terça-feira, janeiro 02, 2007

Um Jobim na África


Cypho “Hotstixs” Mabuse é um músico e produtor sul-africano, certamente um dos mais bem-sucedidos do seu país. Sybongile Khumalo, cantora, é uma das grandes divas da África do Sul, onde grava nos idiomas inglês e zulu, com ótimas vendagens e enorme prestígio.

Os dois têm muito em comum, a começar pela origem: cresceram juntos no mesmo gueto, em Soweto, distrito de Johannesburgo, nos anos duríssimos do apartheid, e foram abrindo caminho na carreira musical com coragem e competência. Outro dado em comum entre eles é a paixão pela música brasileira _ para minha alegria, os dois incluíram, já há bastante tempo, uma canção minha e de meu parceiro Mauricio Maestro em seus repertórios.

Neste exato momento (fazendo de conta que ainda estamos no ano 2000), tomamos um chá na casa de Mabuse, nosso anfitrião em Johannesburgo. “A primeira coisa que o negro faz aqui quando se dá bem na vida é sair do gueto”, nos conta ele. “Já eu faço questão de continuar morando no mesmo lugar, e ser uma referencia para essa garotada que está aí”. De fato, a casa de nosso anfitrião é uma referencia em todos os sentidos, especialmente no bom-gosto e nas deslumbrantes peças de arte vindas de todo o continente.

Mas o que mais acende a nossa conversa é a pergunta que acabamos de ouvir no conservatório de Soweto, onde fizemos um workshop sobre música brasileira, e que Mabuse nos repete, insistente: “como é que vocês no Brasil conseguiram preservar a identidade cultural na música de maneira tão forte?” Ele não pergunta isso à-toa: acaba de ser realizada aqui a Semana de Música Sul-Africana, com enormes dificuldades, inclusive de público. A cultura local sofre esmagadora influência do pop norte-americano, e sua única manifestação bem recebida tem sido uma espécie de rap em zulu.

Mabuse prossegue, dizendo: “Tudo o de que precisávamos era ter tido um Jobim na África. Imagino que Antonio Carlos Jobim seja o mais respeitado de todos os brasileiros, já que a música dele é a maior referencia cultural brasileira no mundo”. Ah, meu amigo, agora é que você se engana. Preciso lhe contar duas ou três verdades sobre o meu querido país.

Pra começo de conversa, o que se escuta nas rádios brasileiras já está dominado pelo pior faz tempo. Não quero desfazer sua ilusão, mas pelo andar da carruagem, o povo brasileiro daqui a 10 anos não vai mais sequer saber o que foi a música brasileira do século XX. E não, os intelectuais do Brasil não estão unidos em defesa da identidade nacional, muito pelo contrário. Imagine você que até hoje há quem acuse o nosso bom Tom pelo fato de ter nascido branco, numa família de classe média. Pois é. O nosso apartheid é assim meio engraçado, o pessoal às vezes atira pelos motivos certos na direção errada.

Música não tem cheiro nem paladar nem cor, a não ser se pensarmos pelos cânones impressionistas de um Debussy, responde meu amigo Mabuse. E eu completo: no Brasil, de onde menos se espera, sai um milagre. Coisa divina, sabe como é? O que poderia explicar a existência de músicos como Hermeto Pascoal, albino de Arapiraca, em Alagoas, ou Moacir Santos, negro nascido em Flores, Pernambuco, ambos vindos de ambiente rural, famílias de agricultores paupérrimos, sem estudo formal de nenhuma espécie, e que produzem música sofisticadíssima, de deixar o mundo boquiaberto (e que o povo, o famoso “polvo” brasileiro, desconhece)? E você já ouviu falar em Noel Rosa, branquinho de classe média, estudante de medicina, que foi talvez o mais popular dos sambistas brasileiros na primeira metade do século passado? Pois é.

A música feita no Brasil _ “flor amorosa de três raças tristes”, segundo Olavo Bilac _ já teve vários nomes para tentar definí-la, e MPB certamente foi o menos feliz de todos. Mas na grande árvore genealógica desta que é, de longe, a mais bem-sucedida manifestação cultural do nosso país, o samba está para a bossa-nova assim como o blues está para o jazz, como o pai para o filho. Um é raiz, o outro é fruto. A bossa-nova é de fato o equivalente brasileiro do jazz: o clássico moderno de origem popular, mundialmente amado e respeitado, que sobrevive (e sobreviverá) aos tempos que vivemos. E que deveria, sim, ser reconhecida como patrimonio imaterial da Humanidade, tendo Tom Jobim como patrono. O resto é discussão entre primos.

PS- Este texto meu foi publicado no Globo do último domingo, 31/12/2006, com o título "As Flores do Gueto". Foi escrito num momento de profunda irritação, causada pela leitura do artigo de Nei Lopes, "Samba, MPB e Racismo", que malandramente compara a bossa-nova ao pop-rock dos anos 80, apenas por ter nascido em ambiente classe média e supostamente "branco". Não precisamos de mais um apartheid na música brasileira. Se hoje ela é branca na poesia, ela é negra demais no coração.

