
Acabo de ler matéria no Globo falando de uma suposta modernidade: as parcerias virtuais. Nem tão
muderno assim, devo dizer: tudo depende do parceiro ou parceira com quem se esteja trabalhando. Eu, que sou pessoa gregária, adoro fazer parcerias. Mas não sou muito fã do sistema Tom & Vinicius de composição _ os dois compondo letra e música juntos, cara a cara, muitas vezes com platéia de amigos, esposas e/ou namoradas, admiradores, discípulos, enfim, um monte de gente olhando, participando e `as vezes
"atrapalhando a criação", como eu contei em minha música "Na Casa do Villa". Prefiro o silencio e a intimidade numa hora dessas, sem ninguém por perto, embora já tenha feito músicas cercada pelo mesmo monte de gente quando foi necessário. Por isso mesmo, perdi a chance de me tornar parceira do Vinicius quando ele me convidou. Fiquei encabulada, nos meus vinte e poucos anos, de compor na frente dele e da torcida do Flamengo. Não muito tempo depois, foi-se o Vinicius, e a oportunidade se perdeu.
(Impossível esquecer do Tom fazendo "Águas de Março' e mostrando a letra ainda no rascunho para os amigos, em suas várias versões _ e apontando para minha barriga de grávida (de minha filha Ana) e dizendo "é a promessa de vida no teu coração". E como esquecer a noite em Petrópolis quando Chico e Francis começavam a compor 'Atrás da Porta', e Chico, empolgado com o 'e me arrastei e te arranhei, e me agarrei nos teus cabelos, nos teus pêlos...', arranhou o peito de Francis até tirar sangue? Quem viu, viu...)
Gosto tanto de fazer parcerias que isso chega a impedir minha parceria principal, que deveria ser a minha comigo mesma, e que compõe a maior parte da minha obra. No momento, minhas produções-solo estão encostadas, `a espera de que eu tenha tempo para elas, enquanto, de todos os lados, meus atuais parceiros entopem minha caixa-postal com músicas lindas, que eu não posso deixar de completar. E olha a parceria virtual aí, gente!
O mp-3 foi uma invenção abençoada para compositores tímidos como eu. Em vez de ficar com o parceiro do lado, assistindo a todas as suas tentativas e erros (pois é assim que se faz), a gente tem tempo e calma para ir tentando, mexendo, mudando daqui e dali, até acertar. Vejam bem, falo de letra, não de música. Música é outro barato, a conexão é direta com os deuses, o canal está sempre aberto e o violão nunca decepciona: é pegar e tocar, e já sai alguma coisa que preste. Mas com as palavras é diferente: a responsabilidade pesa, `as vezes uma vírgula no lugar errado muda tudo, e eu acabo levando um tempão pra dar o texto por encerrado antes de apresentar para o parceiro.
Mas cada um é cada um: tem parceiro que gosta de compor junto, tem os que preferem mandar a música ou a letra, tem os que não sabem nem ligar computador, como Dori Caymmi e João Donato, tem os que usam a tecnologia do mp3 caseiro com desembaraço, como Menescal, Carlos Lyra e Zé Renato, tem quem passe a letra por fax, como Paulo César Pinheiro, tem quem grave em estúdio, como Leila Pinheiro e Francis Hime, tem de tudo um pouco. E olha que estou falando só das parcerias mais recentes...
Donato, nos últimos tempos, descobriu a pólvora: faz a primeira parte da música e entrega para a parceira (que sou eu, no caso) terminar a melodia e fazer a letra. Espertinho. Já vi que ele está fazendo assim com outros parceiros também, mas não sei se tem dado certo. Comigo deu, e eu ainda capricho nas segundas partes para que fiquem com a cara dele, como foi em 'E Vamos Lá', que fizemos num camarim do Blue Note Fukuoka, no Japão. Faz algum tempo, fui com o Tutty visitar a gostosa casa de Donato e Ivone na Urca, e saí de lá com três novas parcerias _ melhor dizendo, duas e meia, pois uma ficou ainda por completar. Ele gosta de trabalhar junto, no sistema cara a cara. Eu levo a música pronta pra casa e trabalho na letra depois. De memória, mas tem funcionado direitinho.
Bom mesmo é quando a parceria, virtual ou não, dá certo, e depois aparece lida e relida na voz de outra pessoa. A música então ganha vida própria e sai pelo mundo. Mas aí já estamos falando dos intérpretes, que é um outro capítulo.