
Quando eu era pequena, achava que queria ser escritora, como os amigos aí da foto (Heloisa Seixas, Ruy Castro, Ana Maria Machado, todos grandes nos seus ofícios e fãs de boa música). A música me sugou pra dentro dela quando eu ainda era estagiária no Caderno B do Jornal do Brasil, e nunca mais me devolveu.
Assim, não se cumpriu a profecia/desejo de minha mãe, que no Natal de 1960, tinha eu meus doze anos de idade, me deu de presente a obra completa de Machado de Assis, com uma dedicatória que dizia "que Machado de Assis te inspire no caminho que vais trilhar" (minha mãe era do início do século XX, pra quem estranhar o verbo na segunda pessoa). Virei um músico, e quando estou letrista, até consigo contar uma história direitinho. Ela também gostaria que eu tivesse sido diplomata, mas depois entendeu que de certa forma eu também represento o Brasil `a minha maneira. Eu faço o que posso.
Mas o velho Machado me inspirou sim, e muito. Principalmente seus contos (
short stories em inglês, termo que define melhor) _ psicologia, ironia, profundidade, compaixão, toda a grande comédia/tragédia humana, tudo lá. Estes dias mesmo, em SP, assisti a uma versão teatral de dois contos dele, feita por um dos elencos do grupo Ágora, de que nossa filha Kadi faz parte. A história do sádico Fortunato (do conto 'A Causa Secreta'), contada por excelentes atores, descrita não só nas palavras, mas por gestos, caras e movimento, é de arrepiar. Ainda mais tenebrosa do que a simples leitura do texto, que em si já é impressionante. "O Espelho", outro conto ali re-contado, é um tapa na cara dos quase-famosos. Leiam, vejam, tudo o que um pequeno título (no caso, patente) pode fazer com um mortal. Depois me contem.
Machado de Assis, genio da raça _ e além do mais, ele é carioca.