segunda-feira, setembro 10, 2007

compositor

Compor dá trabalho. Compor É um trabalho: 10% de inspiração e 90% de transpiração, já disse alguém. Eu discordo, acho que a inspiração leva bem mais que 10%, e isso explica o grande número de "vocações sem talento" (como dizia uma falecida amiga minha). A pessoa pensa que só a transpiração é o bastante... e aí fica faltando aquele não-sei-quê que faz a diferença.

Ninguém aprende samba no colégio, e é por isso que hoje os USA vivem grave crise de criatividade na música. Instrumentistas maravilhosos, mas quase nenhum compositor. O cara chega na universidade e aprende a compor. Como se isso se ensinasse... Segundo João Donato, os Estados Unidos são uma maravilha, tem manual pra tudo, e "how to write a song" fica na mesma estante de "how to fry an egg". Gênio!

Agora está rolando cá no Brasil o grande debate sobre direito autoral, com extensa participação do meu querido amigo (e vosso ministro) Gil. Creative commons _ "samba é que nem passarinho, é de quem pegar primeiro", já dizia Donga no comecinho do século passado. "Minha maior inspiração é um telefonema do produtor", dizia Cole Porter um pouquinho depois. Paga, não paga, tem dono, não tem. O direito autoral é o salário do compositor. Está na constituição: a "obra do espírito" é direito inalienável. Será que vai deixar de ser?

Aqui vai a minha contribuição possível para o debate. "Compositor" é uma música minha em parceria com Paulo César Pinheiro, que acertou na mosca quando definiu o tema. Está gravada no CD novo, "Samba-Jazz & Outras Bossas".

COMPOSITOR

música: Joyce
letra: PC Pinheiro & Joyce

Compositor, compositor
mas como é que vive o compositor?
Sem ser showman, sem ser cantor
será que ele paga o lugar que alugou?
será que tem outra função
e faz sua música se faz serão,
será que não?
será que dá pra dar pensão
quando ele brigar com o amor que inspirou a canção?

Compositor, compositor
mas como é que vive o compositor?
que é que vai ser no fim do mês
se ninguém gravar a canção que ele fez?
E se gravar, não leve a mal,
não dá pra viver de direito autoral
compositor
tem muito sócio, sim senhor
Ecad, sociedade, leão, gravadora, editor

Ave Maria, mamãe dizia
meu filho, por favor
siga o disposto, não dê o desgosto
de ser compositor
acho que não adiantou
quem anda na chuva já se molhou
e até gostou
quem vive só do seu valor
sabe da pedreira que é ser um compositor

Quanta vaidade, que veleidade
ser compositor
quanta vontade na flor da idade
de ser compositor...
se dá bloqueio de criação?
autor brasileiro não tem disso não
compositor
só se levar no bom-humor
pior que todo o mundo também quer ser compositor!

Compositor...
todo o mundo quer ser compositor!

9 Comments:

At 1:04 AM, Blogger Pituco said...

"vejo o samba ser vendido, o sambista esquecido, o seu verdadeiro autor..."(Paulinho da Viola)

acho que foi sempre assim!

muito mais com os 'poetas' letristas,não é verdade?
Músicos compositores, como teu caso,ainda se defendem 'nos bares da vida'.
Deve ser 'duro' ouvir sua letra na boca do povo e continuar 'duro'..rs!

quanto à crise de criação, concordo com o João Donato...há manual pra tudo, hoje em dia.
As facilidades da modernidade.Instrumentos,métodos,partituras tudo ali, na loja da esquina.
Sem dúvida alguma,muito bacana como informação e formação técnica.
Mas, de fato, falta 'o não-sei-quê'.

Aqui,por essas plagas, costumo brincar...
"quem nasceu primeiro? o ovo ou a galinha?"

"quem nasceu primeiro? o japonês ou o manual?"

Joyce,
parabéns pelo novo álbum e pretendo adquiri-lo em breve.

amplexosonoros
namaste

 
At 10:36 AM, Anonymous Sérgio Santos said...

