quarta-feira, outubro 07, 2009

voar é preciso?

Somos animais terrestres. Saímos da água, nos criamos na terra, e agora inventamos de voar. Vinicius dizia que uma geringonça mais pesada que o ar e inventada por um brasileiro não podia dar certo. Mas deu. E agora somos também animais voadores, embora carregados pelas máquinas.

Eu detestaria ter de entrar num navio a cada vez que tivesse que sair do Brasil. Digo isso apesar de ser neta de marinheiro _ meu avô, que não cheguei a conhecer, era comandante de navio mercante, e morreu afundado por um submarino italiano, em 1942. Várias vezes, em suas longas viagens, ele levava a família junto, minha mãe ainda criança e seus irmãos também pequenos. Ninguém reclamava de passar semanas em alto-mar, com direito a uma ou outra tempestade de vez em quando. Naquele tempo era assim que se viajava nas grandes distancias. Avião era um luxo para poucos.

Ainda assim, eu dizia, apesar de ser neta de marinheiro, jamais viajei de navio _ cruzeiros, então, nem pensar. Imagino que deva ser um tédio, e não gosto de estar em lugares de onde eu não possa sair quando quiser. No entanto, frequentemente sou obrigada a passar horas sem fim dentro da cabine de um avião. Voar está ficando cada vez mais difícil. E viagens como essa de agora, que nos levou e trouxe de e para o Japão, são as piores.

Deve haver alguma questão ligada às mudanças climáticas, mas nunca vi tanta turbulencia acontecendo no ar. Não faz muito tempo, quando a aeronave atingia a chamada "altitude de cruzeiro", isso significava que os cintos podiam ser afrouxados, o serviço de bordo iria começar e o voo seguiria tranquilo. Não tem sido mais assim. Pode ser que tenhamos pegado um dia atípico, mas nossa volta do Japão foi tremendamente estressante, com turbulencia durante as primeiras 6 horas do trecho Tóquio/Atlanta, e mais turbulencia durante TODO _ eu disse TODO _ o trecho Atlanta/Rio (cerca de 10 horas). O serviço de bordo chegou a ser interrompido, em dado momento. Felizmente todos estavam calmos, mas eu não podia esquecer o que vira no voo de ida: os comissários fazendo um "gatilho" com pedaços de isopor na porta de saída, por onde estava passando ar. Em outros tempos, de menor crise financeira, nenhuma companhia aérea de respeito permitiria que um avião seu saísse do solo com um calço de isopor na porta. Mas foi o que aconteceu, e era a americana Delta Airlines.

Tenho amigos músicos que por muito menos desistiram das longas turnês e restringiram ao máximo esse tipo de viagem. Também conheço gente muito jovem que desenvolveu panico de aviões, e não voa nem morta. Acho que nós aqui em casa não poderemos nos dar esse luxo, por enquanto. Quem faz música criativa no Brasil está condenado a virar caixeiro-viajante da MPB _ "embaixador" seria mais chique, mas o Itamarati mudou muito: agora mesmo, a embaixada brasileira em Tóquio está promovendo um seminário sobre funk carioca, para, quem sabe, tentar reverter a primazia do samba e da bossa-nova no país. Portanto, caixeiros-viajantes é o que somos. 

O que resta é tentar programar as viagens, de forma a reduzir um pouco os deslocamentos e fazê-los menos traumáticos. É o que vamos tentar em 2010.

11 Comments:

At 4:40 PM, Blogger Luiz Antonio said...

