palco é zona erógena
Mas acontece que palco é assim: transforma quem o ocupa em objeto de desejo. Não sei se são aquelas luzes, ou simplesmente a impossibilidade de se aproximar da pessoa a quem se admira, o que acaba provocando um efeito paradoxal. Talvez o vazio da vida diária, sei lá. Já vi de tudo, e dos dois lados do balcão.
Quando eu tinha uns 13, 14 anos, fui apaixonada por Anthony Perkins, o ator que depois ficaria célebre como o Norman Bates de 'Psicose'. "Apaixonada" seria exagero, não é que eu quisesse casar com ele ou coisa parecida _ a fantasia recorrente das adolescentes com seus ídolos _ mas era uma grande fã. Não perdia um filme, achava que ele era lindíssimo, e ouvia sem parar seus discos. Ainda ouço, pois se ele nunca chegou a ser exatamente famoso por isso, era um excelente intérprete de cool jazz, na melhor linha Chet Baker. E na vida real, depois fiquei sabendo, uma figura quase tão trágica quanto.
Um dia, lá pelos meus 15 anos, tive a oportunidade de estar com ele ao vivo. Ele viera ao Brasil promover um filme e estava hospedado no Copacabana Palace. Fui até lá com algumas amigas, na cara-de-pau. Entramos na pérgola do Copa e lá estava ele na piscina. Eu era a única que já falava um inglês melhorzinho, e servi de intérprete ao grupo. Vi como ele ficou irritado com as meninas que insistiam em tratá-lo como algum imbecil `a procura de mãe: 'I have a mother, thank you'. Diante disso, peguei meu autógrafo no livro de latim _ a gente estudava latim!!! _ e saí de fininho.
(esqueci de mencionar, meu herói era gay. Elegantemente, novaiorquinamente gay.)
Mas saindo da tela e voltando ao palco como zona erógena: na nossa profissão, tem gente que gosta e até busca isso. Outro dia mesmo um repórter de Pernambuco me procurou a propósito: ele havia entrevistado algumas colegas minhas de geração, seguramente mais ricas e famosas do que eu, que usaram os chamados 'atributos físicos' para alavancar a carreira. Você já viu isso nas capas dos discos: um peito aqui, uma coxa ali, até uma foto frontal da genitália coberta por um paninho sem-vergonha. Veja bem, não falo daquele pessoal da preferencia nacional, tipo Gretchen ou Carla Perez, mas de algumas com status de grandes cantoras.
E me perguntava, o repórter, por que nos meus CDs, mesmo nos da mais tenra juventude, ele mal via um ombro de fora. Eu disse a ele que respeitava, obviamente, a opção de minhas colegas, embora visse um tanto de ingenuidade nesse tipo de exposição _ elas se achando muito transgressoras, mas na verdade sendo usadas como capa de Playboy. Tive, a duras penas, de explicar minhas convicções feministas: se nossos corpos nos pertencem, o meu não estava ali pra servir de chamariz e dar lucro pra indústria fonográfica, eu estava mais a fim de mostrar minha música do que a minha figura, etc. E que política do corpo a gente faz na vida real. Não sei se ele ficou muito convencido, mas expliquei como pude meu ponto de vista.
Na verdade, sempre achei profundamente irritante esse tipo de exposição, e mais ainda aquele tipo de fã que mistura as estações. E faço votos para que nenhum ouvinte mais arrojado venha a me fazer passar pelo mesmo constrangimento que o Chico passou com as admiradoras dele. Vovô viu a vulva, mas vovó viu... o palco.