segunda-feira, setembro 15, 2008

Nonada no Grammy



OK, desconsiderem os luxuosos convidados que estiveram comigo em algum momento no Japão ou em outras paragens, e vamos nos concentrar no meio de campo: aí estão, comigo (e com Dori e Menescal) alguns grandes músicos que fazem ou fizeram parte das minhas Bandas Malucas como efetivos, durante os últimos 10 anos: Rodolfo Stroeter, Nailor Proveta, Teco Cardoso, André Mehmari _ e Tutty Moreno, ça va sans dire, meu efetivo na música e na vida há mais de 30 anos.

A reunião desses talentosos malucos como grupo em si mesmo começou em 1998, quando surgiu um convite da Secretaria de Cultura da Bahia para o Tutty, que é baiano, gravar um CD individual. Ele optou por convidar para a empreitada músicos tão criativos quanto ele. Rodolfo e Proveta (baixo e sax-alto/ clarinete) foram escolhas imediatas, com quem ele já tocava havia tempo em várias situações e grupos, e que toparam no ato sua proposta de 'desconstruir' a música (daqui a pouco explico melhor). Para completar o elenco, ele apostou num garoto então de 20 anos incompletos, com quem tocara recentemente num concerto em SP, André Mehmari (piano e arranjos de cordas), fazendo ali sua estréia num trabalho desta responsabilidade.

Pois desconstruir a música significava pegar um tema e desdobrá-lo, revolvê-lo, recriá-lo através da liberdade do improviso _ não o surrado formato tema-improviso-volta-ao-tema, mas de fato uma recriação, algo como pegar um vestido, desmanchá-lo todinho e com o mesmo tecido fazer dele uma calça, mal comparando. André foi fundamental nessa proposta, como re-harmonizador, mas igualmente Proveta como solista, Rodolfo como meio-campista (que todo baixista é) e Tutty como ideólogo da coisa toda, transformando, como sempre fez, a bateria em instrumento harmonico e melódico _ trabalhando com ritmos, claro, mas também com cores e texturas. Assim nasceu o CD 'Forças D'Alma'.

Quando eles se apresentaram no Chivas Jazz Festival, em 2001, foi um escandalo para uns, um choque para outros, um alumbramento para a maioria. Principalmente entre os músicos, 'Forças D'Alma' ficou sendo um marco na música instrumental brasileira, e isso saiu com todas as letras em diversas publicações.

A concepção daria ainda mais dois filhotes: o CD 'Nem 1 Ai', com este mesmo grupo acrescido da bela voz de Monica Salmaso e da sanfona de Toninho Ferraguti, gravado em 99; e finalmente, o recente 'Nonada', com Tutty, Rodolfo, André, Proveta e Teco Cardoso, recém-lançado pelo selo Pau Brasil, via Biscoito Fino. Deste eu novamente participo em uma faixa (no 'Forças D'Alma', participara em duas), com uma composição minha, 'Feijão com Arroz', devidamente virada pelo avesso e com um arranjo espetacular do Proveta, ele e Teco com seus saxofones, clarinetas, flautas em todos os timbres possíveis, fazendo uma sanfona gigantesca.

Pois o CD 'Nonada' acaba de ser indicado ao Grammy Latino como melhor CD de jazz. Grammy neles, portanto, que eles merecem!

PS- o nome deste grupo sempre foi uma questão um tantinho polêmica. Forças D'Alma, uma primeira idéia, foi dispensado por todos, por remeter demais ao CD que, afinal, era do Tutty; Banda Maluca, como chegou a ser sugerido pelo Rodolfo, também remetia ao meu trabalho. Depois de muito pensar, o próprio Rodolfo propôs Nonada (como no livro de Guimarães Rosa, 'Grande Sertão- Veredas') e batizou-se grupo e CD.
Agora vimos que, por um erro ainda na prensagem do CD, o nome do selo (Pau Brasil) saiu na lista do Grammy como sendo o nome do grupo. Pau Brasil (o grupo) é outro, de que também fazem parte nossos amigos Rodolfo e Teco _ mas o Nonada é o Nonada, e a eles o que lhes pertence.

6 Comments:

At 12:13 PM, Blogger Nando Nazareth said...