Tão péssima quanto essa turbulência é a noticia do funk que mostra a verdadeira turbulência , melhor dizendo tsunami, que está a cultura do Brasil. Hj, vindo pro trabalho, filosofando no carro, pensei nisso: os tempos estão tão diferentes, tudo mudou tão rápido,a crise financeira, politico, social e ética a que somos submetidos há décadas se consolidou de tal forma que fez brotar uma geração. Geração sem acesso a cultura, com visão´distorcida dos valores éticos e morais, desprovida de família, entre outras coisas. No entanto, com muuuuuuuuuuito acesso a informação _sem ter capacidade de filtrar essa informação_ justamente pelas faltas de referenciais que eu elenquei acima. Resultado: ela brotou e construiu a sua identidade, que é fruto direto dessa "deformação". Ver o funk no Japão, infelizmente, é aceitar e sobretudo assumir o resultado disso. Surgiu uma nova cultura, uma nova história que está longe cada vez mais dos referenciais universais e históricos que formaram o mundo até então. È a nova cara do Brasil (pim..pim..)
Como já dizia minha saudosa vózinha, na sua sábia e divina ignorãncia(?); "quem com porcos vive farelo come" ao que eu complemento: "e um dia, porco também vira" A geração até os anos 60 ainda se safou, mas depois disso, fora o esforço de nossos pais e nosso próprio, só recebeu farelo...agora não adianta reclamar...
ps: putz, que cagaço! agora que eu tava deixando de perder o medo de avi]ao (tive até ai no Rio)...

 
At 6:49 PM, Blogger Érico Cordeiro said...

Cara Joyce,
Seja bem-vinda ao lar e sua chegada coincide com um momento alvissareiro da nossa amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, capital mundial do esporte em 2016.
Há muito, muito, muito por fazer, decerto.
Mas é uma oportunidade única para resgatarmos a nossa auto-estima, um marco simbólico para um porvir bem melhor para o nosso país.
E a trilha sonora, sem dúvida, será feita com muito samba e bossa nova.
E é essa a sina do artista, ir aonde o povo está, mesmo que esse povo tenha olhos puxados e more em Tóquio, não é verdade?
Parabéns pelo sucesso na Terra do Sol Nascente e nesse exato instante ouço "Folhas secas", dos inesquecíveis Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito, na sua voz.
Valeu!!!

 
At 12:04 AM, Blogger pituco said...

joyce,
atravessar o planeta já é um esforço enorme...ainda mais,com turbulência...que a recuperação dos con-fusos e do susto seja lenta e gradual...como a tua piramidal slow music.

por aqui, um tufão de n.18 tá fazendo um estrago danado...minha casa parece querer voar...rs

paz e muita música sempre prati e os teus
*eternamente grato.
abraçsonoros

 
At 1:48 PM, Blogger Paul Brasil (Paul Constantinides) said...

menina
q coisa estas turbulencias aehreas, nao?
existe precariedade em muitas coisas e eh importante serem notadas e anotadas, para uma possivel melhora...
sobre este lance de aviao eu q vivo fora do Brasil sei o q significa..
agora, este lance do funk sendo divulgado por uma embaixada, pode ateh ter um toque antropolohgico, e nem sei bem...mas a primeira lida, concordo contigo de pareza um absurdo....
sobre este lance de sair e cantar aonde esta o seu publico...conhezo bastante gente aqui q decidiu a questao mudando para perto do publico...
eh um lance muito estranho, nao?

anyways..fiz uma entrevista com o Carlos Lyra, recentemente , e ele lamenta que nao exista Teletransporte....risos
abs
paul

 
At 3:32 AM, Anonymous Túlio said...