Oi Joyce. O pau anda mesmo comendo solto em cima dessa questão autoral. E isso ainda vai dar muito pano pra manga. Eu cá comigo não vejo com bons olhos o Creative Commons. A nossa legislação autoral já nos permite fazer qualquer coisa que o tal sistema propõe. Sempre há alguém pra reinventar a roda. Nesse caso cabe perguntar quem é que leva vantagem com a roda nova. O que me parece estar por trás dessa história é a ampliação da possibilidade de disponibilização gratuita de conteudo na rede, sem o que chamam de "amarras" a que os direitos de autor levam. Essas amarras são as que garantem em qualquer caso a remuneração da criação artística. O que se quer criar é uma cultura de que, ao ser disponibilizada gratuitamente, a obra possa gerar outros tipos de remuneração pelas consequências dessa exposição: visibilidade, shows, etc. Mas pergunto de novo, quem se favorece mais com isso? Não seriam as grandes corporações da rede, que se valorizam com o grande volume de conteudo gratuito? Que muitas vezes cobram por ele? Não seria bom se perguntar por quanto o Google comprou o YouTube? E será que os que geraram o conteudo gratuito do YouTube receberam um centavinho só da fortuna? Por que será que o nosso bom ministro, que defende ardorosamente a reinvenção da roda, e que detém os direitos de uma boa parte de sua obra, não as disponibiliza pelo CC? Quando o fez foi com uma única música de um CD gravado em Oslo (aliás lindo), totalmente desconhecido e que ele mal assume como seu. Queria ver colocar Domingo no Parque, Aquele Abraço, Refazenda e tantas outras à disposição. Esse assunto realmente dá pano pra manga!!
Mas já que agora todo mundo pode ser compositor, é só ter uma boa idéia na cabeça e um violão nas mãos. Só que andam se esquecendo da idéia. E os poucos que as tem muitas vezes se esquecem de perguntar se ela é mesmo boa. Pra mim esses assuntos estão entrelaçados: a atual facilidade de produção anda de mãos dadas com essa criatividade medíocre que assistimos todo dia.
O que lava a alma é ver essa sua parceria com o Paulinho, dois compositores de verdade, dignos do nome. Não conheço ainda a melodia, mas tenho certeza que já gostei.
Falei demais, desculpe.
Beijo
Sérgio

 
At 4:17 PM, Anonymous Mara Ferrato, RJ said...

Joyce, voce sempre tão lúcida.
Por essas e outras que eu admiro mais ainda o CD que voce gravou, Especiaria (quem não conhece esta perdendo!) - do Flavio Chamis, no qual ele é apenas o compositor e nada mais. Isso nos remete ao tempo em musica era feita sem truques, em que o compositor escrevia e outros tocavam (e ainda tocam ate hoje, claro). Alias, li em algum lugar que o Flavio foi premiado no "John Lennon Songwriting Contest" - o que é bastante apropriado, né?

 
At 5:13 PM, Anonymous Fabio said...

Joyce: has venido alguna vez a la Argentina? descubrí tus trabajos a partir del disco con Horta...y a partir de allí he quedado fascinado por tu forma tan perceptiva de cantar.
Un abrazo bien fuerte desde Rosario. Argentina.

 
At 6:45 PM, Blogger Bernardo said...

Hoje em dia todo mundo pode ser compositor.
Mas como você é muito díficil.
Você é legítima herdeira de uma turma como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João Donato, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Villa-Lobos e muito mais.
Além do que na sua época surgiram nomes como Edu Lobo, Chico Buarque, Giberto Gil, Dori Caymmi, Marcos Valle.
Hoje eu acredito que não tem ninguém no mundo que canta e compõe tão bem como você, legitíma filha ou neta da Bossa Nova e da nossa melhor safra de compositores em todos os tempos.
Beijos!

 
At 12:26 PM, Anonymous Gilliatt said...

Joyce, a casa do compositor na Codajás também não resistiu ao tempo. Em seu lugar, já existe outra em construção.
Que bom que as músicas são eternas!

 
At 1:06 AM, Blogger Tuca said...

Querida Joyce,

Tenho lido seu blog todo esse tempo em que está no ar. Maravilhoso, como tudo o que você faz. Depois de tantos anos que nos conhecemos, sem quase muito contato, ainda tenho a te dizer: se tivesse de escolher uma palavra para você escolheria "Água". Vai saber? Sua música, sua visão da vida, esta que você mostra no blog e que é o seu caminho, eu ouço e leio e sem muito pensar eu sei: "é necessário, é limpo, é essencial". Água.
Um caráter, uma liberdade - eu penso.

Gostaria de te mandar e-mail, mas numa troca de computador perdi teu endereço. Gostaria muito que você me escrevesse para que eu pudesse recuperar teu endereço. Bom, vamos ver se o plano de escrever para o teu blog dá certo.

Beijos e abraços!!!

Tuca

 
At 3:54 PM, Anonymous Michael said...

Ola Joyce,
procurei um lugar para comprar o seu livro "Fotografei Você na Minha Rolleyflex" mas infelizmente sem sucesso. Moro em Londres e gostaria de perguntar se você não poderia trazer uma cópia para Londres quando vier. Com certeza eu vou ver o seu show no JazzCafe em Novembro...
A gente se ve por aqui ;))
Michael

 
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