sábado, fevereiro 12, 2011

a fala

Eis o auto-retrato do maravilhoso Noel Rosa, um dos meus ícones musicais da vida inteira. Ele está aqui neste post por ser o autor de uma música que adoramos, o 'Gago Apaixonado'. Gostamos dela porque é genial, muito embora ali a gagueira apareça de maneira caricatural, usada para combinar com o suingue natural deste samba, e por isso mesmo, longe da gagueira de verdade, que conhecemos muito bem.

Sou casada com um gago há mais de 30 anos. Por isso me comovi tanto com o filme 'O Discurso do Rei', com Colin Firth fazendo, com a maior dignidade (e candidatíssimo ao Oscar de melhor ator), o intrigante personagem do rei George VI, pai da atual Rainha Elizabeth da Inglaterra. Ele que teve de assumir o trono de maneira inesperada, depois que seu irmão mais velho abdicou para casar com uma gay divorcée americana, e viveu alegremente como membro do jet set pelo resto da vida, já então como Duque de Windsor, livre do fardo da realeza.

O irmão mais novo, gago e tímido, afinal de contas, era muito mais corajoso e preparado do que o irmão playboy para lidar com o que viria a seguir: a Segunda Guerra Mundial, a ameaça crescente do nazismo e nada além de 'sangue, suor e lágrimas' para oferecer aos súditos, como disse Churchill. Mas para isso precisava vencer o inimigo interno da gagueira - que ele bravamente encarou. No filme ainda me comoveu especialmente a forma como é mostrado o amor da então rainha Elizabeth (mãe da Elizabeth atual) por aquele homem bom e digno, que ela sabe ser capaz de enfrentar qualquer desafio (embora a lenda diga, erradamente, que gagueira é sinônimo de fraqueza. Posso garantir que não.)

Tutty diz que Colin Firth fez a fala do Rei com perfeição, pois a grande questão do gago não é a mera repetição de sílabas, e sim a angústia da palavra que 'não sai'. É doloroso para quem enfrenta e para quem está ao lado, assistindo ao sofrimento de quem se ama. Mas é questão que pode ser vencida, se houver vontade de se encarar de frente os próprios fantasmas. Na história real do rei George, ter de transmitir confiança à população do Reino Unido, com suas falas (em plena era do rádio!) diante da ameaça que representava para a Europa o excelente orador Adolf Hitler, não deve ter sido fácil.

Se o samba de Noel brinca com o assunto, o de Candeia esclarece: "Mudo é quem só se comunica com palavras..." Nisso a gente acredita.
PS- Noel, claro, não era gago. Gago era o grande Nelson Gonçalves, um dos maiores cantores do Brasil, que tinha até o apelido de 'metralha'.

8 Comments:

At 1:40 PM, Blogger Marcel said...

Conheço algumas pessoas que são gagas, umas muito queridas, outras nem tanto. Mas é isso mesmo, você sofre junto, por gostar muito da pessoa e ver que ela se sente mal ao tentar falar e tropeçar as vezes.

Entretanto grandes cantores, e o poder da música é tanto que nem se escuta um gaguejar!

Noel, o poeta da vila era maravilhoso, a música "Três Apitos" dele é a minha favorita, que teve várias interpretações, mas as que realmente me apaixonaram foi a de Oswaldo Montenegro no álbum Letras Brasileiras que ele fez com o Roberto Menescal, e a sua versão junto da música "Sonora Garoa/Três Apitos" no álbum Saudade do Futuro.

Tudo de bom pra você e Tutty.

Um Beijo e Até Jazz!

 
At 8:02 AM, Blogger Paul Brasil (Paul Constantinides) said...

não me recordo de ver alguem associar gagueira a fraqueza...porem é possivel.
tento encarar como algo natural, não gosto de constranger alguem por ser diferente, ou por qualquer impossibilidade que tenha.

a musica Gago Apaixonado, de Noel, tem uma bela versão do MPB4.

acho interessante que Nelson Gonçalves seja gago e cante.

abs
paul

 
At 10:01 PM, Anonymous Sergio Santos said...

Quero muito ver esse filme. Quanto ao meu querido amigo amigo Tutty, ele é uma das pessoas mais fluentes que conheço, independentemente da maneira como lida com as palavras. O texto dele é outro...

