segunda-feira, maio 18, 2009

nem vem que não tem


Assistindo ao excelente documentário sobre Wilson Simonal, duas ou três coisas não me desceram muito bem. A principal delas foi a sensação, que aos poucos vai se confirmando, de que alguém em algum momento iria/irá tentar “reabilitar” a pilantragem, que o próprio Simonal descreveu como “total descompromisso com a inteligencia”, como se fosse um importante movimento musical, caído injustamente no ostracismo. Nem vem que não tem: a pilantragem nunca foi um movimento. Era apenas uma rapaziada esperta, a fim de se dar bem e faturar uma grana e algumas garotas.

De todos os depoimentos do filme, o que me soou musicalmente mais sensato foi o de Sérgio Cabral: "a pilantragem era uma bobagem musical, que não deixou nenhuma marca na música brasileira. Simonal era muito melhor do que aquilo". E era mesmo. Pra quem foi adolescente no Rio de Janeiro dos anos 60 e dançou ao som suingado do sambalanço, é no mínimo frustrante não ver no filme praticamente nada do cantor espetacular que lançou coisas como 'Mestiço', 'Balanço Zona Sul', 'Mais Valia Não Chorar', 'Samba de Negro', 'Mangangá', 'Juca Bobão', “Nanã’ e outras delícias. Tudo isso dá-se por subentendido através da cena dele com Sarah Vaughan _ um belo momento, por certo, mas apresentando nosso anti-herói mais como um possível cantor de jazz do que um artista que teve real importancia na MPB dos anos 60.

Para a maior parte do público atual, que não viveu nada disso, a compreensão que fica é outra. O filme privilegia o Simonal animador de auditório, foca no seu indiscutível carisma, dominando a platéia de 30 mil pessoas do Maracanãzinho _ eu vi, eu estava lá _ "agora cantam só os 15 mil deste lado, agora só os 15 mil do outro, alegria, alegria!" E tome-lhe 'Meu Limão, Meu Limoeiro', 'Mamãe Passou Açúcar ni Mim' e coisas do tipo. Esse não era mais o Simonal que os músicos adoravam. Era um fake de si mesmo, uma caricatura. A curva descendente já começava, por escolha própria, muito antes de tudo o que viria a acontecer mais tarde _ e, repito, estou falando exclusivamente da música.

A pilantragem era de fato uma grande e inofensiva besteira musical, ainda que às vezes viesse embrulhada para presente, pela mão de arranjadores como César Camargo Mariano e Erlon Chaves, e usando como veículo uma voz como a de Simonal. O cantor-músico que ele era começou a se deslumbrar com dinheiro e sucesso fácil, e acabou deixando para trás o próprio dom. Não dá para imaginar um garoto vindo de família pobre, enfrentando preconceitos de raça e origem social, vencer na vida de maneira tão assombrosa e não perder a cabeça com isso. Perfeitamente humano. Para quem o acompanhava e admirava desde o início, parecia um desperdício de talento. Porém previsível, dado o mentor que ele escolhera para chamar de seu, o inenarrável Carlos Imperial.

Nas biografias de Clara Nunes e Roberto Carlos, dois dos maiores ídolos do Brasil de todos os tempos, está lá, com todas as letras: Imperial foi parte do início de carreira dos dois. Para Roberto, ele imaginara uma alternativa a João Gilberto, uma espécie de bossa-nova do B, só que usando suas composições (dele, Imperial) em vez das de Jobim, Menescal e Lyra. Claro que não daria certo. Para Clara, de brasilidade incontestável, ele propunha versões e boleros. Essas tentativas iniciais estão registradas nas primeiríssimas gravações de ambos. E ambos tiveram o bom senso de se desembaraçar do mentor e seguir caminho próprio, no momento certo.

Simonal, não: estranhamente, quando passou a ser aconselhado por Imperial, ele já era um artista querido do público, com todo o prestígio possível. Mas não era ainda o superastro em que se transformaria depois. Imperial, que estivera presente em seu início de carreira, voltava a influenciar o antigo pupilo, quando este, em tese, não precisaria mais da influencia de ninguém. Parecia um retrocesso, e era. Mas Simonal possivelmente queria mais _ mais dinheiro, mais sucesso _ e fez suas escolhas. Talvez tivesse conseguido assim mesmo, sem pilantragem, só com seu extraordinário talento. Quem sabe?

