quinta-feira, agosto 26, 2010

novas e antigas parcerias

Esse encontro da foto, aqui em casa,  já tem algum tempo, mas se repetiu recentemente na casa do casal acima - Mário e Mariza Adnet, amigos mui queridos, de longuíssima data. Aqui, assim como no encontro de domingo passado, eles estão com um de meus "sobrinhos" musicais, o pianista e arranjador Philippe Baden Powell - que com Mário fez o excelente 'Afro-Samba-Jazz', baseado nas composições do pai dele, Baden Powell, por supuesto. Eles acabam de voltar de uma turnê nacional sobre este trabalho, e Mário já está no projeto seguinte, lançando um belo disco chamado 'O Samba Vai', do qual participei como parceira em uma música, que gravei cantando junto com ele.

O disco do Mário é uma beleza, talvez o melhor dos autorais feitos por ele - que é também um craque em adaptar para orquestra repertório alheio, como já vimos em suas recriações das obras de Baden, Moacir Santos, Tom Jobim e João Donato. Uma das faixas é a atual recordista de execuções na minha rádio-cabeça: 'Fred Astaire do Samba' ("eu sou que nem Fred Astaire/ sei conduzir a mulher/ não sou padrão de beleza/ mas tenho samba no pé"), parceria dele com o irmão Chico Adnet, que os dois dividem com a voz personalíssima e cheia de verve carioca de Pedrinho Miranda. Pura diversão, dentro de um CD que tem coisas belíssimas e a mão mágica do Mário na orquestração.

(Sempre achei que Chico é o verdadeiro Marcelo Adnet, ou seja, que o jovem humorista consagrado na TV e no teatro na verdade é uma continuação, com maior visibilidade, do jovem arranjador que nos anos 1980 fazia coisas do arco da velha com o Céu da Boca, grupo vocal de que ele fazia parte. Quem ouviu o arranjo delicioso e hilário da 'Canção Pra Inglês Ver', de Lamartine Babo, feito pelo Chico, com direito ao seu solo de trompete de boca, vai entender porque o filho dele saiu assim...)

Philippe, por sua vez, está me tentando com a possibilidade de uma inusitada parceria com o falecido pai dele, de quem pessoalmente nunca cheguei a ser próxima, fiquei apenas admirando de longe, mas cuja música também foi meu alimento durante décadas. Vamos ver. É muita responsabilidade...


Tive há poucos dias uma boa experiência ao tocar no projeto Sete em Ponto, no Teatro Carlos Gomes, com o músico americano, radicado no Rio, Scott Feiner (na foto acima, nosso ensaio aqui em casa). Ele, que é basicamente um jazzista, faz uma interessante mistura musical, que ele chama de 'pandeiro-jazz'. Com seu excelente trio (ao lado do pianista Rafael Vernet e do baixista Alberto Continentino, dois jovens craques), Scott mostrou repertório autoral, de composições próprias - e de jazz moderno, só que tocado com pandeiro, o que tira de cara qualquer semelhança com o chamado 'samba de gringo', longe do simplismo do jazz tocado com levada brasileira, que é o que a maioria dos jazzistas americanos acredita que se deve fazer em seus projetos "brasileiros". 

Perdão, leitores, por tanto adjetivo junto, mas não há jeito. É muito bom conhecer mais e mais gente competente, talentosa e esperta, no melhor sentido da palavra. E melhor ainda ver que a música criativa não está nem de longe parada, apesar de todos os percalços. Ao contrário, resiste gloriosa e se renova sempre. 

Salve a criação!

4 Comments:

At 5:32 PM, Blogger joyce said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 3:52 AM, Blogger Vicky said...

Trabalhei por muitos anos dentro de favelas no Rio e em Niterói. Acompanhava a subida aos morros uma trilha sonora indefinida, com batida funk. Aquilo me deixava em estado de irritacao profunda - nao gosto, deixava até o meu estomago embrulhado. E mesmo sem gostar, chegava ao ponto de saber cantarolar aquelas letras de tanto ouvir. Era só o que tocava nas rádios que aquelas pessoas ouviam. Entao, elas ouviam porque gostam muito ou porque é a única coisa acessível? Eu nunca vi ninguém reclamar quando ouvia uma música mais "sofisticada". E que ordem é essa que fez de Cartola e Noel Rosa, p.e., compositores sofisticados e inacessíveis?

Quando cheguei em Londres eu amei poder encontrar estacoes de rádio que tocavam músicas que eu gostava. Muito programas dedicados a cantores e compositores brasileiros. Uma noite teve um programa especial sobre o Ed Mota que me fez chorar, nem sabia que ele era tao bom. E no exterior tem muito brasileiro bom de quem nunca se ouviu falar no Brasil.

A adoracao pela boa música brasileira está em toda parte no exterior, mas sempre tem uma imagem sofisticada. Será que o que é bom é difícil, e por isso nao dá para divulgar no Brasil? A boa música brasileira tem a imagem de música de elite. Por que? Quantas vezes fui a shows de "gringos" claramente bebendo da fonte brasileira. Lembro de um cd da Bebel Gilberto que, quando foi lancado, todos os ingleses que eu conhecia tinham uma cópia. TODOS. E nao era o único exemplar de música brasileira na casa dessas pessoas.

Por que eu precisei virar imigrante para poder ter acesso ao que eu mais gosto, que é a música do meu próprio país?

 
At 1:24 PM, Blogger joyce said...

Excelente pergunta, Vicky. E eu posso completar: por que preciso sair do meu país várias vezes no ano para que a minha música possa se apresentar decentemente? Você sabia que eu JAMAIS pude viajar até o norte do Brasiil com minha banda completa, mesmo que já tenha viajado meio mundo com ela?

Alguma coisa está fora da ordem, pois o Brasil ainda não conhece o Brasil...

 
At 12:29 AM, Blogger pituco said...

joyce,

que parceria bacanuda...viva a criação.

abraçsons

 

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