Joyce,

Que maravilha! Parabéns a você e a todo o grupo.
E a você, um parabéns muito especial pelo lindo blog, que eu acompanho (em silêncio, como num concerto) desde o iniciozinho.
De um fã que vai fazer a gentileza de não dizer desde quando, mesmo sabendo que você não tem motivo nenhum para esconder nada.
Parabéns de novo.
Muito sucesso e obrigado pelos momentos lindos.
Um abraço do
Nando

 
At 12:17 PM, Anonymous Anônimo said...

Joyce!
cara, q baita prazer falar contigo.Negah,me diga uma coisa: por que diaxo a gente não consegue encontrar UMA MÚSICA SUA SEQUER nem mesmo no teu site? Caraca! Estou querendo ouvir as músicas daquele teu disco Feminina e tb aquela música ...quem sabe dele sou eu...que vc cantava com a Lizzie e cadê.minha senhora? Nao tem nem por um decreto! Faz-se o quê,minha santa? E o pior é que sou completamente apaixonada por vc naquela época, vc fez parte de toda a minha juventude e me sinto órfã desde aqueles tempos...o mesmo digo sobre Marlui Miranda, que agora só canta troço de índio e um abraço! De qq forma vou bancar a abusada e colocar meu e-mail aqui,quem sabe vc fica com pena e me ajuda a te ouvir! Tenho que postar anonimamente porque me cadastrei aqui neste troço,mas fiz a gentileza de esquecer a senha,daí danou-se!!!! E lá vai! calonsoarq@gmail.com
sim, meu nome é Carla Alonso e vamos em frente!
Paz e amor,negah bacana!
bjobjobjo

 
At 12:52 PM, Blogger JoFlavio said...

Forças D’Alma é um CD interessante. Aliás com algumas desconstruções bem criativas em cima de temas clássicos do super Caymmi. Os arranjos – não orquestrações – e piano do Mehmari são de gente grande. Fiz o Sazinho (irmão da Wanda) ouvir e ele também adorou. Claro que o mérito maior seria do Tutty pela idéia e iniciativa. No programa de jazz que faço na UEL FM (Londrina) – dediquei um dos últimos ao Caymmi -, Forças D’Alma foi destaque. Quanto ao novo disco, ainda não tive acesso, mas acredito ser do mesmo nível. Parabéns antecipados.

 
At 6:38 PM, Anonymous Sergio Santos said...

Joyce.
É uma alegria ver que esse trabalho ganha destaque. Mais que isso, é uma alegria ouvir esse trabalho, para qualquer um que aprecie a música criativa. O mais sensacional nesses caras é ver cada um exercendo a sua criatividade máxima, mas todos andando na mesma direção. Como num time, o coletivo destaca o individual e vice-versa. E como já tive a enorme sorte de tocar com todos esses malucos juntos e separados, posso falar com conhecimento de causa: e pro Nonada? Tuuuuudo !!!

 
At 10:45 PM, Blogger JoFlavio said...

O talento supera qualquer jabá, armação. Pelo menos lá fora. Aqui, nem sempre. O caso de Johnny (Alfred) Mandel. Pelo que sei, a Natalie Cole – filha do Nat, um dos grandes influenciadores do piano no jazz, apesar da lembrança apenas do cantor – enfrentou barra pesada, via drogas e alcoolismo. As mãos geniais de Mandel, através de um disco chamado Unforgettable, transformaram a vida da Natalie, claro, para melhor. A própria Diana Krall só ganhou maior popularidade depois dos arranjos do Mandel. E assim a maravilhosa Shirley Horn e etc, etc. Bem afortunados os que puderam beber a genialidade do Mandel. Apesar dos 85 anos, ele continua na ativa, arranjando como nunca. Seria um sonho impossível Joyce & Johnny Mandel? Se não, o Dori sem dúvida daria conta do recado – ele é o Mandel tupiniquim, alguma dúvida? Mas não no esquema Rio-Bahia. Mas sim com todas as cordas, um varal se possível. Sonho seu (acredito), sonho meu e de todos os que ainda brigam pela MBB (música boa brasileira).

 
At 11:01 PM, Blogger Luiz Antonio said...

Caramba! Nem sabia que FORÇA D"ALMA tinha tanta história por trás, tanto desconstrutivismo e outros requintes e ousadias que só músico mesmo sabe identificar. Como ouvinte só sei que gosto muito! "Nem um Aí", já roda aqui também e não sabia da ramificação desse trabalho com o FORÇAS.
Meu gosto musical já é digno de experts!

 

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