O argumento de que “a esquerda” odiava Simonal por ele ter gravado ‘País Tropical’ também não desce bem. Mesmo os mais empedernidos opositores do regime militar naquela época não tinham a menor dúvida de que "País Tropical' nada tinha a ver com patriotadas do tipo 'Eu te Amo, Meu Brasil'. Jorge Ben e Simonal não eram Dom e Ravel (aliás, Benjor teria sido uma importante adição aos depoimentos. Talvez tenha optado por não participar). Nem o capitão Lamarca, se saísse vivo da clandestinidade, poderia ter qualquer restrição a essa recriação suingada, divertida e tropicalista do poema de Bilac, aprendido na infancia: "Ama com fé e orgulho a terra onde nasceste/Criança, não verás nenhum país como este!" Pois fosse qual fosse o governo da hora, o Brasil, como o Rio de Janeiro, continuaria sendo. Na minha memória, ainda é bem claro: todo o mundo adorava ‘País Tropical’, de A a Z, de um extremo ideológico a outro. Nem vem que não tem, de novo.

O pessoal do Pasquim também leva, a meu ver, culpa exagerada como detrator único de Simonal (inexplicavelmente, faltou o crédito dos desenhos, mas dá para se reconhecer claramente a mão pesada de Henfil nas charges onde Simonal é apontado como dedo-duro). Essa acusação, mesmo que injusta, já tinha saído largamente na imprensa diária, a partir do depoimento de um dos agentes do DOPS envolvidos no sequestro do contador. E das declarações do próprio Simonal.

Por que as conexões mafiosas com o tenebroso DOPS? Por que ele teria se apresentado como “amigo dos hômi”? Para mim, a melhor explicação, no filme, vem de Pelé: se Simonal era capaz de acreditar seriamente que iria ser chamado para ponta-direita da seleção brasileira de 1970, seria capaz de qualquer coisa. Um caso de mitomania, ou como dizem os americanos, self-delusion. A pessoa acredita ser o que não é. Pena que com desfecho tão trágico, destruindo uma carreira que poderia muito bem ter dado todas as reviravoltas possíveis e terminado gloriosamente em palcos do mundo inteiro _ se dependesse só do cantor genial que ele era.

PS- Renato, obrigada pela página enviada sobre o festival de 1969, boa lembrança. O "nós estamos por aí sem medo" do comecinho da letra de 'Copacabana Velha de Guerra' era exatamente o nosso tímido recado de estudantes aos militares. Não derrubamos o governo, mas Elis, que era jurada do festival, sacou a música na hora e gravou em seguida, dando início à minha carreira de compositora gravada por outras intérpretes.

12 Comments:

At 12:15 AM, Anonymous Luiz Roberto said...

o Simonal me lembra sempre o caso do Henry Mancini...embora um não tenha absolutamente nada a ver com o outro, ambos tiveram momentos preciosos, de criatividade exemplar, e ambos tiveram momentos péssimos, onde o lado "comercial" e consequentemente a grana decorrente disso ficava em primeiro plano...por outro lado, não me lembro de uma determinada cantora, uma "tal" de Joyce, fazer concessões comerciais...que nem o "tal" de Dori Caymmi...rsss...

 
At 2:19 AM, Blogger Renato Vieira said...

Vale lembrar que a Elis também começou sendo produzida pelo Imperial e acabou seguindo depois por conta própria. Mas creio que, se há uma qualidade do Imperial, foi ele ter reabilitado Ataulfo Alves quando ele estava em baixa. Talvez, se não fosse "Você Passa, eu acho graça", sucesso dos dois, o Ataulfo teria morrido mais pobre do que morreu

Joyce, achei aqui "nos blogs da vida" uma página de jornal ou revista de 1969 com letras do IV FIC, do qual o Simonal regeu o coro de 30 mil pessoas. Uma delas é a letra de "Copacabana velha de guerra", com uma foto sua. Vale como lembrança.

http://2.bp.blogspot.com/_KpbSmmEk1nc/SLBJo-KURrI/AAAAAAAAAW8/Jyj0p5g9xzo/s1600-h/Joyce.jpg

 
At 2:14 PM, Blogger pituco said...

joyce,
de pilantragem pra piratininga...rs

recebi um flyer bacanudo...trio torrente, no próximo dia 29,em sampa, convida joyce.

ele inclusive esteve por aqui,alguns meses atrás, apresentando-se bem em frente de onde trabalho...infelizmente,não foi possível assisti-lo...junto com o sadao,marcel e corza.

o que será que vocês estarão preparando?...infelizmente esse encontro também perderei.

ps.já não se faz pilantras como antigamente...rs

amplexossonoros

 
At 10:34 AM, Blogger Myriam said...

