essa. Muito triste ver alguns dos meus ídolos musicais da vida inteira embarcando nessa furada. Continuo admirando as suas obras, mas eles, pra mim, saem menores desse episódio. (Antes, já haviam saído menores de um outro, envolvendo o grande Paulinho da Viola).
Eu também adoro ler biografias, principalmente de gente da música. O que esse pessoal está pregando é um retrocesso sem tamanho.

 
At 2:38 PM, Blogger Lalu said...

Muito legal sua posição. É triste ver gente que lutou tanto contra a ditadura começando a achar que coisas como censura são aceitáveis e até desejáveis. Ainda bem que estamos em um momento em que o debate pode ser feito de forma aberta e clara. Mesmo assim, memória curta é um perigo…
P.S.: Quando li o trecho em que vc fala em dar depoimento por email, não pude deixar de rir lembrando que, nem faz tanto tempo assim, vc me deu um depoimento que acabou virando um capítulo do seu livro (participação especial que me deixa muito orgulhosa). Enfim, estando eu em BH e vc no Rio, o depoimento também foi por escrito, só que escrito a mão e mandado por fax. O mundo muda mesmo muito rapidamente. Esperamos que sempre para melhor…
Ana Luiza.

 
At 4:48 PM, Anonymous Anônimo said...

Joyce,

Gostei muito do seu texto, bem como do blog. Já li outros artigos muito bons, de autoria de biógrafos, juristas e até do poeta/filósofo/letrista Antônio Cícero, que apresentam uma posição semelhante a sua sobre a polêmica das biografias não autorizadas. Mas o seu texto traz a perspectiva de uma artista que pode ser biografada e de uma escritora que já publicou um livro que, embora não se trate de uma biografia, narra histórias de artistas famosos. Caetano Veloso, em Verdade Tropical, também conta muitas histórias que poderiam ser vistas como uma biografia não autorizada, já que as histórias que ele narra sobre o tropicalismo envolvem outros artistas. Espanta-me a posição dele, de Chico Buarque e de tantos outros artistas que fazem parte do movimento Procure Saber.

 

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