encontros e despedidas
Jeanie é uma cantora maravilhosa, da estirpe de Peggy Lee e Julie London, como Diana Krall também é. São cantoras de voz pequena, mas espertas no uso de seus recursos. Intimistas, sexies, tirando partido das palavras e dos sons, usando e abusando de um humor super-cool. No caso de Jeanie, o fato de ela ser filha de um gigante do jazz como Dizzy Gillespie não ajudou muito sua carreira. Ela sempre se manteve `a margem do nome do pai, ficando mais ligada sempre `a mãe, a poeta e letrista Connie Bryson, que teve a audácia (para uma mulher branca na década de 60) de criar sozinha uma criança resultante de um relacionamento com um músico famoso, negro e casado _ que só foi assumir a filha muito mais tarde. Jeanie, portanto, em matéria de origens, é uma espécie de Barack Obama do jazz. Se fosse brasileira, ninguém acharia nada de mais, essa mestiçagem é 100% coisa nossa; nos Estados Unidos, infelizmente, isso já não é tão comum, mesmo no ambiente livre da música.
Eu e Jeanie nos conhecemos na primeira vinda dela ao Rio, ainda nos anos 90, quando ela foi assistir a um show que eu fazia no Arpoador. Eu e Tutty a levamos a uma roda de samba no Sobrenatural, em Santa Teresa, onde ela se divertiu bastante. Daí para a frente, nunca mais perdemos contato, e tanto eu vi seus shows seguintes, quando ela voltou ao Rio, quanto ela foi me ver em NY nos meus. Fiquei feliz quando, num desses shows novaiorquinos, ela veio ao meu camarim e me apresentou seu novo marido, Coley (Coleman Mellett), um guitarrista de jazz bastante jovem e muito talentoso. Os dois estavam obviamente felizes juntos, vivendo aquela mistura de música e vida em comum que aqui em casa conhecemos muito bem, onde um alimenta o outro com idéias e sons.
Ainda no ano passado, recebi de Coley seu primeiro CD solo, que abre com uma bossa chamada 'For Joyce', composição dele dedicada a mim. Fiquei mais do que lisonjeada: quando um músico faz esse tipo de homenagem a outro músico, isso tem um significado muito especial. Como dizem os rappers: respect.
Entro agora na página dele no myspace, e lá está o 'For Joyce', com mais de 20 mil acessos. Neste momento em que escrevo, a cerimonia do seu memorial deve estar rolando lá em New Jersey, onde eles moravam. Torço para que minha amiga tenha fé e coragem numa hora dessas, e possa sacudir a poeira e dar a volta por cima. Com música e paz.