Ah! como é bom ouvir as histórias por todos os ângulos. Acredito piamente na sua versão. Valeu todos esses esclarecimentos. bjos, Miroca

 
At 5:26 PM, Blogger Bernardo Barroso Neto said...

Esse seu comentário foi o mais lúcido que já ouvi sobre o grande Simonal. Realmente ele era um cantor sensacional, mas que se perdeu depois que passou a seguir os passos de Carlos Imperial.

 
At 9:59 PM, Blogger JoFlavio said...

Quem nunca errou que atire a primeira pedra................

 
At 3:58 PM, Blogger PAUL CONSTANTINIDES said...

joyce beleza de texto.
me lembro do Simonal cantando musicas marcantes na minha infancia..entre 68-70 (Sah Marina e Pais Tropical),super vivas e intensas na memoria.
muito positiva a sua posizao.
abs/bjs
paul

ah..tem A Tribo no musa..

 
At 3:20 PM, Blogger Érico San Juan said...

Cada um faz as suas escolhas na vida: musicais, estéticas, políticas, pessoais. O Simonal fez as dele, você as suas, Joyce. Ao menos na minha CDteca, vocês convivem numa boa. Abraços.

 
At 9:30 PM, Blogger tudo de você: marcos valle amplified discography said...

Joyce,
O seu texto é muito bem escrito, mas, na minha visão full screen, a Pilantragem é bem melhor do que a tal da Tropicália - pelo menos a primeira é vibrante, gostosa de ouvir e gerou frutos bem interessantes, como três discos de Claudette Soares entre 1969 e 1970, todos os do Som 3 e o próprio "Mustang Cor-de-Sangue", de Marcos Valle, que é pop mas de altíssima qualidade. Há outra pérola insuspeita no estilo Simonal, que é a gravação que a musa Nara Leão fez para "Pisa na Fulô", de João do Valle, no álbum "Coisas do Mundo", também de 1969. E, embora o melhor disco de Simona seja "A Nova Dimensão do Samba", a fase posterior dele também merece ser ouvida com mais atenção.

KL

 
At 9:53 PM, Anonymous Anônimo said...

"Você pode até dizer que a pilantragem foi um truque, mas em nenhum momento pode dizer que ela é música ruim" (Zuza Homem de Mello, no livreto que acompanha a caixa de CDs "Wilson Simonal na Odeon, 1961-1971).
E aí, Joyce? O Zuza é um bobalhão que não sabe o que diz?

 
At 4:04 PM, Anonymous Lírio Zaccaro said...

Também acho a pilantragem muito mais rica que a tropicália, sobretudo musicalmente — ao contrário da maior parte dos brasileiros, não dou tanta bola pra letra de música; prefiro ler poemas.

Agora, você diz aqui:

O argumento de que “a esquerda” odiava Simonal por ele ter gravado ‘País Tropical’ também não desce bem. Mesmo os mais empedernidos opositores do regime militar naquela época não tinham a menor dúvida de que "País Tropical' nada tinha a ver com patriotadas do tipo 'Eu te Amo, Meu Brasil'.

Como se apenas a esquerda se opusesse ao regime militar... E, por exemplo, Ulysses Guimarães? Mas reconheço: a democracia morreu por falta de quem a defendesse, tanto no poder dos militares como na oposição terrorista, nenhum aspirando a uma reforma democrática.

 
At 12:18 PM, Blogger Ra'd said...

Bom, eu sou meio sapo de fora na conversa, tenho 37 anos, não vivi nada da ditadura militar, talvez só os últimos anos, sob o governo Geisel. Então minha óptica é diferente. Me sinto roubado! Por só haver ouvido falar nesses anos todos de um dedo-duro da ditadura chamado Wilson Simonal e não ter conhecido nada do artista. O filme, sendo ele imparcial ou não, tentando ou não reviver o pseudo-movimento da pilantragem, trás de volta (tardiamente, poderiam ter aberto esse baú antes da morte dele)o artista pra conhecimento das gerações que foram privadas dele. E quem realmente se interessar, meu caso, vai pesquisar e vai descobrir o trabalho de qualidade.

Acho que já era mais que a hora de anistiarem o sujeito. É uma opinião de alguém que não viveu a época, mas acho que talvez seja importante até por ser um outro ponto de vista.

 

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