domingo, abril 04, 2010

jards rides again

Assistimos ao documentário de Marco Abujamra e João Pimentel sobre nosso queridíssimo amigo Jards Macalé (na foto acima, Macau está na contracapa de um de seus discos mais conhecidos, o de 1972, ao lado de Lanny Gordin e Tutty Moreno. Isso é que foi power trio...) Ficamos felizes em ver nosso amigo revisitado e reconhecido, com a importância que sempre teve. Eu, pessoalmente, gostei de rever a mãe dele, d. Lígia, linda e cheia de saúde apesar de já idosa, ela que era uma querida com todos os amigos e amigas que passavam pelo apartamento da família Anet na rua Visconde de Pirajá, em cima da papelaria Reis, no finalzinho de Ipanema. 

(Macalé também frequentava o apartamento de minha família, no Posto Seis, e chamava minha mãe de 'Zemir, a Pérola de Madagascar' - um bom nome para uma possível continuação de 'Sandokan, o Tigre da Malásia'... Nós nos identificávamos também nas nossas origens, duas famílias de classe média-bem-média na Zona Sul do Rio. Uma das melhores amigas de minha mãe era justamente uma tia dele.)

Tutty se reviu numa cena de super-8 em Londres, do arquivo pessoal de Macalé, anos 1970, ao lado de outros amigos. Revimos Giselda Santos, também amiga querida, na época companheira do Macau. Vimos e revimos muitas coisas que nos trouxeram lembranças de todo tipo. 

Ficamos incomodados com a fala de Gilberto Gil sobre "os que cuidaram da carreira" e os que "não cuidaram". Arnaldo Bloch já disse tudo sobre esta fala em seu blog, e eu não vou chover no molhado. "Cuidar da carreira" é uma ideia subjetiva. Alguns de nós tivemos lá nossos embates com o sistema e fomos (ou não) punidos por isso. Outros fizeram as concessões que Gil diz serem necessárias a partir da própria vida, do encontro com o outro. Eu quero ter o encontro com o outro sempre levando em conta o que na filosofia se chama "the otherness of others", ou a alteridade do outro (em inglês fica melhor). Ou seja, quero respeitar cada um e cada qual com sua verdade, sua crença e sua arte, até para que as minhas sejam respeitadas também. Macau carregou e carrega nas costas a cruz do maldito, que ele certamente não aguenta mais. Se já é hora de anistiar Simonal, como bem disse Mário Prata, eu também diria que já passou da hora de aliviar Jards Macalé desse peso de décadas. E simplesmente apreciar o artista absolutamente original que ele é.

Sempre me lembro de uma história engraçada, contada por um conhecido músico que tinha feito parte de um grupo nos anos 50 chamado 'Os Milionários do Ritmo'. Ele dizia, referindo-se ao líder do conjunto (não sei se justa ou injustamente): "ele ficou milionário, nós ficamos com o ritmo..."

Malditos ou benditos, o fato é que milionários não ficamos. Estamos todos "fazendo força pra viver honestamente", como diz o belo samba mangueirense. Cuidando da carreira, cuidando da vida. 

12 Comments:

At 8:58 PM, Blogger Paul Brasil (Paul Constantinides) said...

joyce
este lance de maldito, na minha época de pós-adolescencia tinha certa aura de admiração para mim e meus amigos...meus heróis eram todos ^malditos^...Macalé, Mautner, etc...

minha filha nos EUA curte os alternativos, q podem ter até esta aura, meio underground, meio fora dos holofotes da mídia...mas há um mercado forte e intenso pra esta produção , pelo menos na área do rock.

hoje vejo tudo tão sem estes rótulos...prefiro ver sobre outra ótica, e assim tudo q eu curto é ótimo, maravihoso, superstar.

abs
bela foto tirada do bau dos anos 70.

paul

 
At 11:04 PM, Blogger pituco said...

joyce,

tô titubeando aqui ou pra escrever um simples comentário...ou um tratado estórico-músico-pessoal sobre o sr.jards macalé...de quem sou (e quem não é?) admirador...

opto,contudo,pela reticência...uma vez que teu post já esclarece parte dessa imagem 'difundida' sobre ser 'maldito' ou 'vendido' dentro de um sistema...

sempre lembro que igor strawinsky foi simpatizante do nazismo e nem por isso sua obra musical é diminuta por causa dessa opção política...o homem e sua obra...existe de fato uma congruência?

abraçsons pacíficos

 
At 10:08 AM, Blogger joyce said...

Paul e Pituco: escolhas, todos fazemos. Pra quem, como eu, conhece Macalé desde o final dos anos 60 e sabe os caminhos percorridos - aluno de Guerra Peixe, parceiro de Vinicius, músico acompanhante de Bethania e outros baianos (a quem, aliás, fui apresentada por ele) - dá pra entender a trajetória que o levou a essa suposta 'maldição'. E é uma trajetória musicalmente muito mais rica do que a de outros chamados 'malditos', devo dizer. Por isso mesmo Dori Caymmi, que não alivia a barra de ninguém à-toa, está lá no documentário falando do amigo...

Diga pra sua filha (Paul) que tenho alguns fãs na cena indie rock americana, como o pessoal do Superchunk, por exemplo, de quem até me tornei 'amiga' de internet... Como se diz aqui no Brasil um gambá cheira outro - e os indies pressentiram, ouvindo a minha música, que sou indie também...

 
At 12:58 PM, Blogger Paul Brasil (Paul Constantinides) said...

pode deixar Joyce, vou falar pra ela sim...um certo tempo atrás peguei o Ipod da minha filha pra aprender o q ela estava curtindo e me surprendi pelo astral anos 60/70 q rola no som destes grupos/cantoras "indies" por lá, um astral tipo Joan Baez, pop music dos anos 60...
sua musica encaicha perfeitamente neste estilo, pelo astral, pela vibe como dizem, sei lá por que mais..risos...
agora as fotos suas estampadas no ^Filgueiras^ tem tudo a ver (pelo menos visualmente) e a sugerir com esta conexão da sua geração com a geração atual.

abs
paul

 
At 8:03 PM, Anonymous Sergio Santos said...

