terça-feira, dezembro 16, 2008

exigencias


Eu já estava quase me conformando a passar este final de ano escrevendo sobre assuntos áridos como a truculencia da PM no RJ, a crise mundial, a sapatada no Bush _ se bem que este é um assunto que pode ficar engraçado, da série 'seria cômico se não fosse trágico' _ quando fui salva pelo comentário de um leitor. Túlio fala em artistas que fazem "exigencias esdrúxulas", e isso bem na hora em que Madonna está no Brasil. Esse é um assunto que não me quer calar, pois uma das minhas dificuldades em relação ao chamado estrelato é exatamente lidar com esse festival do ego, como já falei aqui várias vezes. Claro que algumas exigencias podem e devem ser feitas, em prol da segurança e do conforto do artista, e para isso existem os produtores que organizam as turnês, garantindo em contrato que não cairemos em nenhuma roubada, que o hotel não será um Caílson qualquer, que seremos pagos direitinho e outras cositas más _ que nós, músicos, de fato não sabemos como lidar com essas questões administrativas. Mas tem um pessoal que exagera.

Muitas vezes quem faz as exigencias não é o artista propriamente dito, mas seus representantes. Já vi isso acontecer diversas vezes. De qualquer forma, difícil imaginar que a pessoa seja desligada a ponto de não saber o que se está aprontando em seu nome. Eu mesma já demiti uma pessoa que trabalhava comigo porque as queixas se acumulavam em relação a seu (mau) trato com os demais. E era alguém de quem eu gostava bastante, mas impossível de trabalhar junto. Tudo bem também que o produtor não pode ser um eterno 'bonzinho', ou será tido por otário, e no final é o artista quem paga o pato. Sua função é sempre de bad cop, indo na frente e cuidando dos detalhes sórdidos, para que quem vai estar no palco possa se preocupar exclusivamente com o palco propriamente dito. Aliás, produção é um trabalho ingrato, quando aparece é sempre pelos problemas. Quando não aparece é porque está funcionando, o trem roda nos trilhos suavemente, e isso é que é o certo. Coitado do produtor.

Tenho amigos, que adoro no dia-a-dia, famosos pela quantidade de exigencias esdrúxulas, o que faz o contratante pensar duas, três, dez vezes quando precisa fazer algum trabalho com eles. Alguns têm de ter uma garrafa de uísque 12 anos no camarim, carro `a disposição 24 horas, 30 toalhas brancas de determinada marca (quantos banhos a pessoa irá tomar antes e depois do show?), teleprompter alugado para quem não consegue se lembrar das próprias letras, banquinho com suporte para o pé na centimetragem exata, mapa do avião, comidas especiais, `as vezes tudo isso junto. Sei de um caso onde a pessoa cancelou toda uma turnê já iniciada, porque não gostou do colchão do primeiro hotel (depois dessa, sua produtora mudou de ramo). Nenhuma das pessoas acima encontra-se exatamente no patamar Madonna dentro do show-business: são, sem dúvida, artistas musicalmente especiais, que apenas seguem a máxima de Elis, quando mandou redecorar o camarim do Canecão, que já tinha sido todo preparado para ela. "Mas está ótimo", disse um amigo, e ela: "eu sei, mas se eu não reclamar, ninguém me respeita".

Por isso fico feliz quando tenho de trabalhar com alguém que une o útil ao agradável e pede `a produção apenas o realmente necessário. E vamos `a música, que é a diversão do negócio, muito mais do que o negócio da diversão.

8 Comments:

At 10:27 AM, Blogger JoFlavio said...

Fui responsável direto pela vinda de John Pizzarelli à Londrina este ano para o lançamento de um luxuoso condomínio residencial na cidade. O dono da agência que promoveu a festa, meu amigo, tinha o sonho de ver Pizzarelli como atração internacional no evento, que estava com viagem programada para o Brasil, com shows no Rio, São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte. A atração nacional já contratada: Gal Costa. E tudo deu certo, via Pedro Paulo (Mistura Fina). Gal faria a primeira parte, Pizzarelli, a segunda. No final, os dois juntos para um “gran finale”. No dia do show, estava com Pizzarelli no hotel, em longos papos, principalmente sobre jazz, quando Gal apareceu. Fiz as devidas apresentações. E Gal começou com algumas exigências. Não mais iria abrir o show. Cantaria depois de Pizzarelli. Este, calmamente, respondeu: “no problem”. Gal disse que era apenas uma cantora, que essa história de jazz não era com ela. E que precisava de ensaio para o número final. E que tinha que ser no tom que ela costumava cantar. Pizzarelli, de novo, “no problem”. Tudo acertado, cada um foi pro seu canto. Dias depois fiquei sabendo de outras exigências, as tais esdrúxulas, da cantora baiana. Para vir à Londrina, exigiu ficar uma noite em São Paulo, especificamente no Hotel Renaissance. Para almoçar na melhor churrascaria da cidade, já em Londrina, exigiu um carro de fabricação alemã, o que causou embaraços para os organizadores do show. Pizzarelli, ao contrário, deixou a melhor das impressões. Não só pela simpatia, mas por uma surpreendente humildade. A propósito, depois do show do Pizzarelli, Gal pegou uma platéia menor – a maioria foi embora. E ele ainda teve que ficar esperando Gal terminar para o tal “gran finale” juntos. Ficou, e numa boa. No fim, era visível o mau humor da cantora.