tem muito tempo que eu não posto nada no blog, a vida as vezes vira de cabeça pra baixo e leva um tempo pra desvirar.
eu lia as coisas, queria dar minha opinião, mas não tinha jeito, vou tentar resumir tudo num post só, mesmo fugindo do assunto principal.
em relação aos direitos do autor (lá atrás em junho)
sempre que aparece alguém defendendo os direitos do autor versus downloads me da sempre a sensação de alguém defendendo os direitos do patrão quando na verdade ganha muito pouco pelo trabalho (me lembra um grupo de artistas que fez o mesmo, sendo que este grupo estava ligado a uma gravadora, e na verdade estava defendendo os direitos da mesma e não o deles), nós sabemos que em geral no brasil pelo menos, o artista ganha muito pouco pela vendagem de discos, a maior parte é da gravadora.
e as gravadoras não são nada santas, basta lembrar de coisas como jabá, disco de prateleira, discos mal gravados, mal lançados, para dinamitar a carreira de certos artistas, em detrimento da de outros na mesma companhia, etc.
quando o primeiro programa de distribuição de música pela internet foi criado, ele foi oferecido a estas mesmas companhias que o recusaram, o que levou ao download ilegal.
é uma pena que nestes tempos ao invés de se aproveitar esta chance e descobrir uma maneira de todos saírem ganhando com os novos meios de distribuição de música haja esta guerra.
só pra constar, quando a indústria do disco começou no final do século 19 ela foi acusada de pirataria pelas editoras de partituras que dominavam o mercado da música.
eu de minha parte sou do tempo em que música era e pra mim ainda é, além do que está gravado, a capa do disco, o encarte, as fotos, textos, etc, etc, etc.
amigos reais e virtuais
de minha parte, você é uma das pessoas que eu gostaria de sentar numa mesa de bar e ficar conversando sobre vários assuntos, começando com música e indo parar sei lá onde. como não dá a gente brinca que é intimo aqui no blog.
em relação a foto com o edu em portugal, fica um pergunta:
foi neste show que os mutantes barbarizaram o som do edu por vingança por ele ter falado mal do rock em uma entrevista?
quanto ao post atual:
funk em tóquio patrocinado pela embaixada, que medo, logo no meu sonho de consumo, que é ir comprar cds de música brasileira no japão.
p.s. o meu slow music finalmente chegou, estou aqui curtindo o som enquanto escrevo.
beijos

 
At 3:03 PM, Blogger joyce said...

Caríssimo Tulio, só pra te esclarecer sobre os direitos de autor, tão desmoralizados e incompreendidos: isso não tem nada a ver com gravadoras, patrões, etc. Existem dois tipos de direitos: os fonomecanicos (sobre a venda de CDs) e os direitos de execução (quando a música é executada). Nos dois casos, o COMPOSITOR(a) tem de ser remunerado(a) por uma ínfima percentagem, que é ínfima, mas é dele ou dela. O disco pode ser de gravadora ou independente, tanto faz, essa paga é prevista na lei. Essa remuneração é o salário de quem sentou e quebrou a cabeça para escrever aquela canção, e que muitas vezes não é nem quem canta no disco. Um autor como Paulo César Pinheiro, por exemplo, que não canta, não grava nem faz show, vai viver exatamente de que?

Ao contrário do que o pessoal pensa, quem levaria vantagem no caso de não se pagar mais direitos autorais seriam exatamente as gravadoras e as rádios e TVs _ sem falar em gigantes da comunicação como Google, Microsoft, etc. Esse pessoal adoraria não ter de pagar mais aos autores, e por isso existe essa campanha tão acirrada contra o pagamento de nossos direitos. Quem ganha com isso? Pense e veja.

 
At 8:19 AM, Blogger Bernardo Barroso Neto said...

Eu ainda não tive problemas em aviões, mas ainda não fui tão longe igual ao Japão. rs
Mas falando sério ver o funk ser levado ao Japão pela embaixada brasileira é o fim da picada. Já existe até um cd de Bossa Nova em ritmo de funk para gringos.
Como Tom Jobim dizia: O Brasil foi feito de cabeça pra baixo.
Parabéns pelo sucesso no Japão!
Beijos

 
At 8:24 AM, Anonymous Túlio said...

querida joyce
obrigado pelos esclarecimentos, a gente que está do lado de cá nem sabe direito toda a história.
só pra esclarecer, eu não sou contra os direitos de cada um ganhar o que lhe é de direito, é que muitas vezes me parece que o pessoal está defendendo o privilégio das multis (vamos deixar tudo como está) e não o deles mesmos (vamos aumentar nossa porcentagem, pois merecemos ser mais bem remunerados), mas isto já é parte da desinformação colocada nas nossas cabeças.
beijos

 
At 3:15 PM, Blogger Dagmar Almeida said...

