sexta-feira, julho 04, 2008

e por falar em Potter...

Já vi muitos críticos literários de respeito desancando os livros da série Harry Potter. O esnobíssimo Harold Bloom, por exemplo, considera que este tipo de livro desestimula a leitura nas crianças, por torná-la fácil demais. Também já vi comentários absurdos sobre a série vindos de grupos religiosos fundamentalistas, principalmente cristãos, que consideram o fato de a história se passar numa comunidade de bruxos um sinal de satanismo. Discordo de todos.

Li os livros e fiquei tão viciada quanto meu neto, que praticamente cresceu junto com os personagens, `a razão de um volume por ano. Tão viciada fiquei que não agüentei esperar pela edição brasileira do último volume, e quando vi a edição inglesa `a venda numa livraria no Japão, comprei correndo e devorei. Leio com igual prazer tanto J.K. Rowling, autora da série, quanto leio Orhan Pamuk, Ian McEwan, Guimarães Rosa, ou meu mui amado Machado de Assis, ou todo e qualquer volume interessante que me caia nas mãos. E tenho a certeza de que a obra de Monteiro Lobato, avidamente lida na infância, contribuiu muitíssimo para que a leitura em minha vida se tornasse um prazer. Por isso não temo fazer aqui um comentário que pode soar como heresia: acho a série Harry Potter o Sítio do Picapau Amarelo do século XXI. E como o século é o XXI, o Sítio é globalizado, claro.

Lá estão todas as considerações éticas, o bem e o mal expostos sem maniqueísmos, com todas as dificuldades e tropeços que a opção pelo bem pode apresentar na vida de qualquer pessoa. As dores do crescimento. Os primeiros amores. As trapalhadas bem-intencionadas dos jovens personagens. Os mentores, dos dois lados. As perdas afetivas. O herói cujo objetivo não é se tornar líder ou celebridade, apenas ser amado e ter uma vida normal. A comunidade de bruxos que tem gente de todas as procedencias e todos os tipos de caráter, do melhor ao pior, passando pelos ingênuos, os cultos, os simples, os mal-intencionados, os políticos interesseiros, os cidadãos comuns, os que são capazes de grandes sacrifícios pelo bem geral, todos lidando com o mistério e a transcendencia no dia-a-dia, como coisa normal.

No departamento "livros de sete volumes, chegando alguns a setecentas páginas", se eu oferecesse os sete da "Recherche du Temps Perdu", de Proust, para meu neto quando ele tinha 10 anos, certamente estaria assustando um provável leitor de futuro _ se bem que minha mãe foi maluca o suficiente para me dar a obra completa de Machado de Assis quando eu tinha 12, que prazerosamente li na ocasião e amo até hoje _ mas isso não vale, pois eu já era leitora voraz desde muito antes, e olha que comecei com histórias em quadrinhos.

(aliás, Proust em quadrinhos até já tem, e eu comprei! Fica aqui a sugestão para que alguma editora esperta faça o mesmo com o nosso Machado)

Depois, Lobato: as mulheres da minha geração foram feministas avant-la-lettre graças `a boneca Emília, irreverente e politicamente incorreta. Somos todas Emílias até hoje. Talvez os garotos da geração atual, daqui a muitos anos, sejam todos um pouco Harry Potter, por que não?

PS- a foto acima foi feita em Bruxelas, capital da Comunidade Européia, que não é uma cidade de bruxas, pelo menos que eu saiba.

2 Comments:

At 5:14 PM, Anonymous Érico San Juan said...

Já existe Machado de Assis em quadrinhos, Joyce! É uma adaptação de O Alienista, dos irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon, da editora Agir. Taí a dica. Bração.

 
At 12:09 PM, Blogger Bloguca said...

Eu não li os livros do Harry Potter, mas adoro todos eles. Meus filhos leram e isso me deixou muito feliz. Dá pra desgostar de quem cria o hábito da leitura em criança?

 

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