 
At 11:14 PM, Blogger Bernardo Barroso Neto said...

Joyce muito interessante essa sua colocação, veio num ótimo momento que várias "estrelas" fazem mil exigências.
Parabéns!
Não conhecia essa da Elis, muito boa. rs

 
At 2:47 PM, Anonymous Charlie38 said...

Eu, como mero ouvinte, só tenho uma exigencia-musica boa. É uma pena que as tvs e radios nao me atendem..

 
At 9:41 AM, Anonymous Sergio Santos said...

Joyce.
Se uma pequena parte desses exigentes artistas tivessem discernimento suficiente para direcionar uma pequena parte de suas exigências para a qualidade da música que fazem, ao invés de dirigí-las aos camarins, certamente teríamos um nível bem mais elevado em grande parte da música que se ouve no planeta. A pena é que a maior parte de quem ouve tem um baixíssimo nível de exigência, e não exige uma música ao nível do que os egos inflados exigem nos camarins.
Uma boa forma de solucionar esse comportamento seria tornar obrigatório o uso de todos os ítens exigidos. Quero ver neguinho tomar 30 banhos seguidos, andar 24 horas de carro por dia e beber 5 garrafas de uísque 12 anos antes de subir ao palco. Outra solução possível seria uma turnê por ano no Vale do Jequitinhonha. Duas diárias em um 5 estrelas de Medina e outras duas em Itaobim colocariam qualquer exigência dentro de um patamar suportável.
Beijos. Miroca e Thiagão também mandam.
Sérgio

 
At 10:40 AM, Blogger Iran's blog said...

Muito bom post Joyce, fiquei apenas curioso para saber se vc faz ou ja fez alguma exigencia, nao exatamente esdruxula porque acho que nao combina com vc, mas digamos uma exigencia extravagante!

Um feliz natal e otimo ano novo para vc!!!

 
At 2:41 PM, Blogger pituco said...

joyce,
das famosas listas de exigências,tem a do roberto carlos...de não sei quantas lâmpadas de 60volts,no camarim...

há ainda o buffet vegetariano dos rolling stones...os massagistas da simone...e por aí vai

essa estória com a elis foi na estréia do 'saudade do brasil'?...contam as biografias que o lance da redecoração,na verdade foi pra re-energizar o local,pois a maria bethãnia acabava de se apresentar lá...rs

e todo artista é isso mesmo...diversão pública

abraçsonoros e amplificados
namaste

 
At 3:06 AM, Anonymous Fernando Marques said...

Belo Blog, Joyce. Parabéns!

O "João Elton", que tocará no Brasil esse mês, exigiu rosas com 11 cm de talo e sem folhas em seu camarim, além, é claro, de dezenas de outras besteiras. Não sei o qe ele pretende fazer com as rosas, mas tem cada uma, né?

Aproveitando, fico contente que o cat do Tutty tenha trazido boas notícias. Outro dia eu fiquei bastante emocionado ouvindo a gravação dele no CD da Mônica Salmaso (Nem 1 aí - faixa "Bate Canela"). Um primor de bateria.

E para você... um mega beijo e um puta 2009.

Abração.

 
At 1:10 PM, Anonymous Angela said...

Recentemente, quando da vinda do Elton Jones,pensei sobre esse tema, por conta das rosas brancas sem espinhos.
Como você diz, no final, com a ressalva da diversão, a música também é um negócio, e muito mais negócio pra certas pessoas. Fico imaginando se alguém se ferir com um espinho da rosa que tipo de processo pode rolar para a produção do cantor.. e se as toalhas brancas, além de garantirem a limpeza, não são necessárias para sempre enxugarem suor, para o cantor-estrela não aparecer numa foto com a cara brilhando (quantos quilos de maquiagem deve usar, por exemplo , o Bob Dylan?) . Alguém próximo que trabalha com eventos e tem que lidar com isso, disse que o mais legal é o Elimar santos: quer duas lazanhas congeladas Sadia e um forno de microondas! :-)

 

Postar um comentário

<< Home