Querida Joyce,

Obrigada pelo seu blog de 7 de outubro que confirmou, para meu grande alivio, que voce chegou num pedaco so no Rio depois de 33 horas no ar, de volta de Toquio. Parabens pelo exito imenso e merecido na sua 2a casa (Blue Note)

Aproveite as acacias rosa, mungubas e todos aqueles passaros que vem pousar na sua janela.

Quando o destino do voo AF447 se tornou obvio ate para nos, eternos otimistas tipo "Deus eh brasileiro. Vai dar tudo certo no fim", a primeira pessoa em que pensei foi voce, EMBAIXADORA par excellence da GENUINA musica brasileira no mundo inteiro.

Voce diz que vai "programar as viagens no ano que vem". Tudo bem. Mas eu preferiria que voce nao entrasse mais em aviao nenhum. A sua musica divina faria a propria publicidade sem voce ter que se cansar, viajar para cima e para baixo e correr risco de turbulacoes e acidentes aereos.

Voce eh muito importante para mim (desculpe a familiaridade que deve lhe alarmar um pouco) mas eh verdade desde aquela semana (a ultima) de outubro de 1967 em que lhe vi na televisao valentemente cantando duas musicas no Maracanazinho. O 2o FIC foi inesquecivel porque nao somente voce mas tambem o Milton e um organista ingles chamado Georgie Fame (chegou ao 40 lugar no FIC com uma musica horrorosa que nao era digna do seu talento)entraram na minha vida e ficaram ate hoje.

Nao vejo a hora do meu irmao mandar pelo correio o seu SLOW MUSIC, que esta em gestacao ha mais de dez anos, segundo seu blog.
A chegada do seu CD aqui vai ser ainda mais magica porque ele vai fazer uma viagem muito longa desde a Tijuca ate o leste de Londres, onde vivo com os meus dois filhos ingleses. A proposito, a galera londrina fica verde de inveja quando eu lhes digo que nasci na mesma rua do Tom (Conde de Bonfim): eu nasci no principio da rua e ele no finalzinho.Sempre faco peregrinacao ate o ponto na Conde de Bonfim onde a casa do Tom estava antes de ser demolida(um edificio grande e muito feio tomou o seu lugar).

Mudando de assunto, a promocao OFICIAL da tal da musica 'funk' no exterior eh deprimente e me deixa sem palavras morta de vergonha e revolta tambem. O que eh se passa na cabeca dos orgaos oficiais que deveriam proteger a imagem do Brasil no mundo ao inves de aniquila-la!!!

Cuide-se bem, querida Joyce. Obrigada pela musica e as cancoes todas (TANTAS!) nos ultimos 42 anos - desde o 2o. FIC em 67.

Obrigada pelo blog tambem. A sua facilidade com palavras eh impressionante. Voce nasceu com esta facilidade ou foi o seu treinamento como jornalista?

xxx
Dagmar Almeida

 
At 8:53 PM, Blogger j. de andrade lemos said...

querida joyce, todo o mundo vulgariza os 'serviços' do terceiro mundo. mas o brasil tem o melhor serviço de manutençao de aeronave do mundo. a 'vem'[varig engenharia e manutençao] da antiga fundação ruben berta , atualmente ligada a uma companhia aérea européia, nunca permitiu que alguma aeronave decolasse sem condiçoes... por mais ínfimo que fosse o problema. todo mundo sabe os danos enormes que falhas como eessas podem causar.
mas a vida é assim. pra quem entende, todos os dias, ainda temos que confiar em quem faz nosso pão.
abç

 
At 10:35 AM, Blogger rogerio santos said...

Acho avião uma geringonça muito "não-natural".
Mas tenho que reconhecer que é um objeto imprescindível para as velocidades estabelecidas nos dias atuais.
O problema é que; de música (funk carioca no Japão?) à transporte aéreo; tudo é imaginado e embalado para consumo, sob o ponto de vista mercadológico. Primeiro o dinheiro, depois a essência das coisas.

Avião ainda é o meio mais seguro de viajar, mas não dá para subir em um, sem pensar no risco que se corre.

Sobre o blog; não só as postagens, mas os comentários, são impagáveis.

Beijos
Rogerio

 

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