
Existem os
writer's writers, escritores que os outros escritores admiram, como Gay Talese (para o jornalismo) e Borges (para a ficção). Ou
actor's actors, como recentemente são Meryl Streep, Fernanda Montenegro, Philip Seymour Hoffman. Existem os
musician's musicians (sou casada com um), aqueles que são respeitados por seus pares e colegas de instrumento. Em matéria de cantoras, como
singer's singer, acho que Shirley Horn é talvez a maior unanimidade que conheço. Meu CD Slow Music é dedicado a ela (e a Bill Evans e João Gilberto), mas não foi surpresa para mim quando vi que a mega-ultra-superstar Barbra Streisand tinha feito o mesmo em seu novo disco. E fez mais: regravou várias canções que nossa musa Shirley já eternizara anteriormente, e com a suprema ousadia de usar o mesmo arranjador, Johnny Mandel. Quem pode, pode, sem dúvida.
Divina (tão divina quanto Elizeth foi pra nós aqui no Brasil), La Horn não tem as firulas vocais de Ella Fitzgerald (que também adoro, quando está em seus momentos cancionistas; nos momentos de scat, acho um pouco excessiva), nem a extensão vocal de Sarah Vaughan (que às vezes é um fim em si mesma), nem a frieza de Carmen McRae ou as loucuras de Betty Carter - SH é emoção pura, conjugada a técnica perfeita. Ela é, aliás, uma falsa perfeita, como Elis também foi. E ainda toca aquele piano todo, e harmoniza as canções com propriedade absoluta. É senhora do tempo, dos silêncios, das pausas longuíssimas, mas tem um suingue infernal quando quer. A escolha de repertório é quase impecável. SH é tudo de bom.
(Estou falando dela no tempo presente, porque grandes músicos não morrem.)
No comecinho dos anos 1990, fomos colegas de gravadora, na americana Verve. Muitos anos depois, fui vê-la ao vivo pela primeira vez, quando veio ao Rio. Não era um bom momento. Ela já estava bastante doentinha, tivera um pé amputado, por complicações de diabetes, e não tocava mais piano, pois seu delicado trabalho de dinâmica dos pedais estava prejudicado com isso. Imagino sua aflição, ela que sempre fizera absoluta questão de ser a pianista de si mesma e sempre recusara as propostas para ser uma stand-up singer, ou seja, a cantora que se apresenta de pé no centro do palco, microfone na mão. O piano e ela eram uma unidade, assim como voz e violão têm sido para alguns de nós aqui na nossa MPB, a partir de João Gilberto. Sei perfeitamente, portanto, como ela se sentia quando disse que só gostava de cantar ouvindo os acordes que tinha imaginado, e por isso não podia dispensar o piano. Eu sinto exatamente a mesma coisa com relação ao meu violão.
Enfim, voltando aos anos 2000 e pouco, quando fui vê-la: era o famigerado Free Jazz Festival (que nossa filha mais nova, de humor especialmente ácido, tinha apelidado de "Jazz-Free Festival"). Os espetáculos estavam distribuídos por diversas tendas, uma para cada gênero, e nossa musa se apresentava no chamado 'club'. Só que bem ao lado estava a tenda do hip-hop, e o tratamento acústico não era dos melhores, para dizer o mínimo. O concerto de Shirley, com suas pausas e silêncios, seria enormemente prejudicado pela barulheira ao lado, fazendo com que ela parasse o show na metade, por não conseguir seguir em frente com sua música.
Foi um dos momentos em que tive mais vergonha de nossa brasileiríssima falta de cuidado, embora esse tipo de coisa até possa acontecer em outros locais também. Mas a diva estava lá, em cadeira de rodas, pronta para oferecer o seu melhor, embora apenas com a voz - o piano estava ocupado por outro músico, já que ela não podia mais tocar. Mas isso já era muito. Não custava nada o pessoal da organização ter programado horários diferentes para os diferentes espetáculos. Teria sido mais respeitoso.
Fui falar com ela no camarim, depois do show. Ela se lembrava de mim e foi gentil, dentro do possível naquelas circunstancias. Sua produtora, Sheila Mathis, uma boa amiga dos velhos tempos da Verve, me ajudou a sair dali antes que sua patroa desse uma solene bronca nos organizadores do festival. Seria a última chance para nós, seus fãs, de tê-la ao vivo, pois a Divina iria falecer logo em seguida.
Tudo isso me veio à lembrança enquanto ouvia Barbra cantar 'Here's To Life', a canção-assinatura de Shirley, com um arranjo do Johnny, quase igual-que-nem o original. Corajosa, essa dona Streisand.
PS- Perdão, tomei como certo que todo o mundo que lê meu blog tenha lido meu livro também. Nele há um capítulo chamado 'Perfeição' onde eu, meio de brincadeira, divido os criadores em perfeitos e imperfeitos. Cito a mim mesma aqui: "o imperfeito é possuído pela paixão, o perfeito a possui". Então, por exemplo, Pelé é perfeito e Garrincha imperfeito, Renoir é perfeito e Van Gogh imperfeito, e por aí vai. Todos geniais, de qualquer modo. Os falsos perfeitos parecem perfeitos, mas não são: já chegaram a tal domínio da sua arte que podem deixar a emoção fluir sem risco. É o caso de Shirley... e de Elis.