sexta-feira, agosto 14, 2009

nas palavras do Ruy


Ruy Castro é um craque absoluto das palavras. Sou fã de tudo o que ele escreve sobre música, cinema e literatura. Nossas opiniões não precisam necessariamente ser as mesmas, mas a dele está sempre tão bem exposta que o leitor fica em dúvida e acaba se rendendo ao texto delicioso, que é o que interessa, antes de mais nada.

(na foto acima, Adelaide, chef e proprietária da Tasquinha da Adelaide, Lisboa. O assunto aqui tem tudo a ver!)

Nesta quarta-feira tive a honra de estar presente na coluna dele na Folha de SP. Docemente constrangida, porém definitivamente orgulhosa, divido com vocês o comentário do Ruy sobre slow food e slow music, onde meu CD é um feliz coadjuvante.


                          AO RITMO DO CORAÇÃO


Em 1986, um sociólogo italiano, Carlo Petrini, liderou um protesto contra a instalação de um McDonald's na Piazza di Spagna, em Roma. Os manifestantes brandiam pratos de penne para demonstrar sua aversão à fast food: os cheeseburgers que as pessoas devoram às pressas, de pé, num balcão, babando ketchup e sem consideração pelo próprio estômago.

O McDonald's venceu, mas daquele ato nasceu um movimento pela slow food _ para conscientizar as pessoas a que valorizassem suas refeições, comendo produtos mais frescos, se possível regionais, e recuperassem a noção de convívio em torno de um prato de comida. Aos poucos, o movimento espalhou-se pela Europa, infiltrou-se no próprio QG do inimigo, os EUA, e até chegou timidamente ao Brasil.

Mas o importante é que o princípio da slow food não precisa limitar-se à comida. A cantora Joyce inspirou-se em Petrini e adaptou esse princípio à música, em seu novo e belo disco, "Slow Music", cheio de clássicos antigos e modernos, que não tocará no rádio*. "(Este é) um álbum feito de silêncios e pausas", diz ela no encarte. "A pausa é um momento importante da música. Sem silêncio, não existe som. Sem o claro-escuro, não se veem todas as nuances da cor."

Muitos fatores contribuíram para o ritmo avassalador tomado pela música popular nas últimas décadas _ um ritmo que não condiz com o batimento cardíaco e que, para ser tolerado, exige o uso de substâncias que acelerem tal batimento. Um deles é a nossa omissão. Deixamo-nos vergar pela tecnologia sonora, pela mídia e por essa exótica categoria  "artística": os DJs.**

Fast food é junk food, como se sabe, e há uma relação óbvia entre junk food e junk music: se as pessoas comessem a música que a mídia lhes serve para ouvir, já estariam mortas há muito tempo.

RUY CASTRO (Folha de SP, 12/08/2009)

*única ressalva: não tocará nas rádios convencionais, mas pelo menos no programa Londrina Jazz Club, já tocou...

** aqui discordo do Ruy em parte: é necessário que se dê um crédito a esses profissionais que tocam nossos discos nas pistas, já que muitos deles foram responsáveis diretos pela vigorosa retomada da música criativa brasileira no exterior, a partir dos anos 90. A maioria dos que conheço é movida por um sincero amor pela música. Quanto a bate-estacas e remix... é outra história. Comigo, não...

...e um PS final: a comida da Adelaide é uma maravilha slow. Saudades!

9 Comments:

At 10:23 AM, Blogger JoFlavio said...

Joyce.

Não só tocou no Londrina Jazz Club. Sábado passado, de manhã, na programação normal da UEL FM, houve um bloco (3 músicas) dedicado ao Vinícius, a começar por Medo de Amar (Slow Music). E no domingo, mesma situação, um bloco em homenagem ao Chico, que começou com Samba do Grande Amor (Slow Music). E nesta semana estão já programadas Sobras da Partilha e Amor, Amor. Como não? Vai tocar no rádio sim (risos). Um dos slogans da UEL FM é "aqui toca a cultura brasileira".
Abs.

 
At 1:24 PM, Anonymous Érika Fares said...

Na 93.7 (Cultura FM) de Belém, no Pará, também!!!!

 
At 1:40 PM, Blogger Marcel said...

Oi Joyce!