6 Comments:

At 5:30 PM, Anonymous Anônimo said...

Salve, salve!!! Que blog lindo! Agora vai ficart melhor ficar mais pertinho!!! É, aqui, uma admiradora de trabalho, que acaba de descobrir seu blog pelo site da Leila Pnheiro - do qual aliás, sou frequentadora assidua! risos! Ainda nao me atualizei, mas é so uma questao de tempo!
um bejo!

 
At 11:52 AM, Anonymous Anônimo said...

Oi Joyce!
Eu adoro as suas músicas, você pra mim é a melhor cantora do mundo na atualidade.
Muito bom seu site e também seu blog.
Eu tenho 24 anos e adoro a MPB especialmente o nosso maestro Tom Jobim, infelizmente são poucos assim como eu aqui no Brasil.
Foi ótimo você ter lembrado essa frase do Vinícius do Samba da Benção, é exatamente isso que eu penso também da nossa música.

 
At 2:27 PM, Blogger Vicky said...

Querida Joyce,

Moro na Inglaterra ha 7 anos. Aqui muitas vezes fui excluida de "guetos" brasileiros por ser culta e saber falar ingles, alem de muito branca (ninguem acredita que sou do Rio de Janeiro...).

Sempre amei os grandes mestres da musica brasileira, uma vez gastei metade do meu salario de estagiaria para assistir ao Tom Jobim no Canecao. Jah fui a um sem numero de shows do Geraldo Azevedo, Boca Livre, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, e um monte de gente legal, de generos completamente diferentes, que nem vou lembrar. Mas sempre foi muito dificil comprar os discos desse pessoal que eu gosto tanto... E quando cheguei na Europa, me senti no paraiso, eh o melhor lugar para se comprar o melhor da musica brasileira. Achei um CD duplo do Tom Jobim, com gravacoes originais, na Franca... Achei Vinicius e Toquinho na Italia. Seus, aqui em Londres mesmo...

Se converso sobre essas coisas com os brasileiros com os quais tive contato quando cheguei aqui eles soh teriam breganejo pasteurizado, axe e funk para me oferecer... Que Deus me perdoe! Se tem um lado no qual eu sai ganhando de mil por estar fora do pais, sem duvida foi a possibilidade de ouvir na radio - eh verdade - e poder comprar musica brasileira de qualidade em qualquer loja.

Para quem quiser diminuir o que o Brasil tem de melhor (e quem tah no Brasil adora fazer isso) eh soh prestar atencao em filmes americanos, ingleses, franceses e, principalmente, italianos: se tiver uma festa, um ambiente sofisticado soh toca bossa nova. E em portugues mesmo. Os gringos adoram.

 
At 8:07 PM, Blogger Simone said...

Que sorte conhecer o seu blog e ter a oportunidade de ler coisas tão legais e tão oportunas,principalmente quando se trata da musica Brasileira.
Entrei no seu blog por acaso pois estava ouvindo a musica Jogo de cintura(me emocionando com a musica e com a gravação)e estava procurando a letra para poder cantar numa apresentação.
Um beijo
Simone Mota - Salvador-Bahia

 
At 6:08 PM, Blogger agarcia2004 said...

Concordo com vicky. Aqui também posso comprar música da melhor qualidade, porque as lojas brasileiras vendem(também tem "aquelas coisas"... breganejo, axé, pagode e tal...) e também é possível comprar pela internet, a preços bem accessíveis. E ainda ouço no rádio também. Agora, no Brasil, sei não... Adorei o que você disse sobre a bossa nova. Menescal, Edu, Carlos Lira e outros têm culpa de ser classe média e/ou brancos?!!! Ridículo!
Bjs!

 
At 3:12 PM, Anonymous Marilia said...

Cara Joyce
Muito oportuna suas palavras. O que existe por trás das palavras do Sr. Nei Lopes? Fechemos os olhos e encontraremos as respostas. Basta ver a luta por uma cota nas universidades. Quer coisa mais racista, na mão contrária? Por que não cota para todos os que saem das péssimas escolas púbicas brasileiras? Por que não se reestrutar o ensino público para que essas vergonhas não aconteçam mais?
Voltando a música, eu fico imaginando que todos os países do mundo estão passando pela mesma crise a que se refere o grande músico Mabuse.O lixo dos EEUU sufocam o planeta. Eles mesmo estão sufocados. Ouço comentários.
Aqui se encontram as mais lindas músicas já feitas no mundo e aonde estão? Aonde estão tocando? Nos lares de pessoas que não abrem mão do melhor e nesse melhor encontramos entre outros, a nossa querida música brasileira.Tô com o Caetano, quando afirma que aqui se tem as mais belas músicas do mundo.É, eu sei que é polêmica esta afirmação e me perdoem, é um ponto de vista meu.
Abraço

 

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