 
At 3:36 PM, Blogger joyce said...

Com certeza, Serjão! Eu também acho!

 
At 1:03 PM, Blogger Dagmar Almeida said...

Querida Joyce,

A primeira vez que eu peguei coragem e subi as escadas que levam ate o camarim do Jazz Cafe para falar com voce, eu estava tao nervosa que quase despenquei la do alto. Refeita do susto, eu ainda nao conseguia bater na porta do camarim durante quase 10 minutos.

Eu estava nervosa obviamente por causa da admiracao que tenho por voce. No entanto, estava mil vezes mais nervosa por ser gaga.

O seu Tutty me viu ali - sei la por quanto tempo - do lado de fora do camarim e me convenceu a entrar.

As coisas que eu gostaria de lhe dizer eu nao podia dizer porque as palavras eram compridas e tinham muitos 't', 'd' e 'n').

No entanto, seu blog deixa claro que gagueira nao quer dizer nada para voce porque "sou casada com um,ha mais de 30 anos"...

Acho incrivel voce dizer tal coisa porque isto demonstra uma enorme empatia da sua parte com relacao a pessoas como eu, gagas e isoladas porque as palavras nao saem direito e eu nao quero fazer ninguem se sentir desconfortavel (ou pior ainda - com pena de mim!).

Nao era sua intencao enfatizar gagueira: o foco era a bela cancao do Noel. Mas o seu blog me enche de alegria e imenso ALIVIO(phew!).

O que voce disse no blog eh pra la de maravilhoso, vindo de uma pessoa como voce com enorme facilidade com as palavras - nao somente na hora de compor letras - mas na hora H de interpreta-las as vezes em frente de plateias hostis (e tocando violao simultaneamente).

No mes que vem, eu vou ver voce (Ronnie's)na maior tranquilidade porque se eu conseguir dizer o que eu quero dizer - otimo! Mas se as palavras ficarem entaladas dentro de mim, otimo do mesmo jeito!

Que Deus lhe proteja na sua longa travessia do Atlantico e o Tutty e os outros meninos tambem.

Perdoe a minha impertinencia, mas se houver opcao, por favor viaje em aviao de verdade: de aluminio como os avioes da British Airways. Por favor, fique bem longe de aviao de plastico (reforcado mas assim mesmo de plastico)como os avioes da tragica Air France.

Obrigada pela musica, pela empatia e pelo seu blog "LIBERTADOR" que me diz claramente que a eloquencia e o valor do ser humano nao tem nada a ver com a habilidade (ou nao, no meu caso) de articular palavras corretamente.

Obrigada por tudo. Estou contando as horas ate o dia 24 de marco.

Dagmar Almeida
(Londres E17)














E

 
At 5:08 PM, Blogger joyce said...

Dagmar, você desde já está intimada a comparecer ao backstage do Ronnie's... E pode ver o Tutty e o querido King George (why not?) como exemplos de pessoas a quem a gagueira incomodou, claro, mas não impediu de serem vencedoras no que realmente importa na vida.

Infelizmente nosso voo é AF sim, mas... fingers crossed!

 
At 7:14 PM, Blogger Marcel said...

Dagmar, eu adorei o que você escreveu!

Eu lembro que quando eu assisti a Joyce a primera vez, lá no Teatro FECAP aqui em SP, foi no bairro da Liberdade (cheio de pessoas mal intencionadas) e no dia que fui comprar os ingressos no teatro, quase fui assaltado por três pivetes na porta do teatro. Enfim, estava pouco me importando para as consequências, dei um chapéu nos pivetes e entrei no FECAP, comprei os ingressos e sai em disparada pro metrô.

E no dia do show, fui com a máquina fotográfica, e não podia usar, depois do show, e QUE SHOW!

Algumas pessoas ficaram para os autógrafos, estava quase desistindo, quando eu vejo a Clara e o filho vindo, e depois a Joyce, ai eu congelei, as palavras não saiam, e eu queria muito falar, me expressar e travei. Mas valeu tudo a pena! Tudo pelos meus heróis! =)

PS: Fatos verídicos, nada de história da carochinha! hehe

 
At 12:19 PM, Blogger joyce said...

Tudo bem, Marcel, no próximo você fala... :-))

 

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