As vezes não entendo essa história das rádios que dizem tocar música brasileira. Aqui em São Paulo há a "Nova Brasil FM" e ultimamente acho que,ou eu perdi a noção do que é boa música, ou a rádio perdeu. Tem sido mais fácil ouvir "Ivetes" da vida centenas de vezes no mesmo dia, do que por exemplo um clássico de Chico, juro ter ouvido Construção uma única vez, fora que essa terrível "junk music" nos consome, por mais que fugimos dela, ela se espalha de uma tal maneira que é inevitável estar em um local de acesso comum das pessoas onde não se ouça a tal "junk music". Creio que ao menos nessa rádio, nunca ouvirei nada seu, nem sequer Clareana ou até mesmo Feminina, e isso é desestimulante.
Existem algumas rádios online que tocam música de boa qualidade, vou começar a dar mais atenção para essas, pois é bem provável que eu te ouça por lá.
Quanto ao caso dos DJ's, também concordo em parte, já que sua música explodiu lá fora, por muitas vezes possuir um ritmo dançante, assim como Aldeia de Ogum e tem várias outras, como Bailarina e Suíte Baracumbara. Mas aqui no Brasil por volta de 90% dos DJ's possuem outras ideias sobre o que é boa música, mas é claro mais vale 10% bom do que 90% ruim. =)
Como toco na Fanfarra do Senai da minha cidade, costumo ouvir com frequência essa fala de que a pausa e o silêncio também são música e que deve ser apreciada, e o claro e o escuro também, juntos formam toda a dinâmica musical, porque senão respeitada, está fora do foco, não é?
Adorei a finalização, realmente se me alimentasse de junk music, já tinha ido embora faz tempo! hehe

Nossa, escrevi demais! rs

Bjs!

Marcel.

 
At 2:01 PM, Blogger Rafaela Figueiredo said...

Hummm... que delícia!
Deu até fome. rs

:)

 
At 2:29 PM, Blogger Luiz Antonio said...

Nem li tudo. Batei uma indignação "do bem", mas como alguém ousa dizer "não tocará nas rádios..." Eu sei , nós sabemos o que ele esta dizendo, que generalizou. Mas, por favor...Deixa gereralizações pra nós meros comentaristas apaixonados.
Essa foi RUIM,ô RUY!
Toca nas rádios sim. Toca nas radios criativas brasileira, aquelas que sabem que seu ouvido não é penico. Tem muita radio assim por ai. E que da mesma forma que o publico desconhece esse som, desconhece obviamente as rádios que os tocam.

 
At 4:56 PM, Blogger Bernardo Barroso Neto said...

Concordo com você Joyce. Os djs hoje em dia são importantíssimos pra nossa música, foram eles que tocavam e tocam a nossa música brasileira criativa desde o início dos anos 90 e muitos jovens hoje em dia conhecem o melhor da nossa música graças a eles.
Tem muito oportunista nesse meio, mas também tem muita gente boa.
Enquanto a sua música tocar no rádio é só nessas rádios online mesmo, pelo menos na minha cidade que está contaminada com o pior da nossa música infelizmente não toca.
Ainda bem que existe a internet. rs

 
At 2:23 PM, Blogger pituco said...

joyce,
parabéns pelo projeto slow music.

e no meu entender, música foi feita pra ser ouvida...energia dividida...e de modo genérico mesmo.

anos atrás, tocou em tudo quanto é canto do japão uma música do airto e da flora...batucada, aquela que tem a menina dizendo no breque...rio de janeiro...e a própria flora confessou que foi a primeira vez que faturou legal...rs

e quantos anos de estrada têm o casal?

bom,
espero que um dia se ouça joyce em tudo que é pista de dança, comerciais e veículos de comunicação...rs

sempre achei feminina uma pedida e tanto...rs

abraçsons pacíficos

 
At 10:33 PM, Blogger Paul Brasil (Paul Constantinides) said...

Musica como comida, ha para todos os gostos.
Para exaltar uma, nao eh necessario falar mal da outra.
Mas a sua musica eh maravilhosa na minha opiniao e o Rui Castro um escritor legal de se ler...qto a um bom restaurante italiano...um bom copo de vinho...e tim tim.
abs
paul

 
At 8:13 AM, Blogger Luiz Brasil said...

Além de ser super fã de Joyce, fiquei agora fã de seu bolg e de seus comentários do cotidiano.
Esse comentário do Ruy é muito legal, mas a ressalva da anfitriã é muito justa.
Beijos e muita saúde para Joyce.

 

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