Joyce, a frase que diz tudo é: "simplesmente apreciar o artista absolutamente original que ele (Macalé) é." Ainda vou viver o bastante para ver o conceito dessa frase orientar o mundo que consome e divulga música. Esse simples conceito eliminaria todos os rótulos de malditos, benditos e as tais concessões "necessárias pra se cuidar da carreira". Seria só o artista e sua obra, em interação direta e sem atravessadores com quem aprecie o que ele tem de seu a mostrar. Utópico, né? Mas já pensou, que paraíso?
Quanto a Macalé, nunca deixou de fazer o que tinha que fazer, da forma que sabe fazer. É um artista necessário, vencedor sem concessões desnecessárias.

 
At 11:29 PM, Blogger Luiz Antonio said...

somos todos malditos aqui. Uma vez que a turma aqui do blog acredita que as coisas podem ser melhores tanto na sua area de atuaçao qto na vida que levamos e desejamos ver melhorar pros nossos filhos. Esse inconformismo mesmo amadurecido pela idade nos leva e nos eleva. Somos minas que brotam algo maior que a mesmice reinante. Epa! Olha o ego! To no jobim desde as 21hs. Ilha alagada e arrastao na vermelha e na amarela! Rio como eu gosto de vc! Dizem que so saio daqui amanha cedo!

 
At 8:27 AM, Anonymous Túlio said...

pois é este seu post me fez lembrar de duas coisa.
primeiro de um outro maldito que foi muito prejudicado pelo sistema e que eu acho genial.
sergio sampaio, gravou pouquíssimo e não teve seu talento reconhecido, muito por seus embates com o sistema, com a imprensa e também pelo fato de ter nascido em cachoeiro do itapemirim (lá não há sequer uma rua com o nome dele, tudo gira em torno do "rei").
depois de muitos cantores e principalmente cantoras que nos anos 80 e 90 viveram de concessões e agora, estão penando pra fazer e caminho de volta e não sei se estão conseguindo. num certo sentido, agora são eles que estão sendo punidos.

 
At 2:00 PM, Blogger Luiz Antonio said...

tive que dormir no estacionamento do aeroporto, sai de lá quando, pelo radio do carro, onde eu dormi, anunciou que tava liberado o acesso a Ilha (5 da madrugada), em 20 minutos realmnete atingi meu objetivo _Niteroi_ onde tinha meu compromisso_ porém na saida da ponte fiquei das 5:30 até as 10, preso no pedágio..cheguei na casa de meus parentes onde estou as 11 horas . meu compromisso foi cancelado, so me resta esperar pra voltar pra POA...não sei que dia..to aqui pensando nisso tudo...pensando em mim aqui e no homem que fez muitas concessões ao ter, ao poder, ao tudo a qualquer preço e a natureza _aqui no Rio e em NiccitY_ tá cobrando o preço de ter sido tão negligênciada, de ter sido ela sim, tão obrigada a ceder sem o mínimo de consideração sem direito ao respeito peals coisas de DEUS.

 
At 8:51 PM, Blogger Bernardo Barroso Neto said...

Eu nunca entendi essa história dos malditos da música brasileira, lendo seu post e alguns comentários aqui eu percebi porque gênios como o Jards Macalé não tem espaço na mídia.
O Túlio lembrou muito bem do Sergio Sampaio, que é capixaba como eu, outro músico sensacional.
Mais um belissimo post, parabéns!
Beijos

 
At 1:36 PM, Blogger Victor said...

Bendito Macalé!!!!

O Peso de Sua Obra e de sua Personalidade já o fazem ser um artista que cuidou muito bem de sua ideologia, de sua criatividade...
Quando Macalé tocou no Transa, de 1972, por exemplo, ele foi a alma do disco, e nem teve seu nome escrito no encarte... assim como outros músicos tb... Esse estigma de "maldição" é um preconceito com o conceito de ser diferente, com a essência verdadeira do artista...
Macalé jamais, eu acredito, precisou ser limitado ao mercado de discos, que padronizaria suas músicas, assim como o querido Itamar Assumpção, os meus amigos pessoais Luis Capucho e Mathilda Kovák, como tambem o Fela Kuti, entre muitos outros artistas injustiçados pelo mercado... isso, para mim, significa que esses estereótipos ao invés de tirar o mérito... Amplifica o grito!

Bjos Joyce,

Valentim

 
At 7:52 PM, Anonymous Baptistão said...

Macalé é gênio. E, como já foi dito, esse maldito rótulo de maldito também prejudicou muito outro gênio, Sérgio Sampaio, que morreu jovem e esquecido.

 
At 5:31 PM, Anonymous Anônimo said...

Esse é meu disco de cabeceira desde que o descubri has mais ou menos uns 15 anos. Un disco em formato de trio a altura dos melhores, Cream, Jimi Hendrix, etc.
Lastima o Lanny Gordin se ter perdido tanto tempo para a musica.
Ainda confio em que possa haber uma continuaçao ou 2ª parte de esse disco maravilhoso
Tambem sou fá do Macalé, mais tambem sou fá do Tutty (tenho seu disco sólo), do Quarteto Livre, de toda a boa musica, e claro, de voçe Joyce e tenho quase todos os seus discos, mais é questao de tempo para telos todos.
A proposito, já tem datas e cidades para a sua gira europeia. Algum show na Espanha ou Portugal.
Saudos desde a Galiza.

 

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